Pensei muito nisso, ontem. Que quando cheguei a casa no domingo a lua estava a bater no rio. É um fenómeno impressionante, digno de todo o mito. A lua cheia e clara e o rio cheio e iluminado. Disse à ultra para sair do carro, que vale imenso a pena assistir ao espetáculo, e ficámos os dois a olhar para aquela imagem. Mais tarde senti – ou pensei, nem sei bem, porque às vezes é tudo tão natural e rápido – que na minha vida vou passar por muitas casas, e que todas as casas vão ter os seus momentos, os seus espaços, os seus tempos, e os seus mitos. No final, fica o amor. Como acontece quando as pessoas se vão embora, quando desaparecem para sempre. Fica só o amor, seja ele o que for: seja lá qual a intensidade do que tenhamos passado, seja com uma pessoa, seja com uma casa. O amor é eterno, e também é terno, não tanto como a banda (que é muito terna, apesar de tudo), mas sim como as Igrejas. Gosto muito de Igrejas, da ternura que me enche imediatamente quando entro e me sento num banco de uma Igreja, próximo do altar. É uma ternura muito especial, muito específica, porque é muito verdadeira, calma e acertada. Tem muita força. É uma ternura que sinto com pessoas (com os sorrisos das pessoas, em especial com o sorriso da ultra) e com lugares. Sinto esta ternura quando estou perto de montanhas, ou em desertos, ou em aldeias portuguesas. Sinto-a especialmente quando passeio por ruas de cidades, em estradas, e quando estou a conduzir um carro. Ontem fui de carro para casa, levando uma toalha e doces turcos oferecidos pelos sogros. Estava introspetivo, e mal liguei o carro senti-me como se fosses uma personagem de um filme. Típico. A música que tocava era, por acaso, de filme, mas isso foi uma coincidência. O que interessava era a noite e as luzes e o carro e o movimento. Está tudo no equilíbrio entre o que és, o que sentes, e no que o mundo te dá para sentires. Depois cheguei a casa e sentei-me no sofá, olhei para a parede branca e pensei que se isto fosse realmente um filme beberia um copo de aguardente e ficaria a olhar para a parede, ao som de uma boa canção. Mas no filme da vida estava cheio de calor, com a camisa já suada nas costas e vontade de tirar os sapatos e beber água. Típico. Fiquei uns minutos sentado, a achar que se calhar a sala não precisa de mais nenhum candeeiro, que a luz está no ponto de rebuçado da suficiência, luminoso, mas não demais. Acho que ela vai achar o mesmo. Olhei pela janela grande e não vi a lua, mas lembrei-me de uma coisa engraçada, é que quando saí de casa, depois do escritório mas antes do jantar, tinha visto a lua cheia e amarela a cair sobre o rio, também ele amarelo. É impressionante o que um dia faz à vida, ao ponto da lua amarelecer, as pessoas morrerem, e tu adormeceres (estafado) numa casa nova. A vida tem coisas muito engraçadas; pensei muito nisso, ontem.