Léxico auxiliar

Estou sentado ao balcão da cozinha a comer duas embalagens de sushi barato que estavam em promoção no Uber Eats. Não tenho pauzinhos em casa; vou pegando em cada peça com os dedos, molhando-as na embalagem de soja, entretanto carregada de wasabi. No Japão é normal as pessoas comerem sushi com as mãos, de passarem o sushi pela soja com as mãos. Um tipo em Kanazawa, uma terra com belíssimos jardins, museus e bairros antigos, explicou-me isto ao balcão de um sushi bar, enquanto pegava em grandes peças, verdadeiras “postas” de peixe, com apenas um pouco de arroz, e as enfiava pela goela abaixo.

Costumo contar este apontamento algumas vezes, quando estou num restaurante japonês com família ou amigos. Sempre que o conto, acontece a mesma coisa: continuamos todos (eu incluído) a comer as peças com os pauzinhos, como se nada fosse, como se eu não tivesse dito nada, enquanto eu sei que dentro da minha cabeça este meu apontamento japonês e mundano está a considerar a necessidade da sua própria existência, ou melhor, da sua própria expressão, pensando se não podia ser só isso, uma memória interessante, uma ideia que fica para mim mesmo, como tantas outras, enquanto nós, no mundo exterior, aplicamos as nossas próprias regras, mesmo para coisas que não são originariamente nossas.

Por falar em regras, estou a falar sobre regras por mensagem, sobre o estudo das regras, a dogmática das regras, a filosofia das regras, tudo isso e mais um bocado, com muita soja e bastante wasabi. Lá fora está lua cheia. Quando me levanto para despejar o lixo no caixote vejo, da janela, a Igreja onde me vou casar, muito iluminada. Depois abro uma cerveja e vou para a sala. Não me apetece fazer nada. Não me apetece fazer rigorosamente nada.

A casa está vazia. Tenho só um candeeiro aceso. O copo de cerveja está no chão, junto ao meu pé esquerdo; estou sentado no sofá. Antigamente achava que estes eram os momentos ideais para o transcendente. Depois aprendi que são os momentos ideais para se estar como estou: parado, virado de frente para a televisão vazia. Lembro-me que hoje jogou o Benfica. Apetece-me beber esta cerveja? Não me apetece fazer, rigorosamente, nada. É isso? O que é isso?

Bebo um gole de cerveja, e volto a colocar o copo no chão, junto ao meu pé direito. Ouvi uma canção na minha cabeça em que o cantor me perguntava se eu achava que era o sal da terra. Não acho nada, rigorosamente, pelo menos agora. Acho muita coisa, mas de outras formas. Hoje achei que o mais provável, depois de encomendar sushi barato numa noite de lua cheia, seria encontrar o transcendente. O mais provável seria sentir o transcendente aqui, nesta sala, neste sofá, nesta casa vazia. Mas não. Sinto o sabor da cerveja nos lábios e nos dentes, junto com um bocado de arroz, atrás do molar esquerdo. É tudo tão real. 

Olho pela janela. Não dá para ver se a lua está reflectida no rio. Às vezes isso acontece durante a lua cheia, e é uma imagem muito forte. Não fica bem numa fotografia, pelo menos não numa fotografia tirada com um telemóvel. É terrível ter de ser profissional para fixar certas coisas. Há um barco estacionado no meio do rio, cheio de luzes ligadas. Parece uma esplanada da baixa, no verão, pronta para os Santos populares. Pergunto-me se haverá música para aqueles lados.

Estava no cimo de uma rua, fora da baixa, quando vi pela primeira vez o impacto da lua cheia sobre o rio. Nessa altura já tinha mais de trinta anos, mas ainda não me ia casar. A rua era muito íngreme, difícil de descer; no fundo da rua estava o rio e no rio estava a lua. A rua, no fundo, ia dar à lua. Mas eu não desci a rua. Não fiz nada, fiquei apenas a ver a imagem, da lua no rio, no cimo da rua, sabendo que depois ia para casa e ia-me deitar na cama e adormecer. Não me apetece adormecer, agora. 

Sinto-me pesado. Para ser rigoroso, engordei; para ser rigoroso, não tem sido fácil viver esta pandemia. Até Rick e Morty parece um desenho animado de crianças ao pé da realidade. Não aqui dentro, na casa vazia com um candeeiro ligado e duas embalagens estupidamente baratas e vazias de sushi barato no caixote do lixo. Falo lá de fora, nas ruas onde esta casa e as outras casas dos outros se encontram, nas terras junto às terras dos outros das outras terras, que todas juntas fazem a nossa grande terra que está ao pé de outras grandes terras dos outros, e separada pelo mar de outras grandes terras ainda, e de uma ou outra ilha pelo meio. E o que se passa quer nesta rua ou noutra ou numa outra terra ou grande terra ou ilha chega muito rápido aqui, à casa do copo de cerveja junto ao pé direito, onde passo algum tempo a ver ecrãs cheios de páginas e aglomerados de páginas, cheios de imagens, vídeos, sons e opiniões. E é difícil que o cá dentro não fique afetado pelo lá de fora, porque o cá dentro é a nossa maneira de nos relacionarmos com o que vem lá de fora.

