Sonhos de ouro

Quando olhei primeiro, antes de mergulhar uma perna, pareceu-me que fosse uma minhoca. Mas ao olhar com mais atenção, e já com as duas pernas dentro do tanque, percebi que era só uma parte de um cabo de plástico, que deve ter caído com o vento. Estava muito calor ao sol, e talvez por isso a água não parecesse tão gelada. Ainda assim os meus sobrinhos perguntaram-me mais do que uma vez porque é que eu não mergulhava a cabeça. Estava com um livro na mão, a ler e a tirar notas, a ver o que é que uma das mentes mais conhecidas do positivismo jurídico tinha a dizer sobre a problemática da relação do direito com a política (spoiler alert: muito pouco). Acabei por mergulhar a dado momento, sem o livro nem o lápis. Às vezes tenho medo de me enfiar dentro de água. Não é uma coisa muito racional, acho que tem mais que ver com o frio do que com outra coisa, como, por exemplo, o medo de me perder. De me enfiar de cabeça na água e de voltar outro, de ali no mergulho deixar alguma coisa no fundo. Mais tarde, com as mãos raspadas e em ferida por terem aparado a segunda queda em jogos de basquete, sentei-me num banco junto ao tanque pequeno. O Jacinto tocava Leonard Cohen debaixo da árvore; estava um céu muito claro, com metade da lua cheia. Vi duas estrelas cadentes, e com binóculos consegue-se ver a cauda de um cometa, um pouco ao lado da Ursa Maior. Quando adormeci, aconteceu-me novamente: sonhei. Sonhar é como um mergulho: parece que quando entramos não sabemos como vamos sair. Nesta noite sonhei que encontrava os Capitão Fausto e lhes dizia que o meu sobrinho Baltasar (número cinco) me tinha confidenciado que tinha cuca-vírus (coisa que ele me disse mesmo, assim de repente, ao jantar). Não sonhei com o Dia do Gafanhoto, de Nathanael West, uma obra-prima da literatura norte-americana que a Snob editou e me recomendou numa das minhas idas semanais à Brotéria (a Snob é uma livraria e editora como uma livraria e uma editora devem ser, com ótimas edições próprias, uma belíssima seleção de livros à venda, e um atendimento impecável, cuidado e pessoal). O Dia do Gafanhoto é o melhor filme noir que vocês alguma vez vão ler; tenho a certeza de que até o “escritor fracassado” de Roberto Alt (também editado pela Snob) concordaria. Mas também não sonhei com o escritor fracassado, embora inconscientemente o tenha feito, nos últimos dias, enquanto acordado. Porque o calor, as ideias, o desejo, os sonhos… percebem? Há uma cena no filme Zabriskie Point, talvez o maior poema alguma vez filmado, em que o personagem principal entra num avião e foge da polícia. Ele já entra no avião transformado; a partir daquele momento a fuga torna-se uma espécie de sonho dourado sobre o deserto, o espaço maior de provação, de liberdade, de amor. Tenho tido alguns sonhos assim, de ouro. Sonhei com a Carol deitada numa piscina, a olhar para o céu, se bem que o céu podia ser os meus olhos, porque parecia que ela me estava a olhar e a sorrir daquela forma muito feliz e natural que ela tem. Hoje acordei e o Estêvão (sobrinho número oito) estava acordado, mas não queria ir para a sala, sorrindo de forma malandra, como quem está a preparar alguma. Enquanto bebia o leite com café pensei em Nanni Moretti a andar por Roma de Vespa, e a mergulhar numa piscina. Roma é uma cidade de verão: faz muito, muito calor. Depois sentei-me à secretária e escrevi no caderno: viver o verão. Tenho muitas páginas de teoria política e jurídica para ler e escrever, assim como algumas páginas de contos e romances onde me refugiar – e, talvez, alguns filmes. Tenho a Carol, tenho a família, tenho os amigos, e tenho o Beiral, e tenho a certeza de um desejo imenso, de me sentar um dia, livre (nem que por um curto momento) de ocupações intelectuais, para me dedicar a escrever uma história. A história é a seguinte: