Seminário

No caminho estavam dois sapatos de senhora. Vermelhos, género sabrinas, um pouco gastos e molhados, impecavelmente arrumados num canto de um lugar de estacionamento junto ao passeio. Lembrei-me do Feiticeiro de Oz: a que Bruxa ou a que Dorothy terão pertencido? Na terça-feira ainda por lá andavam, agora desarrumados, com o esquerdo no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Na quarta-feira já não, já não estavam por lá. Imaginei quem os tivesse calçado, que aventura é que estaria a viver, neste momento. Reparei também, no intervalo antes de ir dar a primeira aula do seminário, num pequeno globo encostado junto à janela do bar da faculdade. Vivemos num grande mundo, cheio de selvas e florestas, cheio de vidas e de histórias. Vimos uma ontem, no teatro, na sala estúdio, sobre o mundo do trabalho e os seus excessos. Era mais uma história de ideias do que uma história de pessoas, e nem sempre bem conseguida, mas o cenário – feito de papel de alumínio – era muito engraçado. Às vezes acendiam e desligavam as luzes e víamos as paredes com marcas e elevações, como se fossem montanhas ou pedras, ou até raízes (o que é irónico, tendo em conta o que se passa no fim da peça). A vida agora é um concerto de Beethoven tocado pela Royal Philarmonic Orchestra no leitor de vinis cá de casa. O sol entra pela janela, está um céu fabuloso, e há algum trabalho para acabar – entre os andamentos ouvem-se as teclas de dois computadores. Antes disto fui correr e apanhei com sol na cara. Estava a arder no fim da corrida, era possível que estivesse com a cara encarnada. Estreei os meus novos ténis de corrida, que, coincidência das coincidências, são vermelhos. São muito confortáveis.