Mais uma vez around

And I try to make sense de uma sensação, de uma vertigem que me vem quando estou parado, quando me deito, quando fecho um livro, uma vertigem que me vem com uma canção — porque of cross que vem com uma canção — que é uma canção de letra dura envolta num instrumental de ritmo e ternura, uma canção para pôr um sorriso curto na cara, para aumentar a ruga da face esquerda, mas atenção, curto mas muito sentido, uma canção para dançar a pares, de mãos dadas e corpos juntos, mas não sensual, apenas bonita, ou então, se sozinho, uma canção para se estar sentado no sofá com um chá simpático e deixar que o órgão e o piano tratem do resto, que a bateria jazzística faça o seu furor, e que aquela voz tão incrível — em Chicago eu pensei o quanto gosto de Goergia Hubley, da figura de Georgia Hubley, do curto sorriso de Georgia Hubley, e sobretudo, da belíssima e querida voz de Georgia Hubley — torna num doce irresistível, e a vertigem é o espaço que essa canção me deixa, como um calor que se sente antes de uma aventura, nem fácil nem difícil, ligeiramente divertido, e seguro, muito seguro, por isso não me entendam mal, não é uma vertigem má, é pelo contrário uma vertigem bastante boa, excitante até, um entusiasmo que vem por várias razões, que surge no meio da minha serenidade académica, nos finais e conclusões da minha rotina diária, e eu consigo perceber porquê, porque é uma vertigem sobre algo que vem, sobre coisas que vêm e que estão a vir, sobre inseguranças e desafios que vêm, sobre despedidas e sobre descobertas, sobre regressos e sobre caras, sobre paisagens e sonhos e sobre ritmos, sobre ideias, sobre conversas, sobre tanta mas tanta tanta cena, enfim, acho que é a vertigem de um bom desejo, aquele desejo que não sabemos o que trará, mas que nos puxa de forma inevitável para ele, e os dias têm de ser rotineiros e trabalhosos, e tudo bem, e a vertigem aqui fica, até ao dia em que nos toma por completo, em que pode tomar-nos por completo e deixar-nos ir, a queimar com ela pelo que vem, sem qualquer expectativa ou garantia que não um sorriso e um sim, sim, vamos a isso, sim, e eu sei que pedi pela tua crutch e sempre que precisares pede pela minha, podes fazê-lo mesmo que nunca queiras ou o faças, porque c’est la vie, n’est-ce pas, mas olha, não é isso agora que importa, o que importa é dizer que: estou, pela não-sei-quagésima vez around, a sentir uma vertigem boa, decisiva e livre, e mal posso esperar para a viver, para que possa deixar a camisa de hoje e por a de amanhã, para pegar no chapéu do meu Pai e poder fazer-me à onda, entregar-me à mesma, ao movimento do tempo e dos dias que decidi e vivê-los, a todos os que vejo no horizonte, americanos e lusitanos, com o que tenha de ser. Mas agora é pés no chão, acabar o café, abrir o documento e escrever, de volta ao trabalho. L’aventure commence (soon, soon). Até já.

