É engraçada a imagem que se vê da janela. Digo isto sempre que algo me parece — como dizer? — naturalmente cinematográfico. Falo da baía, da lua, e da roda luminosa que por lá está. Gosto especialmente da luz da lua a cair na água. É dreamy. Também gosto da cor laranja dos sofás: ficam bem neste tipo de casas, cheias de sol. Se calhar podia arranjar uns para a minha. Se calhar. Mas tinham de ser mais torrados do que estes. Estilo vintage. Estilo, tipo, califórnia anos 70. Tipo golden. Independentemente disso, gostava de ter um sítio em que nos pudéssemos sentar, lá em casa, para ver o lusco-fusco. É a melhor coisa que este país tem: o céu, e em especial, o lusco-fusco. Não consigo imaginar muito bem o futuro, a minha mudança de casa, e a minha escrita — hoje, enquanto descia a Rua das Flores, saíram-me dois versos: “em Portugal / não há café americano”. Mas consigo lembrar-me perfeitamente dos olhos que se desmanchavam e que me levavam com eles all the way through, profundidade absoluta, até ao ponto máximo da gratidão. Foi como se, por um instante, tudo fosse aqui, agora, ser e estar, ao mesmo tempo. Não há filme que bata isto, que seja um céu da mesma maneira. Mas enfim: não me tem apetecido escrever. Não quer dizer que não ande a guardar coisas, pessoas, eventos, e outros milagres da rotina. Vão é ficando comigo, e contigo. Por exemplo, o novo disco da Sharon Van Etten (holy shit, o pauer daquilo). Por exemplo, hoje, ao final da tarde, quando estava a ir apanhar uma bicicleta no Cais do Sodré, e olhei para cima. Nuvens, luz, um risco. Veio-me um título à cabeça. Era o seguinte: