Sobre o mar

Abrimos a janela e a noite estava boa, nada fria. Algumas nuvens, um barco com as luzes todas ligadas, um autocarro a passar o Rossio, ninguém à vista em lado nenhum (rua, janelas, nada). Ouvi o avião, e espantei-me, porque há tanto tempo que não reparava em aviões, e ainda para mais estamos em recolhimento, quem é que voa quando o país está em recolhimento? Mas não pensei muito nisso, e virei-me para ver o avião, seguindo-o com os olhos, e o avião subiu e virou, entrando em cheio nas nuvens, desaparecendo no meio delas, muito lentamente, como num filme. Depois voltou a ficar tudo calmo, as pessoas continuaram recolhidas, a Carol tirava fotografias e o céu estava aberto e limpo, sobre o mar.