Esboço / Infante Santo

Saí do autocarro de volta (quando era de noite) e olhei para os prédios à minha frente, para o parque de estacionamento, para os prédios à esquerda, para a estrada a descer, e para a paragem do outro lado da Avenida, em frente aos azulejos de Eduardo Nery, naquela encosta feita de escadas, de pedra, de árvores e de verde, onde algumas horas antes tinha apanhado o autocarro de ida (quando era de dia). Pareceu-me um cenário muito bem pensado e desenhado para uma narrativa urbana e emocional. A Infante Santo é muito dreamy. Na peça ou filme ou vida que imagino passar-se ali há um personagem que espera o autocarro todos os dias, lendo o mesmo livro todos os dias, sobre uma rapariga que ouve canções italianas cantadas por um músico norueguês enquanto dispara pensamentos sobre as coisas simples que vai sentindo. E o personagem acha – as histórias, os pensamentos, as coisas simples – tudo muito real e fictício ao mesmo tempo, tudo muito, lá está, dreamy, tal e qual como aquela paragem onde se encontra, quando é de dia / quando é de noite. Abri o telemóvel e li as notícias sobre o progresso da situação do coronavírus. Lembrei-me da frase de Rachel Cusk: sem estrutura os acontecimentos são irreais. Fui-me embora; no dia seguinte começou o isolamento.