Palavras, explosões

Não se ouvia o helicóptero. Não se ouvia nada, agora que penso nisso. Talvez se ouvisse — talvez fosse necessário ouvir-se — alguém a falar, alguma das pessoas que me acompanhavam e que eram, tal e qual como o seu discurso, se este existisse, apenas som e forma; palavras vazias, sem qualquer corpo ou significado, mas existentes. Uma espécie mutante de ruído branco, ausente e presente ao mesmo tempo. Também não se ouviu nada quando o helicóptero começou a cair; apenas se reparou, como uma mera evidência. A queda contínua, muito lenta e embalada, até se despenhar num pequeno descampado, sem um estrondo, nada. Eu estava nesse momento no cimo do monte, no meio de um caminho de vinhas minhotas, a olhar para o helicóptero, e via corpos que saltavam de dentro, alguns com pernas, outros sem; alguns que se mexiam, outros que ficavam caídos, e que ao caírem abriam os braços e desmembravam-se. Pensei que devia ter havido uma explosão, nalgum momento, ou pelo menos um som, um qualquer barulho. Começou a sair fumo do aparelho. Estava sol, céu azul, algumas nuvens brancas. Sentia dentro de mim um desconforto enorme e insuportável. Mas nada rebentava.

A morte de Suleimani tinha ocorrido há um ou dois dias, iniciando um ciclo de estrondos geo-políticos, culminando na trágica queda do avião ucraniano. Segui as notícias com muita preocupação, temendo por um escalar de violência a nível mundial. Às vezes a maior tensão vem disso, da espera, das possibilidades incertas, da informação que circula, do nada que não conhecemos, da descoberta. A tensão que é transmitida por palavras e silêncios. Estava a ler o último romance de Ben Lerner, The Topeka School, que aborda exatamente esse tema, o da violência cultural e emocional que é fruto do acumular de sintomas, de incapacidades de expressão, de exposição abusiva a demonstrações estéticas contraditórias. “Trauma is the collapse of experience as such”, e é difícil não pensar nos traumas que se repercutem —  quer no Kansas, quer em Bagdad, quer em Lisboa, quer em todo o mundo — por estes dias, nas suas causas mas sobretudo nas suas repercussões, quer políticas  e gerais, quer mundanas, individuais e concretas.

Não sei se o sonho do helicóptero foi resultado disso, da tensão com que o ano começou, ou da releitura dos livros sobre a crise da zona euro, da correção de exames, ou simplesmente de uma assistência compulsiva da série Rick and Morty. Aí não faltam explosões, mortes, injustiças, mas também lições e verdades, como o discurso da psicóloga no final do episódio Pickle-Rick, sobre a importância e o desafio que é reparar, curar e tratar, ultrapassar. Os psicólogos, a terapia e a análise acompanharam muito o meu mês de janeiro. Desde os pais de Adam Gordon em Topeka School, até aos analistas do FBI de Mindhunter (série fantástica, sobre posturas e espaços, procuras e delisusões), passando pelo Joker de Joaquin Phoenix. Gosto da forma como Phoenix dança, mas fiquei conquistado, sobretudo, pelo modo como corre nesse filme, num estilo muito mecânico, com as pernas e os braços muito subidos, como se tentasse levantar vôo.

Não há tanta correria em Marriage Story de Noah Baumbach, a história é muito terra-a-terra. E talvez por isso é que seja uma pequena obra-prima: por dentro daqueles planos próximos, daquela cor quente californiana, daquela música quase infantil e daqueles incríveis actores está um mundo tão bem montado, tão realmente duro e humano. Sabemos que um filme ficou quando nos deitamos e acordamos e ele ainda lá está. Adorei, do início ao fim; acho que a cena do pai, vestido de homem invisível (que argumento genial) a levar o filho a comprar doces numa loja no Halloween é das mais bonitas imagens que vi no cinema, lá em cima com Bill Murray em Tóquio, Giulietta Masina em Roma, e todos os planos realizados por Yasujiro Ozu.

