Álbum, 2018

Há um momento em que são quase seis horas da tarde e ela está a conduzir e a estrada está com espaço e estamos a voltar de fátima pela A1 e o céu está feito um daqueles monumentos de linhas vermelhas, laranjas e azuis, tipo dégradé, enquanto o sol se pousa, tipo postal africano, e está a dar o I heard you looking no rádio do carro, e eu penso: isto é um cenário bonito e cinematográfico, como se tivesse sido desenhado à medida e posto aqui de propósito, e penso – e digo, em voz alta – que estou na minha estrada preferida, com a minha miúda preferida, a ouvir a minha música preferida, e penso que tudo isto poderia caber num refrão, tipo “tanto que foi e veio / como num carro pela A1 / um passeio na cidade / com o céu já meio escuro”, e depois penso nas coisas sobre que rezei, sobre o ano que se passou e sobre o ano que está a chegar, e em todas as pessoas que amas e que não amas, pela vida em particular e o mundo em geral, e depois penso na essência estrutural de todas as realidades que me rodeiam – carro, céu, canção, C – e reparo que todos começam com a letra cê, e acho isso cool, porque acho estas coisas cool, sou um tipo que acha cool acordar e olhar para a agenda e ver o menu do dia, e depois, assim pela calada, quando o sentimento chama de forma inesperada, tipo tipo, num intervalo ou espaço ou buraco ou o caraca que lhe quiserem chamar, escrever qualquer coisa sobre isso, sobre o dia, o tempo, as palavras, o amor em particular e a vida em geral, e depois deixo-me ficar no carro perante o céu a ouvir a música e a olhar para ela e para a estrada, e, depois, fecho os olhos, e sinto: que bom, que bom. Que bom.