A song from Países Baixos

Olho pela janela do comboio e vejo os campos abertos, com as casas pequenas e amplas, cujos telhados vão quase até ao chão. As árvores estão espalhados em grupos muito concentradas. Por vezes há uma fina estrada ou caminho que corta o verde. Por vezes há ovelhas, e vacas. Há muitos moinhos elétricos. Lembro-me dos campos do Ohio, embora não veja celeiros em lado nenhum. Só terra. E, por baixo da terra, água. Água no céu, água na terra. Penso: a Holanda deve ser uma terra abençoada, com tanta água em tanto sítio. Nisto entra o revisor. O revisor é simpático, deseja boa viagem com um sorriso. O vendedor de comidas também é simpático; ou pelo menos está muito animado. Recuso simpaticamente mais um café — seria o terceiro, ainda antes do almoço. Tomei o primeiro ao acordar, e o segundo no bairro asiático de Amesterdão. Apeteceu-me; entrei num bar simples mas algo hipster-revolucionário. Pelo meio passeei, fui a uma livraria, comprei um livro, e depois fui visitar a basílica de S. Nicolau. É a segunda Igreja dedicada a S. Nicolau em que entro, em três dias. Estava frio lá dentro, e escuro. A basílica é pequena, acolhedora. Também está frio lá fora, como deve estar num bom Inverno. Só com estas tensões e estes conflitos é que valorizamos o que as coisas são. Gosto de sentir o frio na cara, de sentir a pele e os músculos frios e suaves da cara, no Inverno. Achei que estava pouca gente em Amesterdão, pouco movimento. Se calhar é por ser quarta-feira. Se calhar. Estou sentado num comboio a ler o livro que acabei de comprar. Trouxe dois livros de Lisboa, mas é com este novo que viajo hoje. Acontece. Viajo rumo ao norte. Já tenho alguma fome, mas a viagem é curta, e estou numa carruagem onde não se pode conversar. Sabe bem viajar em silêncio. O comboio pára numa terra chamada Zwolle, e eu penso: está um bom dia para se viajar, na Holanda. Volto a mergulhar no livro, mas antes olho mais uma vez para fora da janela, para a canção que os países baixos me cantam, serenamente.