O que faço eu aqui (por provocação de um poema com o mesmo título de Juan Vicente Piqueras)

E então resolvi sair do escritório e aproveitar o que resta da hora de almoço ao sol, na rua, e acabei por descer até à FNAC, onde não há sol mas há livros, e folheei alguns, sobretudo de poesia, e anotei o nome dos que gostei, os que tinham bons versos, e ainda fui à secção de livros em inglês passar a mão pelas capas, ver as novidades, antes de me sentar a ouvir uma espécie de bossa nova de décima-segunda categoria na sala de leitura, sem livros mas com alguns versos, escritos rapidamente no telefone, e pensei ali em ser poeta, em assumir-me como tal, apresentar-me como tal, olá, sou o Martinho, advogado académico blogger e poeta, e a partir daí escrever e publicar versos mil com sentido e vida, mas levantei-me e voltei para o sol, para a rua, e subi-a e voltei para o escritório, olhando para as montras no caminho e controlando-me para não beber um terceiro café na copa, ao chegar, porque apetecia-me o sabor de um café quando me sentei para trabalhar, tal como me apetecia saber escrever poesia, saber pôr em versos a imagem da lua, cheinha como tudo, a cair sobre o rio e a ponte, ai a lua a ponte e o rio, aquela imagem típica de postal turístico, clichê lisboeta, meu Deus eu sei, até vi um tipo hoje com uma câmara num tripé a fotografar a imagem, junto ao MAAT, mas eu gostava de vos poder fazer ver isso mesmo, o efeito dessa imagem, em dizer-vos como o rio escuro brilhava, não como prata, mas como qualquer coisa demasiado real e bonita para ficar apenas condenada a existir durante um simples momento, aquele momento em que eu regresso do Padrão dos Descobrimentos, a cinco quilómetros e vinte e cinco por minuto, a ouvir o Time After Time da Cindy Lauper, a sentir o tornozelo esquerdo a doer, e com a cabeça completamente noutra, no céu, no rio, em frente, completamente em frente, completamente bem, completa e mente tudo, e depois deixei-me ir, com poesia e sem versos, apenas passos e respirações, até acabar a maldita hora de corrida que prometi dar à casa por mais um bom dia de fevereiro. Soube bem.