2. Colagens (tentativa)

Em La Jetée de Chris Marker há uma voz e várias imagens. As imagens, fixas e paradas, coladas em sequência, com a justaposição da voz do narrador, que nos conta uma história. A soma acaba por criar todo um movimento que parece mais vivo que muitos filmes. A ideia a tornar-se vida, o intelecto a tornar-se corpo, o sentimento… e a inocência (a realidade?) de tudo isso. O cinema – como La Jetée, e muitos outros – é um exercício de colagens. Imagens, cores, sons, palavras, movimentos. Ando a escrever uma tese, que é uma colagem de ideias, factos, argumentos, propostas. Tal como uma canção é uma colagem de acordes, letras, sentimentos, políticas e um livro… Não me vou esticar. Mas resolvi, esta semana, jogar um jogo, colecionando fotogramas para depois fazer um pequeno filme. Segui enquadramentos, procurei cores, pensei em momentos e histórias, em personagens, caminhos, dúvidas. Depois fiz uma música, leve, ambiental; organizei tudo, na manhã de sábado depois de ler uma entrevista ao Presidente da República e um artigo de opinião do Francisco Mendes da Silva sobre o liberalismo como condição base do nosso sistema político. Saiu isto. Um esboço, um ensaio, uma tentativa – mas de quê? Não me perguntem muito mais, talvez só consiga responder daqui a algum tempo. Agora está um dia lindo de sol, terrível ironia para o primeiro fim de semana de recolhimento domiciliário obrigatório deste ano. Ainda não comecei a ler o meu livro.