Slow run

O sentimento é o espaço. É o ritmo, muito lento, com que o meu corpo se move. Já podia estar a jantar, mas prefiro estar aqui, a correr, ao ar livre. O ar sai e entra pelo nariz; a boca fechada. As canções de 2018 saem em modo aleatório. Não passo nenhuma à frente. Lembro-me de estar ontem à noite a circular pela Baixa, a ver as luzes de Natal. Algumas bonitas, outras inestéticas; no rádio do carro ouvia-se o ping-pong da Matilde e do Tom. Mountain Goats, Chico Buarque, Wings, Beach Boys. A beleza, naquele carro. No meu carro de manhã também havia beleza; cruzei a avenida de Ceuta, por baixo do viaduto Duarte Pacheco, a caminho da Faculdade, like all monday mornings. Mas unlike all monday mornings ouvia o Middle America do Stephen Malkmus. Se o sentimento é o espaço, o que dizer de uma canção que é toda ela uma cidade? Falo de Ann Arbor, claro. Oiço os acordes, a voz, a letra — sei a letra de cor, because blame stops until you do / the major duty — e estou em Hill Street, estou em South State, estou no Ashley’s ou no Quickie’s, estou na Literati, estou lá. Atenção: estou zero nostálgico. Estou só bem. Estou com uma das gravatas do meu pai, uma arriscada, mas de que gosto especialmente, especialmente por ser arriscada. Os anos setenta, os anos oitenta, tempos arriscados. Os anos zero também. Cada dia é um risco, se calhar. Se calhar. Cada dia é um espaço, cada dia é um feeling. How / is / the / feeling? Disse à minha mãe e à senhora nice o que achava do feeling, no domingo. E agora estou sentado, acabado de jantar, de ver o Newcastle a ganhar miseravelmente contra o Burnley, e tenho uma mala para acabar de fazer. Vou ler umas linhas da novela que me tem ocupado os dias; em Minna Needs Rehearsal Space, Dorthe Nors escreve, entre várias coisas, que “Minna once won a prize for some chamber music / Minna would rather have gotten a license to live”; que “Hope is a roe deer on a bluff”; e ainda que “Cake is the opiate of the people”. Rio-me, comovo-me, como bolo (uma espécie de pão de ló, neste caso). Sinto a calma a cair. Li, sem dar por ela, quatro livros de Calvin and Hobbes nas últimas duas semanas. Clássicos absolutos. O sentimento é o espaço, e pode ser uma tira de quadradinhos, a preto e branco, onde um miúdo mimado discute o sentido da vida com um tigre de peluche sarcástico. Ou então pode ser um quarto de paredes brancas, com a chuva a cair lá fora, um saco de gomas na mesa de cabeceira, enquanto o fim-de-semana é. O sentimento é o tempo, o espaço, o que for. Hoje andei de bicicleta pela marginal, e depois corri. Pelo meio confessei-me e comprei um novo caderno de notas. Gosto de cadernos, e de canetas, e de escrever no papel. Às vezes, sem dar por ela, mexo-me muito durante um dia, escrevendo algumas coisas aqui e ali e ali. E depois chego a casa e sento-me no sofá e pronto, está tudo. O espaço está todo no sítio (E o sentimento? Preciso mesmo de dizer?)