A casa está fria e o café também. Sentei-me à secretária, escrevi a defesa para enviar à minha mãe. Depois deixei a cabeça pesar-me, bebi um copo com água, cantei uma canção dos Berrie para as paredes vazias. Há umas horas atrás, a caminho de casa da Ultra, voltei a passar pelo jardim da Estrela. Estava escuro e molhado. Queria demorar-me por lá, como fazia dantes, como fiz durante dias seguidos, incluindo um verão inteiro e dois outonos. Fiz muita coisa em muito pouco tempo no jardim da Estrela, e ele esteve sempre lá para mim (para nós). Como uma canção melodicamente animada mas funda como o raio, como o The Boy With the Arab Strap. Não dancei. Arrastei o passo, respirei fundo, deixei-me levar até à saída. Toquei no passeio com a mão. Vi uma folha a cair de uma árvore e a dar duas voltas inteiras no ar antes de tocar no chão. Lembrei-me de tudo quando abri o livro de Sophia, na página 31 da minha idade, e li, sob o título de “Promessa”: “Na clara paisagem essencial e pobre / Viverei segundo a lei da liberdade / Segundo a lei da exacta eternidade”.