Só há duas divisões que interessam numa casa. Uma é a sala, a outra é o quarto. Digo isto porque é ali que a vida acontece. Podes estudar tudo o que quiseres no escritório, ler livros e escrever teses, quiçá até fazer um disco. Mas mais nada. A cozinha idem idem, aspas aspas: um local para outros ritos, outras passagens. É na sala que te sentas, que te deitas, em que bebes. Em que vives, sozinho ou acompanhado. E no quarto acordas, e dormes. Todos os dias. Todos os dias aquele pátio com aquela mesa e aquelas cadeiras ali ao lado / e as árvores a abanar / e a luz / que entra por um canto. Não há experiência mais sensorial do que o tempo. Como ele te apanha, volta e meia, quando te deixas ir – I was thinking about that / while waiting for the lights / a taxi driver got out of the car / but in the end there was no fight / the only things that existed / were time and / German prog music / on the radio / actually, I started thinking of all of this because of the radio, no outro dia estava a ler um artigo da Jia Tolentino em que ela escrevia sobre a sensação de ectasy. Ela acaba por dizer que you don’t have to believe a revelation to understand that something inside it was real. Outra coisa sobre casas: só sabes que tens ou tiveste uma casa quando passares lá um Verão. Porque abres a janela, para refrescar, e estás de pé e cansado, e vês a luz a cair, e depois vais para o quarto, e o quarto tem luz, e não sei, é tipo um pequeno conforto. Luz, espaço, tempo e silêncio. É bonito. Não sei explicar.