10. Palmeira

Quanto mais me aproximo, mais ela diminui. Vista da sala, parece uma daquelas imagens de noticiário, captadas num país tropical assolado por tempestades, com os ramos e o tronco a baloiçarem no meio de céu cinzento muito baço. Mas quando chego perto da janela, a palmeira é apenas um objeto perdido no vento, no meio dos telhados e tectos e janelas e terraços. Nada de supremo ou espacial, apenas uma querida ilusão confinada à minha manhã.

9. Políticas

O governo está em modo gestão da pandemia, gestão de danos e gestão de desgaste, sem qualquer plano que não de curto-médio prazo (e mesmo esses são muito atabalhoados). Os partidos tradicionais do centro direita estão sem liderança (é incrível a nulidade que é a direção do CDS), sem ideias, e no caso do maior partido dessa ala política, a abrir a porta a um jogo de poder cuja táctica é para lá de perigosa. A Iniciativa Liberal continuará a crescer na justa proporção que o PSD e o CDS continuarem a descer, mas precisa de mais do que uma comunicação divertida e gente bem intencionada. O Bloco de Esquerda é e será apenas oposição, enquanto que o PCP se manterá no seu reduto enquanto prepara afincadamente o combate das autárquicas (onde se joga cada vez mais, e mais do que no Parlamento, o futuro do seu peso e relevância políticos). Quanto ao Chega, vai continuar a subir em detrimento da direita centrista, e a única coisa que pode impedir a catástrofe que seria Ventura tornar-se essencial para a formação de governo ou de oposição é uma mudança de paradigma no PSD e no CDS, que só pode vir com a substituição dos atuais líderes por pessoas que representem e lutem por verdadeiras alternativas democráticas, cívicas, constitucionais, visionárias e transformadoras no espectro político corrente. Sem essa alternativa, estamos em terreno minado. Marcelo foi reeleito, declarou-se atento à situação, e pareceu declarar que ia ser mais interventivo neste segundo mandato. Trabalho não lhe vai faltar (nem a nós, já agora; nem a nós).

8. Colagens: a letra cê

Constituição. Caos. Carlos. Colagens. Corrida. Carmo – ok, largo do, estiquei-me com essa, admito. Mas, nos títulos, tem estado sempre a letra cê. Não fiz de propósito, fui deixando aparecer. Disseram-me: cê devido ao big cê da verdade, Carol. Sempre, Carol para sempre. Cê de Covid? Vamos falar de outra coisa. Cê de cabidela. Estava tão boa… Cê de cinema – o método, forma, quadro com que encaro a realidade? O que é vida ou deixa de ser? A palavra política também tem a letra cê, mas no fim, antes da letra à. Hoje é dia de reflexão, por isso não vou desenvolver nenhuma ideia ou pensamento, deixo isso para segunda-feira. Está um bom dia para reflectir: chuva forte, café demasiado passado, papas de aveia sem mel suficiente. Dia vinte e três de janeiro e tanta coisa que parece que já aconteceu: o tempo foi pela janela desde que a pandemia chegou. Só o clima é que nos vai dando uma noção mais concreta e definida de espaço. Ontem comecei a fazer uma canção, e a aprender a misturar canções com um guia que descobri na internet. Há uma palavra ótima no meio de tanta terminologia técnica: chama-se equalização. Mexer com frequências, atribuir “claridade” e “profundidade” ao som. É uma aventura, moldar a irrealidade. Passei para uma fase descritiva da tese, antes de voltar ao analítico. Estou a gostar muito do livro Gelo da Anna Kavan, que me lança em caminhos diferentes a cada parágrafo, onde “a realidade é qualquer coisa cuja quantidade é desconhecida”. Passou-se uma semana, que pareceu imenso. Não faço a mínima ideia de qual será a letra da próxima, ou se haverá sequer uma letra. A (ir)realidade está dura, e vai continuar assim; que tenhamos força para a receber, viver e enfrentar. Agora, vou voltar a ler, a aprender, e a misturar.

