Acordo cedo e carrego livros, abajures e quadros. Depois arrumo-os na estante, ainda sem grande nexo, pondo os Figueiredo Dias ao lado dos Barthes, os DeLillos entre Herberto Hélder e Bill Nichols,  e outras arrumações. É um exercício completo, para braços e pernas, carregar pilhas de páginas por muitos lances de escadas. Às vezes escrevo longos postais na cabeça, entre descidas; às vezes oiço na minha cabeça uma canção, como a soul-chill de Helado Negro.  Quando acabo tomo banho, faço a barba, arranjo-me como se já lá estivesse a viver – mas não será que já lá estou a viver? – e vou para o trabalho, via pequeno-almoço e igreja, porque continuo a ir rezar antes de ir para o escritório. Entro na Igreja e ajoelho-me e penso que talvez a maior liberdade que está ao nosso alcance seja mesmo a de poder amar. Sem mais, fecho os olhos, e fico em silêncio por uns instantes. O amor liga-me à saída e faz-me companhia até à porta. E eu sigo running running running running running running running running (just / like / tu).