Morning coffee

“Hi

there. I hope you don’t mind me

writing, but a funny thing just

happened. I saw

you, at the

school, walking through the

corridor. I think you were going to a

class. There you

were, in the

corridor, jeans and white

shoes, white shirt and a white tote

bag. It reminded me of

Rome, of how every girl I saw in Rome looked just like

you. I found it very

funny. She / you entered a

room, while I stayed in the

hall,

looking, and sipping the rest of my morning

coffee. I don’t know if she / you heard me

looking, but I guess

not. Most likely

not. You

know, the other day I went to the

bookstore, and shuffled through the

shelves, saw the

titles, new and old

and,

suddenly, I realized that the store smelled a lot like fresh-made roasted

coffee. Maybe that is the reason why I like it so

much. And it made me think about that picture you posted on the

20th, of the two coffee

cups. I wonder if that was a

message, a sign of

remembrance, or just some random picture of a tv show we used to talk about a

lot, and in which people drink a hell lot of

coffee, and that you felt like posting on the 20th for no apparent

reason. I’m pretty sure it was probably the

latter. I imagine you are

happy. I always think other people are

happy. If they are not

happy, they show

it. Or they just remain

quiet, but not in a typical

way. In any

case, I can never

guess. I think that you are

happy. I have no reason to think

otherwise. And that’s

good. To be

honest, I sometimes think about

you, but not so

much. I dream a

lot, and I have dreamt too much in these past couple of

weeks. Don’t ask me

why. I don’t know

why. It just

happens: I close my eyes and then I open

them, and it’s somewhere between 5:30 and

6, and I can recall the

dream, and the people in the

dream, and the events in the

dream, and I’m lying in

bed, and I’m still

sleepy, and I’m pretty sure that I’m not going to fall back

asleep. And I don’t think about the dreams nor their

meaning. I know where they come

from, and I understand why they

come. And I actually prefer that they remain like

this, like dreams that come at

night, as opposed to dreams that come during the

day. Does it make

sense? Maybe it doesn’t have

to.

Anyhow, I don’t know if I’ll see you in my dreams

tonight. You or an image of someone just like

you, but not

you, walking through the school

corridors, or some European ancient

city, with white white white tote bags and

etc. In the

meantime, the sun is shining

outside, and it is warmer than

usual, like if it was

summer. And I’m still drinking my morning

coffee, and I have to go and have

lunch.”

Russel Brakefield, “Field Recordings”, Wayne State University Press, 2018

Primavera in da Arbor

A andar pela rua com os teus únicos óculos escuros, abrindo o casaco para deixar aquela camisola amarela apanhar algum ar e, assim, tentares de forma desajeitada mostrar o teu swag. A mirar os jardins, os bocados de neve que ainda ficaram da noite passada, os estudantes em fase de exames, e os locals das lojas que já te reconhecem e mandam aquele aceno que retribuis, e com mucho gusto. A passear, podes dizer isso, de édefones na mona a despejar sons aleatórios como gostas, por vezes, quando te dá para sair para apanhar sol. E, por fim, a passar de um lado para o outro em Main St., a dançar (anca, rodopio, ombros, pés) com as tuas melhores (e, já agora, únicas) calças de fato-treino, como se, apesar do frio que se sente no ar, e da projecção de neve para os próximos dias (eu sei que sometimes it snows in April, mas tipo, a sério?) bastasse apenas o sol que está agora no céu, a rua fechada, a cidade domingueira, uma boa canção dos Strokes e o facto de ser Abril para sentires que sim, que a Primavera está aqui, de alguma forma, e que vale a pena vivê-la como deve ser. Siga.

