12. Preguiça e perspetiva

Falava com um outro Martinho, que se encontra no Brasil, sobre como é difícil aguentar o tempo confinado. Bate a todos, e todos temos maneiras de lidar com as limitações de espaço e de tempo. Montamos rotinas, cumprimos com os trabalhos, entretemo-nos com leituras, redes sociais, séries e filmes, vamos correr ou cozinhar… Mas, inevitavelmente, a perspetiva de um período longo nestas condições acaba por levar à preguiça – e sabemos que chegámos à preguiça quando fazemos uma espécie de “zapping” na secção “Para ver casualmente” do Netflix (se já lá foram parar, saibam que estão perto do fundo). A preguiça e a procrastinação são duas das coisas simultaneamente mais deliciosas e tramadas que a existência produziu, sobretudo quando o tempo é só tempo, sem movimentos adicionais. Ficamos, assim, com o dia que está e com o que temos connosco (nevoeiro, obras no telhado, rissóis de leitão no congelador), o que, admitamos, não é coisa pouca. Estava a ler um excerto de Joan Didion em que a autora falava de como se distraía com o próximo e o imediato, face às ideias. Partir do pequeno para o grande, observar os detalhes, questionar o que está em redor. Por exemplo, a chaminé cinzenta e alta que está mesmo ao lado da palmeira, a bloquear a vista para o mar. Mas quem é que teve a ideia de fazer aquilo?