Mobilidade urbana

Escrevo mentalmente um poema chamado mobilidade urbana. Fala de quase nada e de muita coisa, como um poema deve ser. Li o poema póstumo de Leonard Cohen, e apetece-me ser o Leonard Cohen de anything. Não sou. Sou um motoqueiro desastrado, com um casaco de anime japonês. Call me the guy that makes poemas sobre mobilidade urbana. Sobre a beleza juvenil de uma trotineta automática a cruzar a avenida da República. Foi daí que começou o poema, com o título, mobilidade urbana. Há títulos que são versos, e títulos que são (o) in-verso(s). Como um título de Herberto Helder. Já leram o conto Os Comboios que Partem de Antuérpia? Assombroso. Uma solidão que desarma. Lembrou-me o inverno na Bélgica, quando o li, na quinta-feira à noite. Agora é sábado. Estamos no outono, e o mar está branco. “Penso que o mar dá uma qualidade pessoal à fantasia, ao desejo e à confiança”. O Herberto Helder é o Leonard Cohen e o Herberto Helder de anything. Eu não. Sou só um jurista que viaja a pé, ou em motas elétricas, ou ainda de metropolitano. Gosto de passear: penso que um passeio dá uma qualidade especial à vida, ao dia, ao amor. Não escrevi poema algum. O poema só nasce / depois de um café / na pastelaria Nova Lapa. E isso acabou, agora mesmo, de suceder. Fim.