O prado – não o vale – costumava ser verde. Agora aloirou. Foi do sol, talvez. Não percebo bem como funcionam os fenómenos da natureza. Só sei que sim, que existem. Quando desço a rua de manhã e a subo de tarde fico muitas vezes parado a olhar para o prado. Vejo-o a mexer com o vento. Não é especialmente bonito, nem grande. Mas é qualquer coisa que vive. Gosto da certeza desta vida, a das árvores e das plantas. No outro dia estava de café na mão a caminho de uma instalação televisiva, quando encontrei um tipo na rua (não sei se era uma aparição, um anjo) que me disse que “as coisas estão lá, e vão continuar lá, e quando as coisas desaparecerem vão ser substituídas por outras coisas e a vida, bem, a vida é assim, e temos de relaxar”. Uma das minhas bandas preferidas tem uma canção cujo primeiro verso é “vem fazer um disco no mês de Maio”. Aconteceram muitas coisas neste mês de Maio. É a sina das coisas: acontecem, algumas ficam, e outras passam. É um movimento perpétuo, que apesar da sua dificuldade é muito bonito. O prado vai voltar a ser verde; talvez não esteja aqui, num gabinete de janela grande, quando for de novo o tempo, mas posso sempre lembrar-me quando me apetecer. Posso lembrar-me igualmente do céu branco-cinza e das nuvens branco-luz que por lá andavam, numa sexta-feira de meio de Maio, último dia de aulas de um semestre académico, e dia de crisma. Talvez o importante seja isso: confirmarmo-nos constantemente, perante todas as coisas, na verdade que nos foi dada, dia a dia, passo a passo. E, pelo meio, parar para ver as árvores e os prados, a sua serenidade imortal e o seu lento embalo, como quem diz: vem, vem fazer a vida, neste mês de Maio.