Imagens

Na imagem — num dia sem tempo — estou com os pés junto ao mar, cobertos pela água das ondas que rebentam a um, dois metros do meu corpo moreno. Estou de calções vermelhos e com as mãos atrás das costas, a olhar em frente. Não contemplo, porque não estou descansado o suficiente para isso. Mas oiço as ondas a bater, aquele ruído intensamente calmo do circuito perpétuo das marés. Avanços, recuos, avanços, recuos. Olho para o fundo de todo o espaço e procuro ver a linha que divide o céu da água. Tento discernir um traço que seja, um horizonte mais claro ou mais escuro entre os dois grande azuis que se me apresentam à vista. Quando olho para a minha direita vejo a Carol a andar pela areia molhada, naquela linha mais estável onde os pés não afundam. Vejo o corpo vestido de biquini azul-cyan a desaparecer na imensidão do areal, aos poucos. Depois volto a olhar para o mar. Não contemplo, porque mesmo descansado tenho a cabeça cheia de coisas. Vejo o céu e lembro-me de Brautigan, que dizia que o seu lugar no mundo era ser nuvem. Vejo o mar e não penso em nada. Tenho muito em que pensar. Afinal, durante este verão li livros (demasiados livros), tive sonhos (tantos sonhos), e meti-me em aventuras. Tenho ideias, imagens, canções, momentos, memórias, energias — o diabo a sete. Não tenho é pressa, nem sequer peso (exceto físico). Tenho, isso sim, vontade. Tenho vontade de andar. E então viro-me e ponho-me a seguir a Carol, caminhando na linha do horizonte, com as minhas mãos soltas. Pés na terra, mar à vista, corpo quente, sob o céu.