Palavras, silêncios

Sabes, acredito que não seja fácil. Neste momento, pelo menos. Talvez daqui a uns meses, ou anos, seja melhor: talvez aí possamos sentarmo-nos nalguma cadeira ou sofá, dentro de uma casa e ter consciência de tudo o que foi este ano. Ontem estávamos em casa, no meio de uma temperatura para lá de siberiana, a ver fotografias que tirámos desde janeiro até hoje. Em retrospetiva tudo parece muito (demasiado) e muito cheio. As imagens falam de forma silenciosa mas forte, conseguindo com as suas cores, formas e retratos catapultarmo-nos imediatamente para um lugar, um sentimento, uma pessoa, ou uma família. Tenho a certeza de que se tivesse pegado nos livros de Rachel Cusk, Nathanael West, Richard Brautigan, Hannah Arendt e Rui Manuel Amaral teria acontecido o mesmo, ou praticamente o mesmo. Cansei-me muito durante este ano, e internamente ressenti-me. Não é fácil não saber falar para dentro, tendo muitas vezes de escrever para fora para me começar a aperceber do que se vai passando “no banco de trás do carro” enquanto caminho, cozinho ou adormeço. Contei-te, no início do ano passado, sobre palavras e explosões, sobre como tinha de me cingir aos factos para me agarrar a qualquer coisa segura, e de como muitas vezes os factos se tornam algo mais, verdadeiros movimentos perpétuos de ideias e mundos, e eu tinha de ficar onde estava, na linha entre a realidade, a razão e a emoção, para perceber a verdade. A magia das coisas é inigualável. Sonhei imenso este ano, com explosões e passeios e mortes e o mar e o amor; depois acordava e ia dar aulas ou sentava-me a ler ou a escrever o meu primeiro calhamaço académico. A Bitcoin passou os vinte mil euros e eu passei os oitenta quilos porque correr, que sempre me fez bem, já não era possível, o ritmo existencial tornava-se cada vez mais absorvente e total, como as máscaras que agora servem de nosso hábito necessário, mesmo dentro de casa. Não é, de todo, fácil parar para pensar ou falar sobre o que foi. Mas há uma coisa que tenho de te dizer, sob pena de parecer que não estive aqui – estive sempre, mesmo que apagado ou escondido – que é a seguinte. No dia doze de março a faculdade fechou e a Carol veio cá para casa. Passaram-se nove meses; a casa já não é a mesma, e nós também não. Não nos casámos, deixámos isso para o verão deste ano que vem, seguindo a numerologia corrente e tornando este ano no zero de vida partilhada e no próximo o primeiro de casados (e o último – bate três vezes na madeira – de tese). Crescer é complicado, sobretudo a dois, quando as rotinas e os hábitos e os desejos e as séries entram em jogo conjunto e recíproco. Mas um dia estava na praia, na Aberta Nova, e fui andando a pé, a Carol ao fundo, muitos passos à frente; depois parou, esperando por este amontoado beto lisboeta composto por intelectualismos políticos, realismo jurídico e cultura pop que se arrastava, e eu vi aquela cara e pela vez número oitenta e sete mil duzentos e quarenta e nove desmanchei-me, tal e qual como num carro parado no parque de estacionamento de um Intermaché em Ponte de Lima, sabendo que a vida é difícil, que “tudo passa, tudo passa, só não passa a Graça”, e a Graça, ao contrário do que dizem, é um lugar comum, onde uma pessoa pode ser noutra, e pode ser mais por ser por outra, tornando-se qualquer coisa maior e única com esta, em conjunto. Tinha de te dizer isto (já te tinha dito isto), porque quando olharmos para o ano de dois mil e vinte vamos lembrar-nos por certo de muitas coisas, do Cucavida e do título do Liverpool, do Brexit e do Biden, de guardar peixe dentro do frigorífico de uma autocaravana e de ir nadar no mar às oito da manhã, de este ter sido o penúltimo ano do blog chamado Álbum (hein?! o quê?!) e de ter descoberto as cascatas do Gerês. Mas gostava que não te esquecesses nunca, de que dois mil e vinte foi o ano em que este tonto bem intencionado e completamente desajeitado cresceu, e de uma forma estúpida e inacreditável, no amor. E o amor não é um instante nem um momento, mas um fortíssimo abraço incessante, que abre e potencia o melhor que todos nós temos. As minhas felicidades para vinte vinte e um, ano em que conto estarmos novamente próximos, perseverantes e exigentes, no humor que este mundo caótico nos pede para ter, dia a dia, cara a cara, força a força. Bom ano.