7. Corrida semanal

Esta semana corri quinze quilómetros. Percurso habitual. Primeiro dia com duas camisolas devido ao frio, segundo dia arrependido de ter mantido as duas camisolas, terceiro dia só com uma camisola e arrependido de não estar só de t-shirt. Calçada húmida, algum vento junto à margem, e a conseguir evitar poças de água aqui e ali. Passo médio foi de seis minutos por quilómetro, acusando o peso e a falta de forma (e alguma impressão nos gémeos). Resultados imediatos: sede, apetite, e quebra pós-almoço mais acentuada. Imagem que fica: no Rossio, um homem muito elegante com uma barba parecida à do Charlton Heston no filme Os Doze Mandamentos; vestia um fato azul com uma gravata rosa, e andava pela rua com um ar espantado, surpreendido. A lista musical incluiu (em shuffle):

1- Wilco, “I’m Always in Love”

2- Thin Lizzy, “The Boys are Back in Town”

3- Veenho, “Meio Ausente”

4- Glockenwise, “Dia Feliz”

5- Drake feat. Lil Durk, “Laugh Now, Cry Later”

6- Grandaddy, “The Crystal Lake”

7- New Pagans, “Christian Boys”

8- Weezer, “All My Favorite Songs”

9- The Kinks, “All Day and All of the Night”

10- King Krule, “Dum Surfer”

Podem ouvir aqui. Bom fim-de-semana.

6. Carmo (largo do)

Faltavam ovos, fui comprar. No caminho encontrei uma senhora à janela a falar altíssimo, como se a rua fosse a sua sala de estar. No Largo do Carmo estava um senhor com um saco de roupa por lavar em cima da mini-roulote da Leitaria do Carmo. Reparei que não havia guardas na entrada do quartel. Não havia, de facto, muita gente na rua. Desci para o Rossio. O café da esquina que ainda estava aberto na segunda-feira, quando fui correr, fechou. Olhei para o lado, e numa transição de cenário narrativo à la Anna Kavan (o meu livro, já agora, é o Gelo, recomendação muito acertada do “braço” na Brotéria da livraria Snob) é de noite, um dia posterior e chove um pouco; já temos ovos, vou comprar peixe. Está um casal junto à a janela da estação do Rossio, duas sombras escuras contra a luz interior da paragem. Ele afasta-se, ela aproxima-se; depois trocam de movimento, mas nunca se encontram. Continuam nisto quando volto, com dois robalos no saco isotérmico. Fico a vê-los um pouco, até se juntarem e entrarem na estação. Oiço uma grande canção da Lande Hekt enquanto subo as escadas. Mais tarde emociono-me com o final do Gambito de Dama (boa série, sólida), quando (spoiler alert) os russos que jogam na rua reconhecem Liz Harmon. Não me perguntem porquê, achei bonito. Sou uma pessoa sensível. Não sei se alguma vez vos tinha dito isso.

5. Caos (calmo?)

Caos calmo é o nome de um livro de Sandro Veronesi que deu depois origem a um filme de Antonello Grimaldi. Nunca li o primeiro, nem vi o segundo, mas adoro o título: a mescla fonética e a contradição simbólica das palavras. Está a ser o título desta semana. Em casa, tudo calmo – tese, testes, Carol, Gambito de Dama (acabamos hoje). Comecei a ler o meu livro, devo acabá-lo até sexta-feira. Lá fora, bem, chuva, casos a subir, hospitais a rebentar, escolas quase a fechar, comunicações contraditórias (outro duo tramado de palavras) e incerteza social geral. Caos, portanto, ou qualquer coisa perto disso. Há boas notícias: as presidenciais estão quase aí, Trump está fora, há um novo som de Hand Habits a circular e, graças a uma prenda da madre, consegui fazer o impensável: arroz de cabidela em Lisboa. Não é a mesma coisa, mas no meio de tudo isto soube muito bem. Muito, muito bem.

