Acho que podíamos olhar para o frio de outra forma, como se em vez de um sentido fosse uma coisa. Tentemos esticar a mão, protegidos pela sombra da rua da Lapa, e tocar. Sentem? É uma espécie de camada. Ajuda se estivermos quentes, de antemão, mas não ao sol. Bebam um café, ou então abram as portadas de uma casa recém-electrificada para verem a quantidade de luz que pode entrar. É muita, muita  muita muita muita. Assim ficam aquecidos. E o frio torna-se uma coisa que, apesar de presente, não é pesada. É engraçado: passamos o tempo a viver um jogo entre a realidade, o sonho e o desejo, procurando unir pontos entre os três. Fazemo-lo através da confiança, e do bem. Estou a cruzar a avenida de Roma de noite, with all of the lights, all of the lights ligadas. Acho que é das imagens mais cinematográficas desta cidade. É tão real, tão sonhadora. Oiço um disco do Angelo de Augustine no carro, e na Praça de Londres ouço uma voz — que é a minha, mas em modo podcast — a falar-me em língua inglesa, pedindo-me para pensar como uma espécie de personagem irreal, daquelas que lemos em páginas de blogs mas nunca chegamos a conhecer. Tudo isto dentro da cabeça, claro. Há tantas histórias que correm dentro da cabeça quando se anda de carro. Gosto de andar de carro, talvez por isso, ou talvez e só pelo movimento que as coisas ganham, tanto lá fora como cá dentro. Mas gosto mais de andar a pé. O movimento é mais lento. Recortei uma frase de uma entrevista, que dizia mais ou menos o seguinte: se tens uma coisa para fazer em muito pouco tempo, então fá-la muito devagar, porque só vais fazê-la uma vez. Hoje de manhã acordei e fui andar a pé. Quando cheguei, a porta estava aberta. Antes da eletricidade, veio a água, porque primeiro vem a vida, depois vem a corrente. Entrei e fui directo à cozinha. Vocês deviam ver aquela cozinha, e aquela light de início de dia que por lá andava. Boa realidade, bom desejo. É impressionante — a potência do aconchego com que se pode começar um dia da semana.