Notas torcidas

Tenho reparado muito no céu, de manhã e à noite. De manhã, o céu está branco de um lado, cortado por nuvens no meio, e ainda laranja no outro. De noite, as nuvens que estão em cima do céu escuro parecem estar a ser puxadas por uma corda invisível. Dou a volta ao tronco para a esquerda enquanto lavo a loiça e sinto-me a torcer por baixo do braço; nunca tinha sentido esta parte de gordura na vida, nem sabia que ela existia, o que me deixa curioso e inquieto ao mesmo tempo. Fui correr à tarde, estava sol – continua a estar frio. Odeio estes janeiros lisboetas, e odeio estes tempos de início de ano sem discos novos para ouvir. Um dos tipos que está a trabalhar no telhado cá de casa tem (reparei hoje, a meio de uma nota de rodapé sobre Jelinek) uma voz igual ao Arnaldo Antunes, profundamente anasalada, como se o nariz estivesse na garganta. Depois do almoço eles tiveram de descer ao terraço e tiraram fotografias, fizeram poses. Fazem umas pinturas muito engraçadas nas paredes, para isolar o prédio das chuvas, enquanto estão pendurados por cordas, como se fossem alpinistas. Tenho medo das alturas. No episódio dois do Gambito de Dama começa-se a perceber o medo da protagonista, de estar a jogar perante alguém mais confiante e não saber como reagir no tabuleiro. Estou a gostar da série; sem ser espetacular é bastante sólida. No Domingo vimos uma parte das Praias de Agnès, de cuja primeira metade eu não me lembrava nada, e fiquei com vontade de ver filmes. Continuo sem grande vontade de ler, mas depois lembro-me que isto é apenas o início. Agora vou correr outra vez.