A grande inocência

Começou, por estes dias, o verão. O verão é o tempo, por excelência, daquele sentimento de vida tão doce e provocador, e ao mesmo tempo tão maldito e destrutivo a que podemos chamar a “impermanência”. É difícil permanecer – estar, ser, ficar – parado no verão, porque ao calor qualquer leveza que não a de espírito torna-se insustentável. Passamos a ser chamados, a cada momento, a lidar com a sensação do tempo presente de forma mais forte e abrasadora (pun intended) do que o normal. Muitas vezes a solução para esta ansiedade mais quente que o habitual é cair, baixar os braços, e ficar num braço de areia ou numa boa e confortável cadeira, entregues ao peso (isto, claro, se uma bacia de água, marítima ou não, não nos poder acolher). Não menos vezes, a solução é aquela diametralmente oposta, de entrar num movimento contra-ciclíco, enfrentando o peso do tempo com o nosso “peso” interior e dinâmico. O Verão é um tempo difícil, especialmente para quem gosta de correr.

As aulas acabaram, enquanto que a tese avançou. Dediquei-me a discutir a grande inocência dogmática e conceptual que é pensar o direito sem pensar no poder, e pensar no direito e no poder sem pensar no político. Arendt é espetacular neste aspecto, abrindo-nos os olhos e os sentidos para a promessa e vida dos conceitos. Tem sido uma boa companhia, agora que não tenho outros livros para ler, e que acabou a última dança dos Bulls (e que vi a vergonha constrangedora que é White Lines) e sobretudo agora que o corrupio público no mundo real é (in)tenso e confuso, confinado a trincheiras demasiado ferradas num tempo duro como é este de pandemia. Apesar das multidões consumistas que o Chiado recebeu este fim de semana, temo que o novo normal traga, mais do que máscaras e desinfetantes, uma sensação de distância terrivelmente exagerada, entre pessoas a ideias, e aquilo a que chamamos a nossa convivência comum. Tenho pensado muito, nesse aspecto, numa frase que li, de Tolentino Mendonça, de que a “normalidade não é um conhecido lugar a que se volta, mas uma construção onde somos chamados a empenhar-nos”. E empenhados temos de continuar, nesta altura presente, em que as confusões são muitas e as incertezas também.

De regresso a casa, depois de um almoço, passei pela Almirante Reis, a avenida mais cinematográfica de Lisboa. No início do mês li um comentário a um vídeo de youtube em que alguém dizia que um filme era tudo o que ela sempre quis fazer, pensar, dizer ou sentir. Há ruas que me fazem o mesmo, ou que me fazem sentir, pensar, fazer ou dizer o mesmo que fiz, nos meus melhores dias, ou mais vivos. E não só a mim, mas a muitos que se declaram nas paredes, escrevendo manifestos ou declarações, desabafos e marcas. A avenida como uma canção ininterrupta, como um espaço veranil, cheio de calor e movimento. Lembro-me de outro texto que li, no início de um mês, de um maluco que ia a um bar, todas noites, para ouvir a mesma canção dos Thin Lizzie, querendo que os rapazes voltassem à cidade, para que toda a inocência que uma canção consegue carregar dentro de si fosse aberta e o enchesse de um sentido, de uma presença.

Mas depois estou num carro, e os Terno estão a tocar e sabe bem, não atrás / além mas aqui, aqui mesmo, e acabo por ir parar a um restaurante em campo de Ourique, com empregados de máscara e luvas, que servem os menus com pinças, e quando olho para a frente a Carol, que uns trinta minutos antes estava com uma toalha na cara a fazer uma figura divertida, está agora com o sorriso instalado, e o sorriso da Carol é devastador (é essa a palavra) porque as bochechas sobem e arredondam-se de forma muito deliciosa, e a linha do lábio fica muito recta e elegante. Tal e qual como na noite anterior, quando fomos agradecer ao café argentino que nos alimentou durante parte da quarentena, embora com uma diferença importante: é que agora, no italiano, a Carol está “sardinhenta”, o que quer dizer que apanhou sol e se vêem as sardas, e não há filme que pague isto, que consiga ser assim, como a imbatível naturalidade do amor que podemos ter por alguém diferente de nós.

Vem aí Junho, também conhecido por época de exames. Celebra-se o primeiro mês de vida dos bébés Emília e Simão, filhos de amigos, cujo primeiro contacto com o mundo ocorre nestas nossas novas condições epidemiológicas. O Verão vai acentuar-se e entrar em vigor, oficialmente, com bandeiras nas praias e férias pelas casas, aumentando a sede de movimento desconfinado. O virús ainda existe, ainda está por aí, e com ele um medo, mas o Mubi abriu a biblioteca e portanto posso pensar em, juntamente com a tese, o direito, o poder e a política, ver alguns filmes. Entretanto, comecei a ler Natalia Ginzburg, junto ao rio, num sábado à tarde. “Vocês – dizia o meu pai – aborrecem-se, porque não têm vida interior”. Acho que tenho tudo para amar.