Uma viagem a Leiria

Boombox e Federrer decidem ir a Leiria. Está uma manhã cinzenta, é o primeiro dia de Outubro. Nenhum deles alguma vez lá esteve: não sabem se é real, se existe mesmo. Mas é preciso ir a Leiria, ou à ideia do que é Leiria, e eles têm tempo, e por isso vão. Tarantinas também gostava de ir, mas ficou-se por Lisboa, a escrever emails e a fazer chamadas. Tarantinas já foi a Leiria, uma vez. Tem boas lojas de livros em segunda mão, tem um castelo, um estádio, e até um museu da imagem em movimento. O hospital é amarelo, e o céu, pelo menos dessa vez, estava sempre cinzento. Tarantinas está sentado à secretária, a martelar no teclado e a ler pareceres jurídicos, e a pensar como estará a ser a viagem de Boombox e Federrer a Leiria. Que música é que ouvem, que comentários é que fazem. São ambos loucos, tal como Tarantinas e os restantes amigos do chamado Grupo Mágico. Tarantinas acha que Boombox, que vai a conduzir, tem uma carrinha, uma daquelas Peugeot cinzentas do início dos anos zero, mas não tem a certeza. É uma viagem que podia dar um filme, uma série, um livro existencialista – Tarantinas gostaria de fazer qualquer um deles, se pudesse. Mas não, hoje (ainda) não. Hoje Tarantinas tem de falar a notários e registos, tem de escrever notas, tem de acabar introduções. Um dia talvez Tarantinas diga o que se passou ou poderia ter passado em Leiria, naquele dia um de Outubro, de como Boombox e Federrer foram em busca de um membro da espécie dos Embaixadores, uma gente misteriosa, dotada de um qualquer poder estranho. Mas não hoje. Hoje, Tarantinas trabalha e vai comer arroz com primos africanos, reparando, no regresso – na saída do metro da Baixa Chiado – num homem de t-shirt branca e casaco de fato azul, especado com um ramo de flores junto a uma das entradas para a linha Azul, esperando (nervosamente) que a sua história, qualquer que esta seja, comece.