Regresso à pista

Isto não é um documentário, diz Mekas a dado momento, mas é de certeza um documento, e o que é um documento? Uma declaração, um marco, um registo, um artefacto? Será um mito, ou um monumento? No filme de Marker o documento é a história, pequenos fotogramas de pessoas que partilham uma história, que é o mesmo dizer que partilham uma vida, um sonho, e uma morte. A dado momento, Mekas está com Lennon, Jackie, Ono, Warhol, Ginsberg, todos mortos e todos vivos, todos num sonho que é o documento – ou o documento é que nos leva ao sonho? Gosto muito quando a cara dele aparece em Scenes From the Life of Andy Warhol, o autor que fez (fazer de produzir, não de montar e juntar: de criar) um documento de memórias e sentimentos, de lugares e luzes, de tempos e contratempos. Ao contrário de Mekas, Marker nunca aparece, mas está presente em tudo, em todas as caras e palavras de La Jetée, cada grão do corpo de Davos Hanich ou da cara de Hélène Chatelain. A imagem como romance, como poema, como regresso, e como marca e invólucro linguístico de uma comunidade transcendente. E assim, inesperadamente (como em qualquer momento de revelação) volto à pista do cinema, neste início de ano frio e solarengo.