Acho as pessoas tão diferentes e tão legítimas, ao mesmo tempo. Pensei nisso enquanto passava no meio da secção de cosméticos e maquilhagem do Corte Inglês de Múrcia. Durante a tarde disse ao Francisco, quando estávamos na auto-estrada, que viajar com poucas (ou nenhumas) horas de sono acentuava o sentimento de “trip” que se tem durante o dia. Lá fora via-se a paisagem de La Mancha, de base árida mas muito colorida, também ela diversa e legítima. Pensei que podia ser um mini-Arizona, ou um Novo México real. Dormi uma sesta de uma hora mas não ouvi nenhuma gaivota; quando adormeço no meu novo quarto em Lisboa ouço sempre uma ou duas gaivotas perto da janela. Múrcia é quente, e parece que tenho família por cá. Não é muito bonita. Tem um mercado hipster-chulo com bons hambúrgueres, e um bar temático do Game of Thrones com um ar exterior muito kitsch-bera. Passámos os três, no caminho, por montes e paisagens largas, e numa das nossas curvas passou no shuffle o Chinatown dos Barrie. É uma boa música para uma cidade quente, mesmo quente, de quase quarenta graus diários. Tipo Roma em Julho, ou Lisboa umas vezes por ano, mas especialmente em Julho. Quando acordo e saio do meu quarto novo apanho com a cidade na tromba, por todas as janelas. A casa está algo vazia para além de mim: sou eu, alguns livros e discos, uns móveis, uns posters, e a cidade. Tenho de voltar a fazer exercício e a escrever, agora que o calor vai subir, segundo é comum na história recente da humanidade. Mas antes tenho um casamento dos amigos da Ultra, que imagino que são muito fixes. Trouxe uma camisa preta e um livro de contos do Gogol. Não sei o que diria Gogol de Múrcia, nem que obras-primas poderia criar neste espaço tão Espanhol e tão sul. Sei que me apetece um churro. Quando saí de casa de madrugada para ir para o aeroporto estava escuro, e eu estava a começar com o sentimento de trip – que ia aumentar consideravelmente depois do café bebido no terminal dois e de uma hora de sono no vôo até Madrid – e pensei em fazer algo chamado “Lugares Comuns” e escrever / falar sobre começar viagens de madrugada, com poucas (ou nenhumas) horas de sono, entre muitas outras trips e pedaços de vida(s). Às vezes espanto-me com as que tenho. Acho-as tão reais e tão diferentes, ao mesmo tempo.