A garganta do gato

Estava escuro. Lembro-me de abrir os olhos e de reparar como as paredes eram altas, sabes? Altas e inclinadas, como naqueles filmes alemães expressionistas, antigos. muito perturbadores Sim, havia uma luz, clara, vinda da janela, que a cortina de plástico (que eu era capaz de jurar a pés juntos que tinha esticado antes de me deitar) estranhamente não bloqueava. Eu estava deitado na cama, com uma perna fora do cobertor porque tinha calor, e sentia que agentes secretos israelitas e agentes secretos iranianos me tinham posto na cabeça a informação toda sobre tudo, e a informação toda é de que tudo, ou seja, o mundo, a vida, as pessoas, o universo todo está minado, comprometido, condenado, perdido e sem remédio, é o que é, e eu estava ali na cama e tinha só de estar consciente disto, de que o segredo tinha sido desvendado e que agora era tudo assim, para sempre sem inocência, para sempre e para o resto da minha vida com este conhecimento terrível, obrigado a andar nos dias apesar disto, como uma espécie de impostor.

Imediatamente depois desta sensação e constatação algo marada reparo que estou num quarto de hotel  no Algarve, anos noventa, e que o sol de Inverno (morno, como que adormecido) cai sobre a madeira escura do soalho. Olho pela janela – parece que estou de pé, agora – e vejo o Minho interior, vinhas e campos verdes e estradas cinzentas claras, e parece-me que é um verão, um de muitos, porque no Minho interior só as estações é que mudam, os anos são sempre os mesmos. É nesse momento, entre o norte e o sul do país, que me apercebo de que estou num sonho. Já estava antes, quando senti que os agentes secretos me tinham colocado numa missão suicida, no quarto do Dr. Caligari.  É tudo um sonho, porque nos meus sonhos venho sempre parar aqui, a quartos de hotel grandes, confortáveis e impessoais, e depois vou sempre para o meio do verde, das árvores, e acabo junto ao mar. Nunca estou numa cidade.

Algures no sonho vou entrar numa espiral de momentos, pequenos fotogramas editados de forma abrupta, em que consigo decorar um ou outro pormenor, como a água a chegar à estrada, o carro parado junto à relva, e a sensação de nadar contra a corrente, contra um arrasto do mar, mas seguro, pacífico. Depois vou-me esquecer, vou continuar a dormir, e depois vou acordar e ver a cortina fechada, tal como eu sabia, com uma ligeira luz do sol a entrar por baixo, a Carol a dormir e o relógio a dizer-me a hora portuguesa. Vou lembrar-me dos sonhos, da sua falsa-realidade, e vou pensar o quanto achava que depois dos trinta anos a idade vinha com mais calma. Mas se calhar não, se calhar é ao contrário: se calhar a partir dos trinta é que começa a acelerar. Penso também que talvez não devesse ler livros de Kurt Vonnegut sobre publicitários-nazis-que-na-realidade-são-agentes-americanos antes de dormir. Ou so it goes.

É sábado e estamos em Copenhaga. Copenhaga é sóbria por fora, nas fachadas dos prédios e dos museus, e bonita por dentro, nos corredores e nas salas, nos balcões das cervejarias, nos bancos dos cafés. Muita luz, bem medida; muito equilíbrio, bem desenhado; muito conforto, bem feito. Nada está em excesso, é tudo muito suave. O pão é bom, o café é péssimo, a comida é excelente, os museus são giros, e é tudo para lá de humanamente caro.

É uma boa cidade para visitar e passear. Há Igrejas luteranas de mármore muito bonitas, e livrarias pequenas com uma ótima seleção de romances norte-americanos e manuais de economia socialista em saldo. Apanham-se alguns bêbados na rua, no metro, e na casa de banho de galerias comerciais – encontrei um que, sem se virar do urinol, me contou uma história surreal sobre um “amigo” português com quem partilhava prostitutas; lembrei-me dele quando, ao chegar ao aeroporto de Lisboa, verifiquei que os urinóis são dinamarqueses (os loucos perseguem-nos). Há muitos bebés também, em carrinhos, a serem passeados nos seus sonhos e dias pela cidade fora. A dado momento estamos a almoçar num balcão com vista para a rua, e temos ao nosso lado uma mãe e uma filha a comer um ovo benedict com uma miscelânea de legumes fermentados e um pão de trigo, enquanto que o bebé (filho da mãe e irmão da filha, presumo) está deitado num carrinho, a dormir, do outro lado da janela, ou seja, na rua. Estão três graus lá fora, nem sei qual a sensação térmica real (um ou dois graus a menos, imagino), e penso que isto deve ter algum impacto na maneira como os miúdos crescem, na forma como uma cultura se desenha, e que esse impacto deve inevitavelmente ter consequências políticas, sociais e económicas. Lembrei-me de Vasco Pulido Valente, do que poderia ter Vasco Pulido Valente escrito sobre isto.

Não sei o que teria VPV escrito sobre o  Louisiana Museum of Modern Art, mas deixem-me que vos diga: é uma pérola de instituição cultural, construída numa encosta sobre o estreito de Kattegat (“a garganta do gato”), com belíssimas e provocadoras exposições. Desde o calor rosa e turquesa das caixas de fumo e luz de Ann Veronice Janssens até às fotografias californianas e impressionantes de Lauren Greenfield e aos desenhos revolucionários e femininos de Nancy Spero. O jardim também é bonito, mas não tanto como o do cemitério de Assistens, no bairro de Norrebro. Adoro a calma de jardins urbanos, da sua calma e harmonia dentro do caos citadino de barulhos e confusões. Os dinamarqueses, tal como os japoneses e os norte-americanos, percebem muito disto, ao fazer cemitérios em jardins, ou vice-versa. Soube bem estar ali.

Na segunda noite em Copenhaga tive insónias (na terceira e na quarta népia; também não tive sonhos). Não havia agentes secretos, nem sequer luz no quarto. Deve ter sido do salmão amanteigado, ou da cerveja meio fumada que a Carol e eu partilhámos, não faço ideia. Deixei-me estar a olhar para o tecto, para as paredes, para todo o lado, enquanto esperava que o sono viesse. Tentei aproveitar o tempo para me consciencializar para mais uma Quaresma. Porque apesar de toda a modernidade e progresso, continuo a gostar de épocas e de estações, de momentos marcados, como a quarta-feira de cinzas e o caminho para a cruz. É uma ótima altura para olharmos para dentro e virarmo-nos para fora, com força e sem medo. E para deixar algumas coisas que estão a mais. Como, por exemplo, escrever.

Não me lembro quando adormeci; sei que não me recordo do que sonhei. Provavelmente, estava num hotel a caminho do mar, e depois de carro no campo, ou então no mar a ir para um hotel, pelo campo. Talvez tivesse existido alguma intriga, alguma espionagem, algum drama civilizacional na minha cabeça, não sei. Acabei o Vonnegut e comecei a ler o Milkman de Anna Burns, que é uma história sobre perceções e medos, sobre mentiras e ridículos, sobre exageros e violência, e sobre crescer no meio de uma guerra civil com contornos políticos e religiosos complicados, na Irlanda do Norte nos anos 70. Talvez me dê noites mais calmas, quem sabe. Sei que ontem li um poema com um verso de que gostei muito, de Sue Kwock Kim: “I am pure onion – pure union”. Santa Quaresma para todos.