Babysitting

O truque que arranjei para que adormecessem sem chorar foi ficar ali, no canto da cama do mais velho, deitado e de cabeça para cima, a cantar canções de campos de férias que, para ser sincero, nem me lembrava que ainda sabia, enquanto eles respiravam de forma fungosa e adoentada, libertando com alguma probabilidade uma quantidade simpática de germes para o ar que partilhávamos, e quando me calei reparei que a do meio ainda estava com os olhos abertos e portanto decidi manter-me ali, a fingir que estava a adormecer para que eles adormecessem, e sem que desse por ela estava mas era a cair no sono, e no sono o que via era o caminho de carro até ao Inatel, a Lisboa residencial e nocturna de sábado à noite em pleno outono, a ouvir o meu último disco porque ando a ficar com vontade de fazer um novo e de dar concertos, mas agora já saí do quarto e vim para a sala, onde também devem existir alguns germes, e está tudo muito calado e silencioso, e estou caído no sofá, numa posição que é um misto de deitado e sentado, típico de quem se anda a borrifar já desde há algum tempo para a postura, físico, e alimentação, mas que sabe que a partir da próxima semana vai voltar a ter muito tempo para se preocupar com tudo isso e mais a tese, e é engraçado, quando me sentei-deitei-caí-a-porra estava com uma canção daquele magnífico disco do Co$tanza na cabeça chamado Linha Verde (não sei se era o Areeiro se era o Campo Grande) e agora não tenho nenhum som na cabeça, um autêntico nada, uma daquelas caixas que o Luís ontem contou que os homens tinham na cabeça, caixas para tudo e uma caixa para nada, e eu concordo muito com isso porque acho que sou muito assim, uma cabeça cheia com um conglomerado de caixas mais ou menos arrumadas, e agora vou fechar umas e abrir outras, e ter cuidado ao abrir essas outras porque há caixas que são prioritárias e outras que não, que são só necessárias, como escrever, passear, ouvir e fazer discos, e agora vou fechar os olhos e ficar no nada deste sofá branco antes de ir à cozinha deles ver o que há para comer. Entretanto, fui ver, e a canção que tinha na cabeça era o Roma. Tem muito que ver com a zona a que diz respeito – muito espacial, cinematográfica. Grande, grande disco. Já ouviram?