The beginning of a new academic ano

Estava a escrever sobre acordar, com a cabeça encostada à janela do carro, a ver o céu e a paisagem e o movimento de tudo, o filme que é a vida quando vista a partir de uma janela de um automóvel. Tinha na minha cabeça o Arizona, e depois o Utah, e depois nada, nenhum sítio em especial; apenas o céu, e o tudo que o céu tem (que é: tudo). Mas é difícil, e quem sabe, talvez inútil, tentar escrever agora, no início de um novo ano académico. Na realidade, e para ser sincero, estava no banco de trás do carro, com janela semi-aberta e o vento a chocar contra a cara. Ruas pouco cheias, que é como quem diz um pouco vazias, que é como quem diz: a acordar. No outro dia passei aqui a pé, nesta avenida, a caminho de casa. Ouvia canções de guerra, de combate, de entrega. Todas do Chefe, claro. Depois fui ouvir, pela primeira vez desde que me lembro de ser pessoa, a canção Photograph, dos Nickelback. É suficientemente orelhuda para ficar na cabeça e invadir-nos os intervalos quotidianos de pensamento, como aquele momento clássico, após o jantar, em que vamos buscar chocolate à cozinha. É, também, suficientemente foleira para se perceber que é melhor, para a minha saúde – para a minha sanidade – ouvir outra coisa (escrevo “ouvir outra coisa” e na minha cabeça começa a tocar time to say goodbye, goodbye-eye-eye. Sacanas). Tenho saudades de ouvir discos bons, ou de ter cabeça para ouvir discos bons, nem sei bem. Por um lado é bom: estou focado, que é como quem diz, comprometido. Por outro, sinto. Comecei a ler Sylvia Plath no primeiro dia deste novo ano académico. Primeira frase: It was a queer, sultry summer, the summer they electrocuted the Rosenbergs, and I didn’t know what I was doing in New York. Depois, ou antes (não interessa, na verdade) estou em casa, e é de manhã; estou descansado, a pensar sobre isto, que é como quem diz: a pensar sobre escrever, e quando levanto a cabeça reparo que estamos, os dois, refletidos no ecrã da televisão, duas figuras no sofá, a beber café, com as tábuas da parede atrás brancas de sol. É uma imagem bonita e imediata. Depois fomos trabalhar. Ouvimos Bach, escrevemos uns bons parágrafos, no meu caso sobre o poder e o dever, sobre o poder do dever e o dever do poder. Aproveito o que recebo, dou o que devo, vivo o que tenho, e o que tenho para fazer. Agora, por exemplo, estou de pé, em casa, a olhar para o espaço para onde vai entrar o armário, e a aperceber-me: a acordar, aos poucos, para o ritmo deste final de ano no qual me encontro. Invade-me a vontade, impele-me o sentido, sorri-me / a / inocência. A dado momento desligamos as luzes, abraçamo-nos, e vamos dormir. Amanhã voltamos a correr, lado a lado: é uma promessa. Ritmo, movimento, e céu, que é como quem diz: tudo.