1. Colagens

Estava a pensar na forma como a arte consegue dialogar com o poder, ao ouvir o Miguel Januário falar sobre as suas aventuras na Brotéria. Depois comi um burrito e ouvi um reggaeton no bar do Résus (é Jesus, mas em castelhano) enquanto assistia às últimas notícias da campanha eleitoral num ecrã que tem o meu tamanho. Alguém já deve ter dito isto, mas o Tiago Mayan é parecido com o Adam Driver, não é? Entrei a fundo nas eleições na semana passada, ando a pensar nisso nestes tempos. Há um som que toca e que me fica na cabeça – o Montenegras diz que estes sons são todos iguais, e tem razão, mas este é bom, ou pelo menos parece bom, aqui no bar do Résus, poucas horas antes de entrar em vigor o novo dever de recolhimento domiciliário. Por falar em música em castelhano: encontrei um irmão do Sarmento, que está aqui comigo e que é o grande culpado de estarmos no Résus, quando fiz o caminho de Santiago. Estávamos num albergue para peregrinos em Caldas de Reis, hospedados por José “el Peregrino” (googlem o homem, vale a pena) e o Nuno mostrou-me um vídeo da Rosalía a cantar São João da Cruz (belíssimo poema – “mesmo que seja de noite”). Voltei a ouvir a canção hoje de manhã, depois de falar com Miguel e Bogdan sobre o isolamento da fachada, e de ler a entrevista de Don De Lillo ao Público (e algumas páginas de um texto muito semelhante nos temas, de Georges Didi-Huberman, num livro que tinha na estante). Comecei a ler o Americana no outro dia, durei algumas páginas. Hoje vou começar a ler um livro, talvez consiga ler mais durante este recolhimento. Apetece-me, como sempre, fazer alguma coisa neste tempo – escrever, tocar, filmar. Apetece-me, por exemplo, fazer colagens. Colagens?