3. Constituição

Não há dificuldade que venha sem que alguém levante a constituição. Sendo “o campo de batalha” jurídico entre o político e o social, é nos momentos de tensão destes últimos que o seu significado – e, consequentemente, o seu valor e força – procura vir ao de cima, invocado por quem busca uma resposta do poder político ou uma justificação para o exercício do mesmo, ou apenas uma forma de sobreviver (como o restaurante em Lisboa que invocou o direito de resistência para se manter aberto). Juntem uma crise a uma campanha eleitoral para a presidência da República (o órgão de soberania mais complexo do nosso sistema político) e não nos faltarão, dia sim dia sim, apelos “constitucionais” de sentido dissonantes na praça pública. Tanto vemos apelos em defesa da constituição, clamando por uma manutenção de um determinado status quo ou pela concretização de um estado de coisas que nunca foi implementado ou que ainda está por vir, como há apelos contra a constituição, pedindo a sua maior ou menor revisão. Esta batalha pela constituição é, no fundo, a batalha por um projeto de uma coexistência política que se quer permanente, livre, justa e próspera, e não começa nem acaba com o texto, mas vai para lá dele, guiando-se pelas premissas e promessas que se estabeleceram na altura da redação, relacionando-se com as mesmas e com as forças e dinâmicas, mais uma vez, políticas e sociais, que o futuro vai transformando em presente, sedimentando, através do passado, uma carga de significados, confusos e complexos, que em conjunto se agregam ao que chamamos de constituição e lhe vão acrescentando alma. Uma discussão sobre a constituição nunca é sobre o texto, mas sim sobre o país (regime e sociedade) que fomos, somos e que queremos ser – sobre o que foi e o que é, sobre o desejo e o sonho (e o medo) do que pode vir a ser. É importante, nesta época de dificuldades e afetação extrema de vidas, empregos, empreendimentos, presentes e futuros, com forças extremistas a crescer no campo político e tentativas de pôr em causa uma ordem de valores necessária a uma vivência liberal (aqui não no sentido de “facção” à la Iniciativa Liberal, mas com o significado de “base” existencial da sociedade democrática – nas palavras do Francisco Mendes da Silva, o próprio “recinto do jogo político”), pensarmos e agirmos sobre a sociedade que queremos e pela qual queremos lutar; em suma, sobre quais os nossos princípios, que é o mesmo que dizer sobre qual a nossa constituição. Que tenhamos isso em mente todos os dias, sobretudo no domingo que aí vem.

2. Colagens (tentativa)

Em La Jetée de Chris Marker há uma voz e várias imagens. As imagens, fixas e paradas, coladas em sequência, com a justaposição da voz do narrador, que nos conta uma história. A soma acaba por criar todo um movimento que parece mais vivo que muitos filmes. A ideia a tornar-se vida, o intelecto a tornar-se corpo, o sentimento… e a inocência (a realidade?) de tudo isso. O cinema – como La Jetée, e muitos outros – é um exercício de colagens. Imagens, cores, sons, palavras, movimentos. Ando a escrever uma tese, que é uma colagem de ideias, factos, argumentos, propostas. Tal como uma canção é uma colagem de acordes, letras, sentimentos, políticas e um livro… Não me vou esticar. Mas resolvi, esta semana, jogar um jogo, colecionando fotogramas para depois fazer um pequeno filme. Segui enquadramentos, procurei cores, pensei em momentos e histórias, em personagens, caminhos, dúvidas. Depois fiz uma música, leve, ambiental; organizei tudo, na manhã de sábado depois de ler uma entrevista ao Presidente da República e um artigo de opinião do Francisco Mendes da Silva sobre o liberalismo como condição base do nosso sistema político. Saiu isto. Um esboço, um ensaio, uma tentativa – mas de quê? Não me perguntem muito mais, talvez só consiga responder daqui a algum tempo. Agora está um dia lindo de sol, terrível ironia para o primeiro fim de semana de recolhimento domiciliário obrigatório deste ano. Ainda não comecei a ler o meu livro.

1. Colagens

Estava a pensar na forma como a arte consegue dialogar com o poder, ao ouvir o Miguel Januário falar sobre as suas aventuras na Brotéria. Depois comi um burrito e ouvi um reggaeton no bar do Résus (é Jesus, mas em castelhano) enquanto assistia às últimas notícias da campanha eleitoral num ecrã que tem o meu tamanho. Alguém já deve ter dito isto, mas o Tiago Mayan é parecido com o Adam Driver, não é? Entrei a fundo nas eleições na semana passada, ando a pensar nisso nestes tempos. Há um som que toca e que me fica na cabeça – o Montenegras diz que estes sons são todos iguais, e tem razão, mas este é bom, ou pelo menos parece bom, aqui no bar do Résus, poucas horas antes de entrar em vigor o novo dever de recolhimento domiciliário. Por falar em música em castelhano: encontrei um irmão do Sarmento, que está aqui comigo e que é o grande culpado de estarmos no Résus, quando fiz o caminho de Santiago. Estávamos num albergue para peregrinos em Caldas de Reis, hospedados por José “el Peregrino” (googlem o homem, vale a pena) e o Nuno mostrou-me um vídeo da Rosalía a cantar São João da Cruz (belíssimo poema – “mesmo que seja de noite”). Voltei a ouvir a canção hoje de manhã, depois de falar com Miguel e Bogdan sobre o isolamento da fachada, e de ler a entrevista de Don De Lillo ao Público (e algumas páginas de um texto muito semelhante nos temas, de Georges Didi-Huberman, num livro que tinha na estante). Comecei a ler o Americana no outro dia, durei algumas páginas. Hoje vou começar a ler um livro, talvez consiga ler mais durante este recolhimento. Apetece-me, como sempre, fazer alguma coisa neste tempo – escrever, tocar, filmar. Apetece-me, por exemplo, fazer colagens. Colagens?

