Verão

Todas as viagens são sonhos. A linguagem moderna chama-lhes “escaparates” (nas piores versões, “escapadinhas”), mas acho isso uma forma demasiado redutora (e degradante e ridícula) para descrever o que é viajar. Prefiro muito mais a palavra “passeio”: captura de forma correta o ato e deixa em aberto o mistério fabuloso que é descobrir, viver. O Verão é o tempo das viagens, mas uma viagem não se esgota no Verão: transcende-o, dobra-o, doma-o como a um cordeiro. E uma lua-de-mel? É a viagem das viagens, o sonho dos sonhos; a primeira vez que se passeia (que se vive e que se descobre) num estado novo, transformado e profundo, em duplo corpo: quatro olhos, quatro mãos, dois corações, dois sorrisos. A dado momento pensei que ia deixar-me ir, mas depois comecei a tomar notas no meu caderno vermelho, sobre coisas soltas que os dias traziam, desde imagens a pormenores engraçados. Por exemplo, na Ribeira Grande apanhámos, na missa de domingo, uma profissão de fé, em que o aleluia era uma versão da canção com o mesmo título de Leonard Cohen. No Boca de Cena, em Ponta Delgada, comemos o melhor atum do mundo. No nosso hotel na Lagoa, o cheiro a mar entrava-nos pelo quarto adentro. Mas deixei de escrever quando ainda estávamos em São Miguel, muito antes de subirmos ao Pico, de comermos na Taberna do Canal, de vermos uma cachalote irromper no meio do azul do oceano atlântico, ou de sermos confrontados com o cenário divino que é a Serra do Topo, em S. Jorge, no início do caminho para a Caldeira do Santo Cristo, e de provarmos o delicioso café DIY dos Nunes, na Fajã dos Vimes. Por isso não vou estar aqui com coisas, apenas com factos, e alguns sentimentos. Porque numa viagem parte-se para longe, e como não amar a distância e a sua oportunidade com quem mais amamos? A Carol é a melhor companheira de vida, porque para além de ser a mulher mais bonita do mundo, gosta de aventura, mesmo quando não sabe que se meteu numa (sobretudo, quando disse que sim a uma proposta canónico-jurídica que lhe enderecei). Vive as coisas com a verdade que elas têm, com o sentimento que pedem. E os Açores são o paraíso do sentimento (e da beleza, e da comida, e do descanso…). Mil respeitos para quem prefere Maldivas, mas aquele nosso bonito arquipélago é o céu na terra, e vivemo-lo para lá de bem. Passámos por umas histórias muito boas – se forem descer o Pico, tenham um bom vinho branco (duas garrafas, dependendo da forma física pré-subida) à vossa espera, porque dá jeito – e vivemos mais do que podíamos pedir. Podia descrever, mas isso são factos, e prefiro focar-me no passeio. Agora, começa o Verão, e este Verão é para trabalhar. “Tem de ser / tem de ser”. Há sol, há mar, há ler e estudar (a minha poesia anda pelas ruas da amargura, mas prometo que é só até acabar a tese). No meio do silêncio a que nos votamos, fiquem com uma listinha de canções de vinte vinte e um (com um ou outro intruso) para entreter nos momentos de passeio – ou de “escape”. Kudos mil, e beijos deste vosso “cachalô”.