Estamos num táxi, a descer para o sul de Lombok. A Carol pergunta-me se eu não tenho sono e eu digo que não, não tenho. Mas tenho qualquer coisa, aquela atenção descontraída que uma viagem de carro proporciona. Lá fora a estrada, e nela as cidades, as pessoas, os cheiros – a vida. Quando de repente vejo a palavra “amor” escrita numa parede e junto-a, num rápido e inconsciente exercício mental, às outras duas palavras que tinha visto ontem – “punk” e “soul” – sei que a combinação é certeira, e que estou dentro de um postal. Gosto muito de postais, em especial dos que estão em movimento. Vejo um homem num fato-de-macaco cor de laranja berrante; dois minutos depois vejo um carro cor-de-rosa choque a ir na direcção contrária. Que encontro cromático terá acontecido? Um cartaz de um sítio que parece, assim de repente, um restaurante (ou serei eu que quero que seja um restaurante?) diz: “Anda Lapar”. Perco a conta às mesquitas por onde passamos, construídas e em construção. Gosto de mesquitas, das suas torres, das suas cúpulas – aqui são muito redondas, com tons marítimos (verdes, azuis). Os warungs começam a encher, com pessoas a sentarem-se e os donos a cozinhar peixe grelhado. Os indonésios são mestres na arte de sentar. Tenho de perguntar como se chamam as cabanas onde eles se sentam na estrada, junto às casas e em frente às praias. Penso em perguntar ao taxista, mas fico apenas a olhar para as costas dele. O taxista tem um movimento que repete a cada cinco minutos, de abanar a cabeça, primeiro para a esquerda e depois para a direita. Falámos um pouco no início; foi o primeiro tipo na Indonésia que, ao saber que éramos portugueses, não respondeu “Cristiano Ronaldo”. Limitou-se a afirmar que vimos de longe. Há momentos em que quero que ele me pergunte alguma coisa, que faça conversa. Do género, o que é que fazes? Diria: sou uma fraude que gosta de existir, sou um advogado que gosta de escrever, um académico que gosta da vida e do seu movimento. Um maluco que fixa realidades aleatórias que vê da janela do carro, como uma rede de badminton, um sinal que diz “federal oil”, um grupo de putos juntos à parede da escola com ar de quem está PPP – Prestes a Pregar uma Partida. Um respigador, como Agnès Varda, mas encapotado. Engraçado: a Carol reparou hoje, no hotel, no nome Varda, em letras douradas, fixas na parede, apontando para cima. Se calhar era o destino, ter este Varda feeling, hoje. Li no maravilhoso Flights, da Olga Tokarczuk (um óptimo livro, feito de belíssimos postais) que o desejo, por si só, apenas indica uma direção, um movimento. O resto é um mistério. Desliguei a dado momento da viagem e deixei de recolher imagens, para passar apenas a apreciar os montes do sul de Lombok, uma serra de Monchique versão hemisfério-sul. Quando chegámos ao hotel, olhei para a porta e reparei no nome da marca da pega de ferro. Sabem qual era? “Belleza”.

Instruções (do melhor livro de viagens)

INSTRUCTIONS

I dreamed I was leafing through an American magazine with photographs of ponds and pools. I saw everything detail by detail. The letters A, B and C described precisely every component part of the plans and outlines. I eagerly began reading an article entitled: ‘How to Build an Ocean: Instructions’.

Olga Tokarczuk, Flights (translated by Jennifer Croft), 2017

I’m again having a shower in another open-air bathroom in Indonesia, this time located in a budget bungalow in Nusa Penida island. The water is cold, but ok. I look at the sky. The tone is pink, post-sunset pink. I often remember, when I see the sky like this, the song Pink Rabbits. It’s a slow-burn song, very light, like the sky now. It makes me feel like writing, taking notes, put down pen to paper, make lists, annotate dreams and ideas. There’s something about being able to bath under the sky without any kind of man-made intermediation, like a window, or a roof, or a ceiling: it feels better, more divine than usual.