Regresso à pista

Isto não é um documentário, diz Mekas a dado momento, mas é de certeza um documento, e o que é um documento? Uma declaração, um marco, um registo, um artefacto? Será um mito, ou um monumento? No filme de Marker o documento é a história, pequenos fotogramas de pessoas que partilham uma história, que é o mesmo dizer que partilham uma vida, um sonho, e uma morte. A dado momento, Mekas está com Lennon, Jackie, Ono, Warhol, Ginsberg, todos mortos e todos vivos, todos num sonho que é o documento – ou o documento é que nos leva ao sonho? Gosto muito quando a cara dele aparece em Scenes From the Life of Andy Warhol, o autor que fez (fazer de produzir, não de montar e juntar: de criar) um documento de memórias e sentimentos, de lugares e luzes, de tempos e contratempos. Ao contrário de Mekas, Marker nunca aparece, mas está presente em tudo, em todas as caras e palavras de La Jetée, cada grão do corpo de Davos Hanich ou da cara de Hélène Chatelain. A imagem como romance, como poema, como regresso, e como marca e invólucro linguístico de uma comunidade transcendente. E assim, inesperadamente (como em qualquer momento de revelação) volto à pista do cinema, neste início de ano frio e solarengo.

Entrada capital

Primeira semana do ano e sinto que o mundo, com os seus factos e artimanhas, já acelerou para uma velocidade absurda. São tantas as ideias, os casos, as imagens – e o frio, o vento. Estou em casa, temos uma nova fotografia na sala e alguns aquecimentos; uma série que já nos pegou (gosto muito dos actores do Gambito, da forma como representam com o olhar) e algumas canções boas para ouvir em shuffle, num passeio de recolha. Tipo esta:

Notas torcidas

Tenho reparado muito no céu, de manhã e à noite. De manhã, o céu está branco de um lado, cortado por nuvens no meio, e ainda laranja no outro. De noite, as nuvens que estão em cima do céu escuro parecem estar a ser puxadas por uma corda invisível. Dou a volta ao tronco para a esquerda enquanto lavo a loiça e sinto-me a torcer por baixo do braço; nunca tinha sentido esta parte de gordura na vida, nem sabia que ela existia, o que me deixa curioso e inquieto ao mesmo tempo. Fui correr à tarde, estava sol – continua a estar frio. Odeio estes janeiros lisboetas, e odeio estes tempos de início de ano sem discos novos para ouvir. Um dos tipos que está a trabalhar no telhado cá de casa tem (reparei hoje, a meio de uma nota de rodapé sobre Jelinek) uma voz igual ao Arnaldo Antunes, profundamente anasalada, como se o nariz estivesse na garganta. Depois do almoço eles tiveram de descer ao terraço e tiraram fotografias, fizeram poses. Fazem umas pinturas muito engraçadas nas paredes, para isolar o prédio das chuvas, enquanto estão pendurados por cordas, como se fossem alpinistas. Tenho medo das alturas. No episódio dois do Gambito de Dama começa-se a perceber o medo da protagonista, de estar a jogar perante alguém mais confiante e não saber como reagir no tabuleiro. Estou a gostar da série; sem ser espetacular é bastante sólida. No Domingo vimos uma parte das Praias de Agnès, de cuja primeira metade eu não me lembrava nada, e fiquei com vontade de ver filmes. Continuo sem grande vontade de ler, mas depois lembro-me que isto é apenas o início. Agora vou correr outra vez.

