Jornal catalão

Estou sentado no terminal um do aeroporto Prat de Barcelona. Acabei de ler a página cento e trinta e três e última de Jesus’ Son de Denis Johnson. É um dos melhores livros que li, recentemente. A escrita é muito vívida, muito violenta. As imagens contadas entram-nos por dentro da alma, imagens que são verdadeiros faith divers. Faith divers é um trocadilho, mas também é uma verdade. A verdade é que há realidades, ou imagens de realidades (em si mesmas, realidades) que nos renovam a fé que temos no mundo, na humanidade, na vida – qualquer que seja a abstração pretendida. Mesmo quando essa fé já é incondicional, em nós. Senti isso com o livro e com o cheiro a padaria quente no café do metro do aeroporto. Estava cheio de gente. Não me apetecia café, pelo menos não como me apeteceu no vôo de ida. Tinha dormido pouco, e sestei durante uns minutos no ar, acordando com uma vontade que só é explicável por amor. Gulodice é outra coisa; é, depois de um fim de semana de barriga cheia (literalmente) comer uma napolitana de chocolate+croissant no bar de um aeroporto catalão. Levei a meia-de-leite comigo num copo de papel. Subi escadas rolantes, e ao passar por bares que procuram representar uma realidade exótica, como se isto fosse um sítio tropical, e não uma cidade europeia em ressaca de tensões independentistas, pensei o quanto eu amo aeroportos, apontamento mil e trinta e sete nessa nota. Amo o espaço dos aeroportos, mas pensei, enquanto estava nas filas muito rectas do labirinto que leva ao controlo de bagagem, que amo o movimento completamente universal dos aeroportos, a globalização concreta de tudo isto, pessoas com histórias e malas em fila, a tirarem os seus despojos e cintos e sapatos ao lado uns dos outros, partilhando nesses momentos, por um milagre casual, uma existência comum mais intensa. Reparei nos pés finos e espalmados de uma adolescente que passou no detector de metais depois de mim; pareciam lâminas. Tirei uma nota no telemóvel sobre isso, enquanto andava pelo aeroporto. Gosto deste aeroporto, é grande e aberto. Ainda para mais tem falhas, pormenores estranhos, como anúncios datados de 2015. Estou em modo vôo. Dormi duas horas, tomei banho, apanhei o metro. Há quem tenha terminado um night shift forense, e há party-goers selvagens que estão numa onda discotécnica imparável, algures na cidade condal. Troco mensagens com todos, porque you do what you got to do, you do everything that you can, an an. But I love you, I love you, I love you (tu, tu, tuuuuuuu). I love as personagens de Denis Johnson, embora nem por um minuto quisesse ter a sua vida desesperada. I love a sua ternura, a ternura que conseguem demonstrar umas às outras, na perdição em que se encontram. Comprei ontem um livro em catalão, um ensaio ético-moral sobre a ternura. Comprei ainda um livro de poemas, também em catalão. Abri e li um pouco, senti um ritmo, e percebi que o ia levar. Por fim, comprei um livro que compara, historicamente, os projectos independentistas catalães e escoceses. Está escrito em castelhano. Maybe there’s um acto político aí, ou maybe not, só uma consideração prática. No elevador da discoteca Eclipse, na sexta-feira, ouvi um catalão a dizer “Respeita-me” a uma espanhola que não gostava que (her words) lhe falassem em catalão quando está em Espanha. Eram quatro da manhã, nenhum de nós se conhecia, e tínhamos todos bebido. Mais tarde voltei da discoteca Opium a pé para o hotel, tal como há umas horas atrás voltei do restaurante Ajoblanco para o segundo hotel. Sabe bem andar a passear na rua de uma cidade estrangeira, de noite. É diferente de um aeroporto, não mais nem menos romântico, só diferente. Entretanto, dois indianos que estão atrás de mim na fila de embarque do avião dizem que deve ser fixe trabalhar na europa. Talvez. Não penso em trabalho agora. Penso que os tipos sentados na fila da frente da aeronave parecem uma espécie de goodfellas castelhanos. Calças escuras, camisas azuis, caras quadradas e ar de bronco. Anoto que cerca de oitenta e nove por cento dos passageiros (números aproximados) têm ar de ser da zona (que é a forma geral de evitar o risco inerente a chamar-lhes ou espanhóis ou catalães). Depois sento-me no lugar, junto à janela. Toca uma selecção de música de dança, algo entre o chill out, o minimal e a pop. É o momento perfeito para este respectivo aparelho humano que vos escreve procurar descansar, através de uma sesta mais ou menos possível. Antes penso que, bem, é impressionante: quando lês um bom livro com um bom narrador ficas a pensar como ele. Os teus pensamentos são como as suas frases. Se ele é épico, tu és épico, ou queres ser. Parece que vês todos os faith divers que existem. Coisa boa. Mas agora é preciso dormir, em especial depois de lidar com matérias sensíveis, como passeios em ramblas, literatura norte-americana, poesia catalã, noites longas e passeios de maresia, tudo within um feliz momento de convívio laboral. Tudo se faz, tudo se consegue. (Na descida, olho para as nuvens e penso no que será poder estar no meio delas; olho para as casas e começo a contar quantas piscinas vejo, mas desisto ao número quatro; a ponte 25 de Abril está bonita com o nevoeiro, tirei uma fotografia; e parece, weather wise, que está um dia complicado em Lisboa, mas é o que é, e é aproveitar). Um bom domingo, juventut.