Adam Driver canta muito bem no fim do filme — se ainda escrevesse postais num blog teria feito um com esse vídeo, com o título de uma grande música dos Sonic Youth: “Do You Believe In Rapture?” — mas a verdade é que não tenho ouvido muita música, ultimamente. A Ultra e eu fizemos uma lista de canções que gostávamos que tocassem na festa do nosso casamento; ouvi D’Angelo num Uber no Rossio, numa noite de Domingo, e um belo disco de Mozart num jantar de sexta-feira. O shuffle de temas que me acompanha nas corridas (63,8 quilómetros até agora and counting) já passa despercebido, um ruído branco — outro — que desaparece perante o movimento (nada espetacular, ao contrário do de Phoenix) e as imagens do rio. É difícil correr com frio (este janeiro tem sido gelado) mas tenho conseguido dormir bem.

(Grande canção que vi foi o espetáculo “O Canto da Europa”, do Jacinto, no Teatro D. Maria II. Não deixem de assistir, se tiverem oportunidade; é música ótima para os tempos que vivemos.)

Tenho tentado estar atento, quando saio, ou para a corrida ou para as compras, ou ainda para a faculdade, ao que se passa à minha volta. Reparei que há uma proliferação estranha de novos restaurantes italianos em Lisboa, em particular na zona da Baixa / Santos. Reparei também num flautista na rua da Rosa, num domingo à noite. Vi que as obras no Jardim de S. Pedro de Alcântara já não afetam a vista. Assisti a um espetáculo do Coro de Câmara de Lisboa, e voltei à Luz para ver a máquina que é Gabriel Appelt Pires em ação. Passeámos, a Ultra e eu, pelas laterais da Avenida da Liberdade, tomando nota dos sítios que encontrávamos e almoçando num agradável café de estilo internacional. Escrevi para a tese.

Lembrei-me, com a história do Irão, de outra história, a do Pai e da senhora Húngara. A senhora Húngara era a amiga (amante?) do Pai, uma das quatro personagens principais de uma ideia de romance que tive há muito tempo, chamado O Albacora. Na ideia — no livro — o Pai está a contar-nos a história da sua viagem ao Irão, em trabalho, muito antes desta vaga de explosões, e de como conhece a senhora Húngara num hotel e decide acompanhá-la numa visita aos desertos do interior, a Yazd e aos montes dos Zoroastras, a Persépolis e ao túmulo de Xerxes. O Pai conta, primeiro dentro de um terminal de aeroporto europeu (sentado ao balcão de um bar, de fato sem gravata, a beber uma cerveja belga estupidamente cara), e depois à janela de um avião com destino a Lisboa, a caminho dos anos da Mãe, sobre estar num hotel género riad, a comer tâmaras e a imaginar-se numa festa no salão maior de Persépolis. Pergunto-me se agora — se eu o escrevesse agora — o Pai não pensaria nas ruínas, algumas cheias de marcas de exploradores britânicos do século dezanove, de como elas poderiam desaparecer, não devido ao tempo, que já se viu que o tempo não as consegue vencer, mas devido à guerra, aos mísseis da guerra. Palavras e espaços, destruídos em explosões.

Estava a matutar nisto antes de ir viver um momento de rotina, e de ouvir um testemunho de um amigo querido sobre a guerra colonial, sobre pessoas que morreram na guerra colonial ao pisar uma minar, que morreram com a cabeça nos braços dele, um enfermeiro beirão, e o baixo ventre açoriano espalhado pela selva, sobre memórias que ficam, sobre promessas por cumprir, sobre passeios à Ilha da Terceira para prestar homenagem, fechar memórias, dar testemunho de uma vida, e se calhar daquele último abraço, mesmo que fatal.

Emociono-me com o mundo que uma pessoa consegue ter e carregar enquanto se dedica à ordinária tarefa de existir dentro de uma rotina. Acho isto um dos melhores exemplos possíveis de humanidade; guardar palavras e explosões, vivê-las, descortinando o melhor sentido de ambas. Ou, se calhar posto de outra forma, apenas, e tão só e dificilmente, vivendo.