A noite mais longa de George Smiley

Sempre que penso em John Le Carré vem-me à cabeça a imagem de George Smiley, o príncipe de todos os espiões que o falecido autor inglês projetou. Nessa imagem – que nasceu de uma leitura apaixonada do romance Tinker, Tailor, Soldier, Spy durante umas férias na Indonésia – Smiley está num quarto, numa casa fora de Londres, e creio que está a jantar ou a instalar-se, e de repente passam-lhe tantas coisas pela cabeça, sobre o antigo chefe que ele enterrou e sobre a mulher que perdeu e sobre o rival que o seduz. Há muitos plots e sub-plots na narrativa, muitos espaços onde personagens se perseguem, literal e metaforicamente, escritos com uma precisão e rigor belíssimos. Mas é essa imagem que me fica, o quadro de um homem sério e profissional num momento de dúvida, lutando contra as suas desilusões e frustrações, sabendo que só quando as ultrapassar é que vai chegar ao fim do combate. Não é qualquer romancista que nos consegue apresentar, de forma tão clara e profunda, o remoinho que nos surge em momentos de pausa e isolamento. Farewell John: o “espião” da literatura que sempre nos aqueceu a alma.