Sobre uma pequena road trip

Ele perguntou-me se queria um jipe. Perguntei-lhe se era mais caro. Ele disse que não. Então disse-lhe que sim, que “of course I wanted a jeep”. E assim foi. Deu-me um Patriot cinzento, com matrícula da Flórida. Só reparei a meio, numa paragem numa estação de repouso na Pensilvânia para fotografar as árvores. Vieram-me à cabeça as “counterfeit Florida plates” que os Mountain Goats cantam em juventude transcendental, o disco. Para ser sincero, não sei se foi juventude o que senti quando me lancei pela estrada desta forma, com o sol ausente nos céus brancos do Michigan, para seguir entre as planíssimas planícies do Ohio que se estendem por uma eternidade arrepiante, e que presumo serem carregadas de silêncio (no regresso, em modo poético, pensei como o [Oh]io deve ser um longo suspiro, e ainda mais de noite). Não, não sei o que é que senti quando ouvi clássicos da minha juventude na rádio e procurei fazer o devido acompanhamento vocal, filmando até para uma efémera posterioridade — filmei uma viagem; como não tinha pensado nisto antes, que as melhores stories são necessariamente viagens? — com um café na mão numa curta paragem de reabastecimento alimentar. Ouvi muitas rádios, rádios cristãs (porra), rádios country (duplo porra) e rádios de anúncios. E quando me fartava desligava e ficava só com o motor e o vento e a estrada. E não sei — é mais isso, na realidade — nomear o que sentia aí, quando guiava por estradas pequenas, e passava small town atrás de small town no interior do norte do estado de Nova Iorque, casas brancas que parecem pré-fabricadas e frágeis, perdidas no meio de campos e montes e serras, com alguma neve e muitas garagens com outros jipes e muitas Igrejas. Vi árvores, também, completamente despidas, mas em menor quantidade do que na Pensilvânia, e sem o púrpura da Pensilvânia. E vi as cataratas, famosas, e o Canadá ao fundo. Já tinha chorado no dia anterior cataratas de risos com o humor inteligente e acutilante de Jerry Seinfeld, numa outra small town, Wiles-Barre, Pê-Á. Não sei nomear o que senti nessas small towns. Ao contrário de John Mellencamp que as canta de forma sentida, eu não sou de uma small town. E talvez por isso estas pequenas e simples realidades me fascinem. Como se estivessem mais perto de um coração selvagem que quero conhecer. Ou então não, não sei.  Sei que o céu na interstate 90 — onde, na saída 57a, vi uma placa que dizia “Angola / Eden” — abria e fechava e eu continuava a sentir, mas sem nomear, e continuava a conduzir, e a contar pequenas histórias nas paragens que fazia através de uma aplicação, histórias que registavam o momento e que sabia que depois iriam desaparecer, como um filme que vês uma vez e depois zum, nunca mais, jamais. Vi, passei e senti quilómetros, compostos por imagens e pensamentos e céus e carros e pessoas e emoções e, sei lá o que mais. Diners sérvios em Akron, Ó-Agá, com posters de atrações croatas com a legenda a indicar Jugoslávia? Diners de filme em Scranton Pê-Á, com pequenos-almoços com mais calorias e colesterol que o meu dia? Ou mensagens bonitas, de amigas e amigos, ou paisagens abertas, de serras e montes e árvores e rios e cataratas e lagos e planícies e quintas? Não sei, não sei mesmo. Senti, sei que sim, e quando cheguei a casa li um poema do meu novo poeta preferido, Russell Brakefield, que me dizia a dado momento “Know youth is finite”. Será? Ele — o senhor da empresa que me alugou o carro — perguntou-me se eu queria um jipe e a minha vontade, confesso, é dizer-lhe quando entregar o carro que o que quero mesmo é este jipe, sólido e fiável, e que quero embrulhá-lo e levá-lo comigo, para onde for, porque às vezes acho que o que sinto é que só preciso de uma casa, de um carro, de pessoas, de livros, de filmes, de canções e de uma estrada para viver — o wide open country world in my eyes que Bruce Springsteen canta em No Surrender. O resto, comes with the job. Ou pelo menos é o que dizem. Acho eu. Só conduzo, e escrevo, e rio-me, e aparvalho, e viajo. Só vivo. E como gosto disso.

