O que se passa é que no sábado santo, depois de uma overdose de açúcar, deitei-me no sofá da sala, e li a história de Rhea, que é uma personagem de um romance premiado, vivia nos anos setenta, e era aquilo que se podia chamar uma punk, tinha sardas, não gostava das sardas, também acho que não gostava do punk, mas pintava o cabelo de verde, e usava uma coleira com picos, e entretanto sinto o açúcar a correr no sangue, especialmente na  cabeça, junto à testa, e Rhea tem uma banda, e tudo na banda é juvenil, e portanto tudo é exagerado, tudo é inseguro, tudo é novo, e tudo é violento, e no meio desse “tudotudotudo” há um certo sentido, e há muita sensibilidade, e na sala há silêncio, há janelas fechadas e há luz por trás dos vidros, há algum vento que entra pela janela aberta da sala ao lado, e que depois entra pelos furos das crocs antigas que saquei de um armário de roupa velha, umas crocs amarelas, gosto imenso da cor amarela, mas não gosto de crocs, mas é sábado e estou no paraíso, e a ressurreição só precisa de amor e de silêncio para acontecer, por isso danem-se as crocs, e dane-se o punk, e deixe-se ficar só o tempo, só a tarde, só o vento, só o silêncio, só, deixemo-nos ficar, só.