Cafés com nome próprio

No sonho eu estava a correr, tal como hoje de manhã, outra vez a correr, desde não sei quando foi a última vez que corri, estava a correr e a ouvir uma canção que estava na lista que fiz para correr, a lista que fiz talvez há um mês atrás, com canções que tinha ouvido no mês anterior a esse, mas esta canção envelheceu bem, porque as canções para correr envelhecem sempre bem, são feitas para durar quilómetros, para durar anos e gerações, e no sonho estou a correr e a ouvir uma canção dessas e a pensar em fazer um filme com a máquina digital mini-dv que encontrei, no meio das mudanças de casa, um filme sobre um personagem que vive num último andar de um prédio, que tem o telhado pejado de gaivotas no verão, gaivotas às quais ele chama “gaivotins” por nenhuma razão aparente que não parvoíce, e ele no verão quer sempre ser escritor, mas não consegue encontrar uma história para escrever, e então torna-se crítico, crítico de tudo, de cinema, de teatro, de música, de leis e de política e de pessoas, e um dia está a arrumar uns caixotes em casa e descobre uma fotografia da mãe, que já morreu, uma fotografia antiga a preto e branco, em que a mãe aparece muito nova e antiga, ao lado de um senhor estrangeiro, também ele novo e antigo, um senhor que sorri, sorri muito, e ele não sabe quem é o senhor, embora suspeite que seja apenas isso, uma pessoa numa fotografia num determinado momento histórico, e começa a pensar escrever uma história sobre isso, sobre o senhor estrangeiro, sobre a mãe ou uma mulher parecida com a mãe, uma portuguesa num país estrangeiro num tempo antigo, e depois no sonho corro e imagino que o crítico sai de casa para ir levar o computador a arranjar, e entra no carro e põe um disco a tocar, e enquanto ouve o disco começa a fazer uma crítica, uma crítica mental ao disco, e enquanto a cuca toca o crítico crítica, as canções passam, e o carro cruzaas ruas do Bairro das Colónias, onde se encontram cafés com nome próprio, cafés tão espetaculares como o Faz Falta e O Especial, e o carro está a virar na rua Cidade de Liverpool e a subir para a rua Cidade de Manchester via rua Cidade de Cardiff, acabando por ir parar à rua da Penha de França, onde o crítico já não punha os pés, quanto mais as rodas, há uns bons anos, quando ainda nem corria mas já gostava de conduzir e ouvir discos, ouvia discos e criticava-os, escrevendo longos artigos na internet sobre editoras lisboetas alternativas, elogiando a energia e juventude de bandas que desapareceram após editarem um disco, é o que é, e eu estou a sonhar que estou a correr e a ouvir uma canção estrangeira muito forte chamada Velodrome e a imaginar o nosso crítico, em formato mini-dv, a descer a Calçada do Poço dos Mouros para a Morais Soares, ao som de uma canção portuguesa muito bonita chamada Travessia, sobre um casal que trabalha durante a pandemia, o carro e a crítica embalados pelas vozes do Tomás, da Tamen e do Louie, enquanto o crítico se embala até à Alameda a pensar na diferença entre discos SSD e discos HDD, e como a RAM se relaciona com a porta e já não há portas de cd, e ainda as placas, e quando me lembro da placa deve ter havido um curto-circuito qualquer na ligação do sonho e acabo por acordar, e depois levanto-me e vou correr, ouvir uma música chamada Velodrome, ter um dia longo, lavar o carro e ouvir um disco no carro, comprar café e ouvir as histórias e lamúrias do condutor de um serviço de assistência técnica, e a verdade é que não sei se a câmara mini-dv está sequer a funcionar, nem sei se os gaivotins que vivem em cima do telhado vão demorar muito tempo a sair, também não sei muito bem se o condutor não era um pouco exagerado nos números que dizia, mas uma coisa que sei é que não me tem apetecido escrever, ou ler, ou ouvir, que recebo estes discos descomprometidos e divertidos que um grupo de amigos muito talentosos consegue produzir em quarentena como uma boa companhia de viagem, que oiço a produção segura e a mistura eclética de dança, balada, hip hop, canción e divirto-me, aguento as idiossincrasias de grupo, típicas destes discos de comunidade, e aprecio a liberdade e amizade que por ali anda, e até consigo ter vontade de conseguir um vinil para pôr a tocar na sala, num sábado de manhã quando a Carol e eu estamos na nossa, mas nada mais, porque já entrei em modo acabar e quando se está em modo acabar não se escreve, escreve-se (gostam deste pun de tese?), e o resto sonha-se, guarda-se, vive-se, para depois. Depois, logo se vê, em canção, palavra ou, até, mini-dv. Tenham um bom verão; vamos falando. Inté.