Notas soltas – Ann Arbor, 2018

Ao ler as cartas de Vonnegut lembrou-se da senhora da biblioteca que lhe disse que tinha conhecido o neto de Vonnegut que andava na faculdade onde ele se encontrava atualmente, em intercâmbio. Ao chegar à faculdade no dia seguinte cruzou-se com a senhora da biblioteca. Disse-lhe: Ontem lembrei-me de si, estive a ler umas cartas de Vonnegut. Ela levou as mãos ao peito e virou os olhos para cima, como se se estivesse a recordar nesse momento de uma velha mas potente paixão de liceu, e suspirou: Oh, Vonnegut, Vonnegut. Ele riu-se, e ela disse-lhe: Sabe, há algo que não lhe contei da outra vez, é que o neto era igual a ele. Fisicamente falando, era idêntico, uns anos mais novo, claro, mas tirando isso era a cara chapada do avô. E isso é que tornava tudo ainda mais impressionante, porque era como se estivesse o próprio Vonnegut à minha frente, e ele fosse um aluno, a requisitar um manual muito conhecido de fusões e aquisições. Ouvi dizer que agora está em Nova Iorque, a trabalhar no mundo financeiro. Consegue imaginar isso? E ele momento não vira os olhos mas imagina um neto de Kurt Vonnegut que é igual a Kurt Vonnegut e que estuda direito e que requisita manuais de fusões e aquisições e que depois vai para Nova Iorque e que hoje é um financeiro bem-sucedido e pensa que isso é uma história tão Vonnegutiana que o próprio Vonnegut podia ter escrito um livro sobre isso, sobre como ele Vonnegut se tornava no seu próprio neto e depois ia ser um financeiro para Nova Iorque. Ou so it goes.