6. Carmo (largo do)

Faltavam ovos, fui comprar. No caminho encontrei uma senhora à janela a falar altíssimo, como se a rua fosse a sua sala de estar. No Largo do Carmo estava um senhor com um saco de roupa por lavar em cima da mini-roulote da Leitaria do Carmo. Reparei que não havia guardas na entrada do quartel. Não havia, de facto, muita gente na rua. Desci para o Rossio. O café da esquina que ainda estava aberto na segunda-feira, quando fui correr, fechou. Olhei para o lado, e numa transição de cenário narrativo à la Anna Kavan (o meu livro, já agora, é o Gelo, recomendação muito acertada do “braço” na Brotéria da livraria Snob) é de noite, um dia posterior e chove um pouco; já temos ovos, vou comprar peixe. Está um casal junto à a janela da estação do Rossio, duas sombras escuras contra a luz interior da paragem. Ele afasta-se, ela aproxima-se; depois trocam de movimento, mas nunca se encontram. Continuam nisto quando volto, com dois robalos no saco isotérmico. Fico a vê-los um pouco, até se juntarem e entrarem na estação. Oiço uma grande canção da Lande Hekt enquanto subo as escadas. Mais tarde emociono-me com o final do Gambito de Dama (boa série, sólida), quando (spoiler alert) os russos que jogam na rua reconhecem Liz Harmon. Não me perguntem porquê, achei bonito. Sou uma pessoa sensível. Não sei se alguma vez vos tinha dito isso.