Março, Abril, Maio

Caro diário,

Já faz algum tempo que não te escrevo. Espero que te encontres bem. Tentei por várias vezes falar-te, mas as coisas que se passavam eram tantas e tão confusas que preferi esperar. Não se deve escrever em turbulência; pode-se viver, mas não mais do que isso. Não sei se te lembras desta frase, que escrevi há uns bons anos, quando sonhava, algo ingenuamente, ser escritor.

Era de um personagem que estava a viajar sozinho durante dezassete horas, num comboio entre Dehli e Jaisalmer, e que tenta lutar com o tempo, o movimento, e o seu próprio conflito interior. Há pouco tempo, ao limpar o computador, deparei-me com ela, e achei que era verdade: só conseguimos falar com um mínimo de justiça das coisas quando elas acalmam, não quando estão ainda a acontecer.

Na realidade, as coisas ainda não acalmaram. Estamos a viver uma pandemia – desculpa por só te avisar agora, mas sabes como é, “mais vale tarde do que” – e há tanta coisa que se passa (tanto desespero, tanto humor, tanta dor, tanta alegria, tanta controvérsia, tanta preocupação, tanta ansiedade, tanto desejo) que apetece mesmo dizer: a vida não pode ser mais vida do que isto. Já estamos nisto há quase dois meses, Março e Abril, e agora vamos para o terceiro, Maio.

Tenho estado bem, a Carol mudou-se cá para casa e temos vivido graças a várias aprendizagens culinárias, desde o básico mas saboroso arroz (o truque está todo em não fazer prisioneiros no refogado) até aos bolos de iogurte mais divinais que podem existir (nesta casa não se faz pão, e bem). O consumo simpático de cerveja (Musa, by the way) e de documentários true-crime Netflix (vejam o The Staircase, é incrível; esqueçam o da Amanda Knox e não percam, por favor, o do Fyre Festival – true-lol ao máximo) também ajuda.

A Carol tem feito muito exercício, eu tenho feito pouco, mas aproveito para ir correr e ouvir alguns bons singles que têm saído, da Phoebe Bridges e das Haim por exemplo. O resto do tempo é com trabalho. Dou aulas à distância e escrevo a tese. Tem sido o melhor período para a tese desde os Estados Unidos. Tentei fazer uma data de outras coisas – um podcast baseado numa ideia de diário, um podcast baseado numa ideia de novela, um podcast baseado num disco de versões – mas desisti.

Porque um dia acordei e percebi que, um, não sou escritor, e muito provavelmente nunca vou sou ser; e depois fui à varanda de casa, olhei para fora, e tomei nota pela milésima-sétima vez que o tempo não pára quando queremos, apenas pára quando achar que faz sentido. Estamos (o país, o mundo) há dois meses em casa, e vamos ficar mais uns tempos assim, entre “recolhimentos domiciliários” e “distanciamento social”, entre necessárias medidas sanitárias que nos fazem parecer figuras de um filme de ficção científica série-z, alternando entre pesados estados legais de limitação individual e opções políticas difíceis e de equilíbrio social controverso, com o projecto europeu no fio da navalha e sem cinemas, teatros, concertos e mar.

Pode-se descrever a turbulência: o vazio das ruas, as flores nas portas e os músicos que se mantêm, desde há quarenta e cinco dias, no Chiado, a tocar fados tocantes, enquanto tudo à volta parece um monumento abandonado, uma maquete em exposição, um futuro que vai ou não vem. Mas falar dela, do que vem, quando tudo está ainda a acontecer? É difícil. É muito difícil.

Por isso, querido diário, vou continuar a viver a rotina que estabeleci, que é o possível, vou continuar a tirar a loiça da máquina (a Carol odeia essa tarefa) e a tentar lidar com os problemas da máquina de lavar roupa (está a verter água); vou continuar a ler os meus livros de teoria política, a tentar perceber o direito da vida e a explorar os limites de um bom refogado, e a ver filmes e séries, a ouvir os discos que valem a pena, e a tentar viver de forma justa o que se passa. Vou te deixando pequenas notas sobre o quotidiano, prometo.

Por exemplo, está um belíssimo dia de verão hoje, muito quente e solarengo, e é dia da Mãe; faz-me pensar que vai correr tudo bem. Rimei, foi sem querer, desculpa-me; da próxima