Palavras, silêncios

Sabes, acredito que não seja fácil. Neste momento, pelo menos. Talvez daqui a uns meses, ou anos, seja melhor: talvez aí possamos sentarmo-nos nalguma cadeira ou sofá, dentro de uma casa e ter consciência de tudo o que foi este ano. Ontem estávamos em casa, no meio de uma temperatura para lá de siberiana, a ver fotografias que tirámos desde janeiro até hoje. Em retrospetiva tudo parece muito (demasiado) e muito cheio. As imagens falam de forma silenciosa mas forte, conseguindo com as suas cores, formas e retratos catapultarmo-nos imediatamente para um lugar, um sentimento, uma pessoa, ou uma família. Tenho a certeza de que se tivesse pegado nos livros de Rachel Cusk, Nathanael West, Richard Brautigan, Hannah Arendt e Rui Manuel Amaral teria acontecido o mesmo, ou praticamente o mesmo. Cansei-me muito durante este ano, e internamente ressenti-me. Não é fácil não saber falar para dentro, tendo muitas vezes de escrever para fora para me começar a aperceber do que se vai passando “no banco de trás do carro” enquanto caminho, cozinho ou adormeço. Contei-te, no início do ano passado, sobre palavras e explosões, sobre como tinha de me cingir aos factos para me agarrar a qualquer coisa segura, e de como muitas vezes os factos se tornam algo mais, verdadeiros movimentos perpétuos de ideias e mundos, e eu tinha de ficar onde estava, na linha entre a realidade, a razão e a emoção, para perceber a verdade. A magia das coisas é inigualável. Sonhei imenso este ano, com explosões e passeios e mortes e o mar e o amor; depois acordava e ia dar aulas ou sentava-me a ler ou a escrever o meu primeiro calhamaço académico. A Bitcoin passou os vinte mil euros e eu passei os oitenta quilos porque correr, que sempre me fez bem, já não era possível, o ritmo existencial tornava-se cada vez mais absorvente e total, como as máscaras que agora servem de nosso hábito necessário, mesmo dentro de casa. Não é, de todo, fácil parar para pensar ou falar sobre o que foi. Mas há uma coisa que tenho de te dizer, sob pena de parecer que não estive aqui – estive sempre, mesmo que apagado ou escondido – que é a seguinte. No dia doze de março a faculdade fechou e a Carol veio cá para casa. Passaram-se nove meses; a casa já não é a mesma, e nós também não. Não nos casámos, deixámos isso para o verão deste ano que vem, seguindo a numerologia corrente e tornando este ano no zero de vida partilhada e no próximo o primeiro de casados (e o último – bate três vezes na madeira – de tese). Crescer é complicado, sobretudo a dois, quando as rotinas e os hábitos e os desejos e as séries entram em jogo conjunto e recíproco. Mas um dia estava na praia, na Aberta Nova, e fui andando a pé, a Carol ao fundo, muitos passos à frente; depois parou, esperando por este amontoado beto lisboeta composto por intelectualismos políticos, realismo jurídico e cultura pop que se arrastava, e eu vi aquela cara e pela vez número oitenta e sete mil duzentos e quarenta e nove desmanchei-me, tal e qual como num carro parado no parque de estacionamento de um Intermaché em Ponte de Lima, sabendo que a vida é difícil, que “tudo passa, tudo passa, só não passa a Graça”, e a Graça, ao contrário do que dizem, é um lugar comum, onde uma pessoa pode ser noutra, e pode ser mais por ser por outra, tornando-se qualquer coisa maior e única com esta, em conjunto. Tinha de te dizer isto (já te tinha dito isto), porque quando olharmos para o ano de dois mil e vinte vamos lembrar-nos por certo de muitas coisas, do Cucavida e do título do Liverpool, do Brexit e do Biden, de guardar peixe dentro do frigorífico de uma autocaravana e de ir nadar no mar às oito da manhã, de este ter sido o penúltimo ano do blog chamado Álbum (hein?! o quê?!) e de ter descoberto as cascatas do Gerês. Mas gostava que não te esquecesses nunca, de que dois mil e vinte foi o ano em que este tonto bem intencionado e completamente desajeitado cresceu, e de uma forma estúpida e inacreditável, no amor. E o amor não é um instante nem um momento, mas um fortíssimo abraço incessante, que abre e potencia o melhor que todos nós temos. As minhas felicidades para vinte vinte e um, ano em que conto estarmos novamente próximos, perseverantes e exigentes, no humor que este mundo caótico nos pede para ter, dia a dia, cara a cara, força a força. Bom ano.

A noite mais longa de George Smiley

Sempre que penso em John Le Carré vem-me à cabeça a imagem de George Smiley, o príncipe de todos os espiões que o falecido autor inglês projetou. Nessa imagem – que nasceu de uma leitura apaixonada do romance Tinker, Tailor, Soldier, Spy durante umas férias na Indonésia – Smiley está num quarto, numa casa fora de Londres, e creio que está a jantar ou a instalar-se, e de repente passam-lhe tantas coisas pela cabeça, sobre o antigo chefe que ele enterrou e sobre a mulher que perdeu e sobre o rival que o seduz. Há muitos plots e sub-plots na narrativa, muitos espaços onde personagens se perseguem, literal e metaforicamente, escritos com uma precisão e rigor belíssimos. Mas é essa imagem que me fica, o quadro de um homem sério e profissional num momento de dúvida, lutando contra as suas desilusões e frustrações, sabendo que só quando as ultrapassar é que vai chegar ao fim do combate. Não é qualquer romancista que nos consegue apresentar, de forma tão clara e profunda, o remoinho que nos surge em momentos de pausa e isolamento. Farewell John: o “espião” da literatura que sempre nos aqueceu a alma.

