Plácidos Domingos (fim / início)

A dado momento houve uma partida. Não foi imediata, mas progressiva: uma primeira saída para ir colocando os móveis, uma segunda para ir arrumar as caixas, voltando aqui e ali para ver como é que as coisas estavam neste canto, como é que me estava a aguentar, o que estava a fazer (se os discos estavam bem arrumados, essas coisas). Até que, recentemente, olhei à volta e apercebi-me que a despedida tinha acontecido, que o Martinho – ou um tempo, espaço do Martinho – tinha saído. É engraçado, porque já nem me lembro bem dele. Não é muito diferente de mim; aliás, é bastante parecido, na falta de jeito, na falta de pudor, no humor, no gosto por croissants brioche… Mas era um Martinho que foi. Que já era, que já não é. Que já não sou. É estranho, é engraçado (para mim, são duas palavras com sentidos muito semelhantes). Mas ontem reparei nisso. Não houve dor, nem houve chatice com a partida. Foi tudo muito normal, muito leve, muito certo. E sucedeu: aconteceu. Não houve um momento, um jantar ou um evento qualquer. Clássico Martinho, saindo à socapa, com dois ou três adeus e um piscar de olhos. Às vezes ainda o vejo, quando passeio sozinho na rua, ou ando de carro à noite; o mesmo Martinho que se apaixona com as luzes da Avenida de Roma, com paisagens amplas e abertas, que podia ficar horas sentado a ver o mar ou a passear por ruas estrangeiras, e que adora guiar. O mesmo Martinho que gosta de agarrar as pessoas e de as sentir, que adora ideias e imagens e canções tanto como gosta de mãos, de pedras, da terra nos dedos. Que torna tudo uma história, uma estrutura, uma lógica, nem sempre linear. Às vezes, no banco de trás do carro, lá este ele, com o sorriso de quem descobre, no meio do que se passa, algum tipo de graça real e ingénua. É um bom tipo, mas não tão capaz, não tão forte, não tão corajoso. Muito ele, não tão eu. O motivo é um: é que esse Martinho não tinha a Carol, não era com ela. Agora é. Já é há algum tempo – diria mais, sempre foi. Sempre fomos, a Carol e eu, desde que nos conhecemos. Um com o outro e um para o outro. Foi tudo muito normal, muito leve, muito certo, e acrescentaria: bonito como ao raio. Às vezes ainda me surpreendo, sobretudo quando ela sorri. Não há coisa no mundo mais bonita e desarmante do que o sorriso da Carol, na sua inocência e certeza, no seu sentimento e beleza, na sua promessa, na sua vida. Esqueçam. Tragam-me os desertos que quiserem, os monumentos antigos e as modernices mais vanguardistas; falem-me de qualquer pôr-do-soloriental e de qualquer praia portuguesa, de qualquer estrada americana ou praça europeia. Falem-me de livros, dos melhores poemas que conhecem, de discos, de caras, de ações. Não há nada, nenhum tesouro maior, nenhum doce mais insuperável que o sorriso dourado da Carol, numa manhã de fim-de-semana, no sofá, enquanto tomamos o pequeno-almoço e olhamos pela janela. Nem as suas mãos de anjo, nem as suas bochechas de criança ou as sardinhas da sua cara. Não há nada, nada. Arrebata-me o quanto sou dela, e o quanto ela é minha; o quanto somos, um com o outro, e como nos tornámos assim. Aconteceu, sucedeu. Ela é a minha rocha e a minha casa. É a minha melhor amiga, o meu refúgio. E a minha exigência, o meu caminho. A Carol é a minha mulher – bem, do ponto vista canónico-jurídico só será daqui a sete dias (ui, está quase, não está?). E apesar de, dito assim, o acontecimento de dia 12 de junho parecer uma formalidade, nada disso: sinto que é o momento bonito de nos assumirmos como transformados e como novos seres que somos, perante Deus e os outros. É, o momento em si, ele mesmo fundador. Estou para lá de feliz, diga-se de passagem, por ser o marido dela – porque yass, há coisas nesta vida que valem, verdadeiramente, toda a pena. O Martinho dava muitas graças a Deus, no meio de toda a sua fragilidade, pelo muito que sempre teve. Deus deu-lhe uma nova Graça. Não sei muito bem lidar com o amor, não sou espetacular a receber, admito. Mas por ela, e para ela, sou tudo. Sou todo. Sou eu, com ela, e ela, comigo. Na casa, na rua, nas lides e nos afazeres, nos descansos e nas tensões, nos pequenos e nos grandes pormenores. O Martinho sabe disso, e está muito contente. Consigo senti-lo a rir-se connosco, no banco de trás do carro, abanando a cabeça ao som de todos os sons que pomos no rádio, especialmente no Avicii. “Oh, às vezes, tenho um feeling”, dirá ele. Foi bom sê-lo. Foi mesmo muito bom sê-lo, e espero que aí, desse lado do ecrã, também tenham achado o mesmo. Agora, vão ter de lidar comigo. Para ser franco, acho que já andavam a lidar, desde há quase três anos. Sou parecido, mas diferente; melhor, todos os dias. Tenho, dentro de mim, um sorriso do tamanho do mundo. E, ao meu lado, o melhor de todos, a melhor de todas. Ligo o rádio, e toca a canção mais esperançosa que a humanidade já viu. Canto, com o Martinho, como Martinho, que “A porta abre-se / lá estás tu / como uma visão do céu / e no rádio” – num momento de filme, esta seria uma música de entrada perfeita – “Roy Orbinson canta: ‘estou sozinho’ / como estás, eu sou o Martinho” – num momento de filme, olho para a Carol, nos olhos, e remato – “e vou casar contigo”. Bem-vindos ao amor, à minha última semana de solteiro, ao meu último postal enquanto (este) Martinho. Depois, dia 12, as coisas serão – neste momento, na vida real, estou a acabar de ler isto à Carol numa mesa de um restaurante italiano de domingo, com as lágrimas a caírem-me pela cara – como o Ben Lerner diz que os Hasidis dizem que vão ser: iguais, mas diferentes. Até já.