Rua do Olival blues

De manhã há menos carros e mais passeio; de noite, vice-versa. Vice-versa também para os sentidos percorridos, nas duas alturas do dia, da saída e da entrada. No meio, sempre presente, a estrada de pedra escura, desnivelada, esburacada. Gotta love os poderes públicos lisboetas.

Nas pontas, por onde entro e saio, estão dois restaurantes — um italiano de origem nepalesa e um de “comida da lusofonia”. A rua cobre bastante geografias: há brasileiros e estudantes espanhóis de Erasmus nos prédios do meio, do lado esquerdo de quem parte e no direito de quem regressa. Há famílias, crianças, casais, trabalhadores, desenhadores profissionais com ateliês noctívagos pelo meio, perto das traseiras da Igreja de S. Francisco de Paula. A minha querida Travessa São João de Deus, eleita com orgulho a rua mais florida de Lisboa, aparece depois / antes da Igreja, sempre como uma pequena surpresa. Existe ainda uma pequena mercearia, muito idosa e portuguesa, com uma luz na janela de noite, que diz OMEGA. Há casas em obras e casas com sinal de que estão há venda há muito tempo. Nas paredes encontram-se símbolos anarquistas tapados por suásticas, ou se calhar é ao contrário, não dá para perceber bem.

Um dia, no sentido de regresso, lembrei-me de Georges Steiner, e pensei que género de ensaio cultural este grande mestre do cânone ocidental escreveria se vivesse na Rua do Olival. Será que pensaria na amplitude desta rua a céu aberto, e depois na prisão em que se tornou Wuhan na China, e citaria Camus, quando este escreve, no romance A Peste, que o “hábito do desespero é pior que o próprio desespero em si”? Ou será que faria alguma ligação com o evento do Brexit, com as confusas primárias democratas norte-americanas, ou com a “nova” direita portuguesa? Será que Steiner gostaria da energia mística do novo álbum de Dan Deacon, ou da classe intemporal das novas canções de Destroyer? Ou deixaria as referências para homenagear Kobe Bryant, relembrando como se fosse uma criança, a magia que via o Balck Mamba fazer em poucos passos?

Ou será que Steiner se limitaria apenas, no seguimento dos ensinos de Epicteto, a calar a sua única boca e a aproveitar os seus dois olhos e os seus dois ouvidos para apreciar o mundo à sua volta, ali e para lá da Rua do Olival, em toda a sua complexidade, com todo o seu ruído e toda a sua magnitude, conseguindo, após alguns momentos assim, em pausa, reconhecer ali um importante e provocador silêncio, com mais sentido e presença que tantas palavras escritas?

Estava a passear, numa pausa de estudo, pelas várias salas do andar de cima da Brotéria. Deixei-me seguir no silêncio de paredes brancas e pés direitos altos. Pensei em flores, pensei na fé, pensei no mundo, no(s) sentido(s) das coisas. Parei em frente a uma janela e fiquei a ver o Largo de S. Roque. Havia pessoas sentadas a tomar café no quiosque, enquanto outras estavam de pé nas escadas da Igreja, paradas, a meio caminho da Igreja ou de outro sítio, de outro caminho.

Estava a correr e passei pelas tendas dos mendigos perto do Urban Beach. Numa delas estava colocada a bandeira da União Europeia, como cobertura, mas também (pelo menos parecia) como manifesto. Noutra altura, quando parámos o carro para ir jantar a casa, a Carol e eu vimos, no fundo da rua, uma escavadora, e à frente da escavadora o pastor alemão do chef nepalês, sentado, a olhar para nós. Ficámos parados a olhar para a cena, como se fosse um mistério. Depois / antes, estava sentado no balcão da Musa da Bica a beber a última Severa que havia em stock e a ouvir Sheryl Crow (que me faz sempre lembrar a Alanis Morissette, não sei porquê) e senti naquele momento a certeza de que nunca deixamos de valer pelo que somos e pelo que sentimos.

Mais tarde, ou mais cedo, ou quando quer que tenha sido — o tempo no “ano de tese” é uma aventura fabulosa, fiquem desde já a saber — estava numa associação cultural de bairro prestes a produzir um espetáculo de stand-up falhada (há quem chame ao conceito “concerto musical”), num auditório com algumas décadas de vida, dedicadas, entre muitos ilustres, aos “parodiantes”. Estava à porta, como na nova e muito boa canção dos Strokes, para receber a Carol. E é difícil explicar (it’s hard to explain) a força de uma chegada. Mas é um facto que há tanta vida que se ganha na contemplação e no ser, no estar, sem grandes buscas nem perguntas.

Na Rua do Olival / o caminho é amplo / a estrada escura / e o céu / aberto.