Morrer e voltar em Chicago – um relato de fim de semana

Se um dia quiserem morrer, recomendo vivamente que o vão fazer a Chicago. É um sítio muito agradável para o efeito, na minha opinião. Tem um estilo, figura e presença muito elegantes, com prédios altos de todos os feitios, com muito vidro, betão e aço. Very American, you see? Porque em Chicago estamos na capital do centro-oeste, e o centro-oeste e a sua malta são mesmo American-boa-onda. Como me disse um barman: “no este eles são presunçosos, e no oeste são somente estranhos”. Aqui são só fixes. A cidade é fixe, a comida é fixe, os museus são fixes. A cerveja é boa e anda-se bem e deve-se andar muito. Há bairros muito cool fora do centro, e tão ou mais América que o centro — ora small town style, como eu adoro; ora latino-américa, como eu não posso deixar de adorar. E acho que é uma opinião consensual esta, de que Chicago é uma bela cena, ou seja, acho que não é só uma ideia minha, de um solitário turista lusitano que vem morrer durante o fim-de-semana. Ná, perguntem a malta como o Ira Kaplan (por acaso, podia ter perguntado isso ao Ira Kaplan nos dois dedos de conversa que tivemos depois do show) que, juntamente com a Georgia Hubley e o James McNew pegou em mais dois amigos e tocaram uma versão arrasadora de não-sei-quantos-minutos-porque-quando-a-tua-banda-preferida-toca-a-tua-música-preferida-quem-é-que-no-seu-perfeito-juízo-está-preocupado-em-contar-a-porra-dos-minutos para fechar um belo gig e ainda voltou para saltar como um punk de quinze anos enquanto cantava que era um “prisioneiro do rock n’roll” (quem nunca?). Portanto, acho que isto é mesmo uma cena do Midwest, esta alegria genuína e esta confiança estilosa e amiga, este relax matreiro. Há profundidade, atente-se: as ruas dão-me isso através de um disco que é o disco que captura a cidade, e que é o Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco (é a imagem da capa que influencia ou é a cidade que influencia a imagem da capa? Meninos, sintam apenas e não compliquem as coisas). Porque quer ande por Wabash ou Jackson ou Michigan ou North Milwaukee sinto-me isto: um American (um pouco menos aquarium drinker) que vai e segue assassin pela avenida. Quase que esta vibe me consegue transformar e converter num local. Comprar um cap dos Cubs, ir all the way americana, com uma camisa de flanela e mais um par de vans para a coleção. Mas eu sei que não sou daqui, e Moe Wagner, Jordan Poole e companhia fazem questão de me relembrar isso enquanto partem o couro aos jesuítas do Loyola College e me fazem temer pela vida (já morto e ainda a temer pela vida, can you dig it?) enquanto celebro cada ponto da final four num bar em zona inaciana — e que pela primeira vez na vida, e só hoje, é zona inimiga. A verdade é essa: posso gostar de ir ouvir os blues, de dar voltas no loop, de ir ao museu e meet the Hopper e os Pollocks e os Picassos e Matisses e Mirós e (bocejo…), de virar margaritas em Wicker Park, de explicar o que é o futebol — “conceito, ciência e arte” foi o título da minha apresentação improvisada com duas IPAS à frente — a um porto-riquenho tatuadão e de fazer amigos em lojas de discos que me vendem vinis de artistas electro-locais da boa. Mas sei que sou só um turista, um lisboeta chill, com o meu casaco de neve escuro e a minha camisola amarela, o cachecol tricotado pela mamã, uma pelugem facial e capilar considerável (pequeno fun-facto: reparei noutro dia ao espelho que estou com cerca de vinte e um cabelos e pêlos brancos and counting), umas calças de ganga e umas boas botas castanhas, com as mãos nos bolsos, uma cruz no coração, um mapinha no bolso e uma caneta na cabeça. Pelo menos foi assim que me vi reflectido naquele feijão turístico que existe no meio de Millenium Park. E reflectido ou não sei que posso “ter algumas reservas” sobre o mundo em geral e a vida em particular, mas not about you, not about you. Não, não sobre ti: como clarifica o Frankie Ocean na viagem de comboio de regresso, sob um glorioso sol de ressurreição: “I care for you still and I will (forever) / that was my part of the deal / honest, we got so familiar“. G’andas tempos, White Ferrari. E pronto, assim foi. Resumidamente, para aqueles que entraram agora na sala e viram o título: apanhei um comboio numa madrugada escura e nublada, com alguma chuva (podia dizer-se: uma chubita) e fiz quatro horas até Chicago para morrer, e em Chicago morri, e confesso que num sentido literal até estive perto disso por três vezes, graças a [a] um abusivo número de quilómetros percorridos; [b] YLT (<3) a partirem a loiça e todas as outras shits que existem no mundo; e [c] uma gulosa e claramente irresponsável tentativa de comer uma pequena (quatro fatias) deep dish pizza (esta última fez-me suspeitar que não ia sair do túmulo com Cristo; ele podia sair, mas o meu estômago ainda precisava de um quarto dia para voltar), mas no final voltei e estou vivo e saí domingo de madrugada com o céu limpo e o sol a nascer sobre o lago Michigan — eu sei, eu sei, é um clichê chegar do Michigan com chuva e partir para o Michigan com sol e acordar e sair do hostel e ver o sol a levantar-se por cima do lago Michigan… mas se foi um facto, qual é o stress, peeps? — e agora estou em casa. E ainda tenho mais dois mesinhos (uh-uh!) de América (o quê, ainda não leram?!) pela frente. Como acreditam os Hassidim, “Everything will be as it is now, just a little different”. Siga varrer o que resta?