A sala está escura, salvo pelas minúsculas luzes verdes do modem, e dos pontos vermelhos da televisão e da aparelhagem. Há um barulho contínuo que vem de fora. Faz lembrar um motor de avião, uma brisa muito forte. Mas nada se mexe lá fora. Lá fora só existe o nevoeiro, que vai crescendo muito devagar. Já cobre todos os telhados; talvez chegue até à janela. Às vezes o nevoeiro fica muito claro, como se alguém que estivesse no seu interior ligasse de repente um holofote. Se calhar é impressão minha. Estou sentado na sala e está tudo parado, fixo no chão. E, ainda assim, apesar de toda a tranquilidade, há uma leve sensação de movimento. Mesmo que fraca, está presente, como quando se está numa passagem, dentro de um túnel,  ou num intervalo. Sabe-se que se veio de antes para chegar aqui, e que a seguir se vai para o depois. Mas primeiro, agora, agora há isto, uma pausa que é um espaço, uma espera bem definida e limitada, que por tão forte e certa que é sabe a caminho. É bom, é mesmo bom sentir o sabor do caminho.