Estou pesado (as calças não precisam de cinto, algo que nunca tinha acontecido) e se calhar o jantar e as duas embalagens tiveram algo que ver com algo. Mas não é transcendente. Vejo fogo e vejo força, vejo gritos e vejo dor, mas não vejo poder – ou tenho medo de o estar a ver, no ecrã do telemóvel. Estou a ver o ecrã da televisão, completamente negro, com uma luz vermelha por baixo. Penso se isto é uma representação do futuro, o transcendente que se faz apresentar enquanto metáfora televisiva. Não. Discuti, por mensagens, o idealismo e o realismo, o cinismo crítico, o declínio de um império. Depois vim para o sofá escrever. Apetecia cinema mas não apetecia filme. Apetecia que a televisão se ligasse e o filme que é cinema começasse a passar, e eu visse, e a Carol chegasse do jantar a que foi e ficássemos os dois a ver, ou a sorrir, e depois a dormir.

Durante a tarde também me deitei no sofá a escrever perguntas. Perdi todas as vidas do Duolingo numa aula de alemão sobre o presente. Há uma coisa que me faz confusão: é ein Glas Milch mas é eine Weinflasche? A Carol encomendou um chocolate de leite com avelãs. Lembrei-me de uma canção dos Delfins que ouvi na rádio do carro da minha mãe numa viagem norte-sul quando tinha menos de quinze anos. No refrão o cantor perguntava-me porque é que eu não era como a Sharon Stone. Eu sei que não era a mim que ele queria perguntar isso, mas pensei o que é que leva uma pessoa a perguntar a outra porque é que essa outra não é como, ou igual, à Sharon Stone. Somos o que somos, pessoas muito complicadas, com muitas histórias, já nos bastamos. Porquê?

Hoje, por exemplo, estive com um amigo e colega de trabalho a beber cerveja. Descobrimos, no final do encontro, que tínhamos feito Erasmus no mesmo semestre, e no mesmo país, e que tínhamos estado, durante esse período, em Bolonha, talvez ao mesmo tempo. E eu lembrei-me de um episódio numa pizzaria em Bolonha, em que um amigo português se pôs a falar com um outro português, e pensei se esse segundo português não era este meu amigo e colega de trabalho. Não era, mas não é engraçada, a coincidência? A cerveja agora está junto ao pé esquerdo, outra vez.

Há um tipo que toca a mesma canção na viola, todos os finais de dia e noites de domingo, no início da Rua Garrett. Parece uma música italiana, de filme de praia. Diz que me vai tocar um fado, um dia destes. Mas depois, sempre que nos cruzamos, ele toca esta canção, um dedilhado alegre, mas ligeiramente melancólico. Na quarentena – a Carol disse e bem, que agora falamos sempre desse período como sendo “a quarentena” – o homem estava sozinho, com os edifícios à volta, dando ao esqueleto da cidade a alma que esta não tinha. Era uma alma triste, mas bonita. Não sei se soava a fim, se a início, mas admito ser muito difícil perceber quando uma coisa acaba e quando uma nova coisa começa. Pelo menos para mim. 

Também me é difícil reagir sobre o que se passa. Há pessoas neste mundo que são maltratadas pelos outros de uma maneira abominável, apenas por serem diferentes quando, como nós, são o que são. Acordam, vivem, dormem, e lutam. Acontece noutras grandes terras, como acontece na rua aqui ao lado, ou nos ecrãs nas nossas mãos, e dói, dói horrivelmente. A dor é dor, não tem grande explicação. O mundo dói, e dói rigorosamente, e está a doer muito. Acho que devíamos fazer para que o mundo doa menos; tenho a certeza que poder, podemos. Podíamos (devíamos?) refundar o nosso léxico, fazer uma revolução em que algo verdadeiramente novo e diferente começasse. Sabemos?

A cerveja ainda não acabou mas já voltou para ao pé do direito. O direito trata das regras, das regras do poder, para limitar e para fazer valer o poder, não trata dos pauzinhos e das mãos, mas da realidade e do futuro. O direito devia ser a representação de um léxico bom, humano, aberto. O direito é meta, meta-tudo. Meta tudo o que não interessa no caixote do lixo, imaginem uma canção assim. Sim, sim, sim; sim, vou voltar a pegar num livro, prometo, um livro que não trate de poderes nem de regras, que não seja meta-nada, mas somente muito-tudo, muito bom.

Mas antes, deixem-me ir à janela, porque não sei se as luzes que vejo são de um segundo barco, ou se são apenas o reflexo do meu único candeeiro no vidro. Já vi; são de um segundo barco, do mesmo tamanho do primeiro. E, à direita, lá está a lua, refletida no rio. À minha frente está uma grua, uma grua que aponta para a lua. Lua, sua, tua: transcendente. Uau. Sabes?

 

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