Romance académico, número novo: o seu filme de sábado de manhã

Cor, sonoro, planos fixos, um certo ar de cinema de autor europeu. Fundo escuro, título a branco, fonte times new roman, 12, bold. Primeiro plano: um homem, no início dos seus 30, dentro de um apartamento em obras, a abrir os olhos para a câmera. O seu nome, na vida e no filme, é “o assistente”. O assistente está a tratar das obras da casa. É sábado de manhã, segundo dia de montagem de janelas. Este trabalho está a ser levado a cabo por três homens, um chefe e dois putos, todos com origem num país do leste europeu. Só o chefe é que sabe falar português, mas os putos dominam a língua inglesa. A câmera acompanha, num plano longo, os três trabalhadores a desmontar as janelas antigas de madeira e a montar as novas de PVC, com todos os instrumentos e sons necessários para o efeito (martelos, berbequins, pés de cabra, hip-hop americano circa início anos noventa). Enquanto essas acções decorrem temos planos fixos do assistente, que passeia e olha para as obras, fixando o seu olhar nas paredes e nos buracos onde estavam as antigas janelas. Depois olha para os restos quebrados dos caixilhos antigos que estão no chão. No seu caderno, o assistente desenha de forma (bué) tosca pequenas plantas a caneta preta — grande plano da planta da futura “sala da televisão” — enquanto (outro plano) os putos do leste estão no terraço, a ver a vista sobre o Rossio, Sé, Castelo e rio. Está um tempo ligeiramente solarengo, ligeiramente nublado, altamente indeciso. Há um cargueiro estacionado no rio; plano fixo do mesmo, ao som da música house que toca nas colunas do puto um. O puto dois faz manobras de malabarismo com um martelo. O assistente abre um manual de introdução ao direito da união europeia que trouxe para ir preparando o início de mais um semestre académico. Vai lendo a descrição de história da UE a espaços, ora de pé, junto a um dos buracos – aquele onde, numa das plantas desenhadas, está designado o “escritório” — ora sentado, em cima do caixote de lixo da cozinha. Pensa e reflecte sobre várias coisas — voz off, seca — como na demolição da parede de pladur que separa a cozinha da “sala de jantar”, ou no estilo demasiado positivista (para o seu gosto) do manual que está a ler, ou na péssima meia-de-leite consumida nessa manhã, comprada num franchise empresarial português, que ainda vive no copo de papel que tem ao seu lado. Num outro plano está sem livro e de pé, no meio da “sala de estar”, entre estantes pintadas de vermelho, a imaginar o que poderia ficar bem na porta de correr. Pareceu-lhe bem fazer algo ali, tal onar de tela da porta recém-pintada de branco. Considera comissionar a alguém uma obra, sobre o sentido da vida e a sua manifestação có(s)mica, para colocar ali. Plano da porta, como se visto dos olhos do assistente e de vários choques de cor e desenhos que aparecem e desaparecem no fundo branco, em vários momentos. Depois novo plano da cara do assistente, de olhos abertos. Compenetrado, sonhador, aluado, indeciso — ou tudo isso, e mais alguma coisa. Às vezes, quando a máquina de lixar se cala, o assistente fica a ouvir os putos e o chefe a falarem entre si em eslavo, reconhecendo algumas palavras, como “silicone”, “resina”, “Dr. Dre”, “Snoop Dog”. A música passa de house para transe. Ouvem-se martelos, lixas, jargão do leste, e algum, leve som de carros, à janela. Plano fixo do assistente, no meio desta cacofonia, de mãos nos bolsos, junto ao buraco do escritório. Planos rápidos do rio, dos telhados, de um bar para um sunset manhoso, e de um cacto amarelo do vizinho do lado. Depois há um lento close up até à cara, séria, misteriosa, e observadora do assistente. A cara vira-se para a câmera, tal como no princípio do filme. Dá-se um lento piscar do olho esquerdo, à medida que a música sobe na mistura face ao restante. Voz off: “até j” — corta para  fundo negro: silêncio. Depois música popular ucraniana, créditos. Fim (de semana).