Lara

Reparei nela numa pausa entre dois parágrafos. Ao início achei que era uma criança, com não mais do que seis anos, que tinha descoberto como chegar ao telhado das casas de baixo, e que já tinha um nível de maturidade tal para se saber sentar, muito parada, e apreciar a espera. Depois é que me apercebi que era uma senhora, com sessenta e poucos anos. Vestia calças brancas e uma camisola azul-clara, o cabelo grisalho aos caracóis. Estava sentada de costas para nós, a olhar para o movimento das árvores, para a ponta da arriba algarvia, para o mar, para o céu, para qualquer coisa que teria dentro de si, ou então só para o tempo. Era final de tarde, pouco depois das sete, e o vento fazia as plantas e árvores mexerem-se lentamente, numa elegância muito calma. O sol ainda vivo, o céu ainda azul. Esqueci-me da ideia que tinha e fiquei a olhar para o grande pinheiro despido que está à minha frente. Acho que é um pinheiro; para ser sincero, não tenho a certeza se é um pinheiro, mas diria que sim, pelas folhas pontiagudas. Sempre ouvi dizer que é engraçado um escritor não saber o nome das árvores. Mas se calhar não sou um escritor, e sim alguém que se fica apenas pelo espetáculo do que vê, do que sente e do que sabe, sentado na sua cadeira, acabando uma tese de doutoramento, enquanto o mundo passa e me cumprimenta, com todo o seu sereno esplendor.