Tenho cinco dedos. A janela tem dezasseis vidros, uma árvore verde, um monte escuro e um monte branco, de nuvem. O aquecedor range muito. Lembrei-me de Russell Brakefield, o autor de Field Recordings, que me dedicou um exemplar pela música, e pelas milhas. Milhas é uma medida, uma forma de contar e estruturar as coisas que existem. Faz mais sol às sete da tarde do que às sete da manhã, como se o dia estivesse ao contrário. Se calhar é o mundo que está, mas alguém já deve ter feito esta piada. Sinto que vivo mais o dia do que vivia antes, que me preocupo menos com o que vem e o futuro. Um dia é uma certeza, o seguinte uma ficção, e ontem sonhei que um tipo me mostrava como iria morrer. Depois sentávamo-nos a tomar um café. O sol bate na janela, duas cruzes e quatro vidros na madeira. Quantas páginas escrevi hoje, para depois rever, e continuar? Gostava de ler um poema que cheirasse a relva; a Carol disse hoje que tinha saudades do Verão. A Carol está a tirar uma fotografia, neste momento: Carol ao sol, com uma camisola de inverno, e eu gostava agora de escrever um verso, o último de um poema imaginário que começa com “tenho / cinco dedos”. O Estêvão perguntou ao pai: qual é o teu ser? E o teu, qual é?