Caro diário,

Estou de pé na cozinha a fazer o jantar. Lá fora o céu está a morrer lentamente. Vou vendo o espetáculo em cada janela. A luz que primeiro é clara, e depois rosa, e depois lilás, caindo sobre os telhados. Entretanto tenho duas gaivotas bebés a viver (e a defecar) no terraço. A mãe está no cimo da coluna, a vigiar (não sei se volta e meia não defeca, também). Olhamo-nos olhos nos olhos. Penso nesse momento que tenho um poster do Psycho na sala, mas que a vida resolveu passar-me outro clássico do Hitchcock por estes dias. Continuo a cozinhar, e vou bebendo uma cerveja. Tenho os músculos cansados de carregar sacos cheios de papelada, fotografias e artefactos vários por cinco andares. Agora apetece-me o atrofio de um sofá e o sabor da cevada fresca. Enquanto o arroz cozinha vou ouvindo o som do vinil que vem da sala da televisão. Phosphorescent canta “Sun a-rising / Ease, easy oh”. É uma boa canção para se ouvir. A Ultra está em Londres a preparar as aulas que vai dar nestas próximas semanas. Vou mandar-lhe a música para ela juntar à sua lista de canções para ouvir no metro ou nas ruas, nessas streets of London. Entretanto já estreou a terceira temporada de Stranger Things, mas ainda não é hoje que vou estrear o Netflix nesta casa (pequena adenda de segunda-feira: entretanto já estreei. Do que vi, está óptimo; El continua badass, a música está melhor do que nunca e a dupla Henderson / Harrington está em altas). Vou (de volta a Domingo) ficar apenas no sofá, a ler, a beber, a tirar notas, a estar, a trocar olhares com a mãe-gaivota. Li de manhã uma entrevista do Jim Jarmusch ao Guardian e pensei que os americanos têm uma ótima palavra para descrever desorientação: drifting. O Domingo é um óptimo dia para drifting. E para preparar bem a entrada na semana. Sublinho o texto de Tolentino: “Esta vida que se quantifica e mede, mas permanece indecifrável”. E depois vou dormir (e já agora, o João Gilberto? Adorava a voz dele. Ainda adoro. Saudades.)