Efeméride

Nunca fui bom a responder, nem sequer pontual. Desde há um ano para cá que a coisa agravou-se. Não foi a única coisa que piorou; a barriga ainda é grande, a vontade de filmes é pouca, o telhado ainda não está arranjado, e tenho mais cabelos brancos. Passado um ano compro kombuchas no supermercado sem ter um pingo de vergonha, deixei-me das papas de aveia ao pequeno-almoço, curto bué cenouras descascadas durante o lanche, e assumi o pão que é vida – o de hoje veio de uma padaria dinamarquesa, e tinha um sabor profundo (outra coisa em que sinto que piorei: na utilização de palavras). O que melhorou foi o ritmo, a dedicação, a organização, e o saber receber. E o conhecimento da matéria, dos manuais, das teorias, das opiniões… Há um ano atrás acho que fazia algum sol, mas não me lembro bem: a sensação que tenho é que a chuva foi um fenómeno posterior, que veio durante o período de desconfinamento a seguir ao Verão. Nessa altura já estávamos com uma rotina e um hábito, já tínhamos o tapete na sala, o Dick Johnson (a nossa planta) já cá vivia, e a nossa série da noite era… não me lembro. Talvez depois me lembre, quando sair do modo tese que me vai ocupar todo este ano, pela última vez, mas por todo este ano. Sem postais, sem filmes, sem canções, só com escritas, com ideias, com argumentos e estruturas. E aulas, discussões. Talvez nessa altura me possa lembrar e constatar, como neste sábado de manhã, depois de comer um pão dinamarquês com uma fatia de queijo limiano, da naturalidade espantosa e certa com que a minha vida aconteceu, durante a pandemia, com uma miúda de sorriso luminoso, num quinto andar sem elevador. Sabem, ainda oiço discos, aqui e ali. Mantenho listas de canções. Devoro jornais, e tento manter-me o mais possível afastado de redes sociais para não dispersar. Gostava de rezar mais, devia rezar mais. Devia agradecer todos os dias por no dia doze de março de dois mil e vinte me ter metido em casa com a Carol, sem fazer ideia de quando iríamos sair. Hoje está sol e é para sair, e descansar. Segunda-feira, lá vamos nós outra vez, down down.