20 Canções para 2020

I’m New Here (Gil Scott-Heron e Makaya McCraven) – Olá. Sou novo aqui, sou novo nisto. Nisto de montar uma casa, que é o mesmo que dizer, nisto de viver numa casa, num espaço permanente e contínuo. Estudo o Estado, que é um espaço permanente de co-existência, mas talvez a primeira unidade política deva ser a casa, com as suas janelas e paredes e chãos e tetos. Gosto de estar, e gosto de estar em casa, que é uma forma boa de viver, de crescer. Às vezes ouço umas canções, elas ajudam-me a estar, a perceber que sou parte integrante de algo que me ultrapassa em realidade e potência. Faz-me feliz, a casa, e tudo o que nela se encontra.

Bad Decisions (The Strokes) – Todos nós já estivemos aqui. Jovens, inocentes, desesperados por aquilo que julgávamos ser amor, mas que na realidade era apenas uma sede de qualquer coisa inominável que nos fazia sentir vivos, reais, decisivos. Sem saber bem como, estávamos já a montar a casa, ou pelo menos à sua procura, tomando as decisões que julgávamos certas ou, no mínimo, menos falhadas. No caso do meu próprio combate político, peguei numas guitarras e numa voz blasé e numas letras desorientadas sobre coisas que são difíceis de explicar, e deixei-me conquistar por um estilo que nunca seria o meu, porque era demasiado bom, tanto que treze anos depois consegue ainda ser relevante, com um pouco mais de sabedoria, mas sempre muita desorientação. A casa o que é de casa.

The Steps (Haim) -Nunca fui a L.A.. Ainda não fui capaz de dar esse passo, de ir ao reino do oeste sentir o sol, conduzir por grandes avenidas, e sentir uma outra versão do plano. Vivo na capital do oeste do leste, num sítio que é tanto Europa como mundo, que é tanto mar como terra, tanta pedra como céu. Às vezes é difícil: difícil perceber o que é, o que há, o que se é e o que se tem. Mas outras vezes corro, vou correr – por cima de pedra, junto ao mar, sob o céu – e canto, abanando os dedos e abrindo os braços, com suor a cair por todo o lado, livre e total, e não percebo porque é que às vezes não me percebo, mas é como Wittgenstein podia ter dito, se em vez da linguagem tivesse olhado para a existência: sê, e faz favor de curtir esse som.

Kashmir (Filipe da Graça e João Gambino) – Soube muito bem ouvir o Filipe de novo, depois de tanto tempo londrino pelo meio, com cinco pequenas canções de de folque-roque com o amigo Gambino. Imediato, elegante, e aconchegante para chuchu.

Velodrome (2nd Grade) – O mundo complica-se, mas há quem se mantenha simples. Não é nada de segunda classe, o roque destes meninos: canções pequenas e simples mas com intenções claras, feitas só com refrões. Velodrome foi o grito de manifestação que abraçou o desconfinamento veranil – não soube tão bem? – quando o sol veio e pudemos voltar à luta.

Karen O (Sun June) – Eu estive em Brooklyn, sim, há muito tempo atrás. Não vi a Karen O, mas dormi num apartamento. De noite sonho, e nos meus sonhos vou a muitos sítios, mas nunca a apartamentos. Sou mais de hotéis, aeroportos, casas de praia, campos, e estradas. Nos meus sonhos é sempre de dia, ou há sempre luz, não sei bem: estou sempre a mexer-me, em movimento contínuo. Encontro imensa gente, gente tão diferente e tão nada-a-ver, e eventualmente acordo e nem sei bem de onde vim, e o que estou a fazer, e por isso acuso alguma lentidão e cansaço. Mas fico sempre feliz por saber que estou aqui, no teu apartamento, que soube voltar para o teu apartamento, no meio de todo o movimento.

Hungry Heart (Bruce Springsteen) – No último capítulo do romance que nunca vou escrever as personagens encontram-se todas num bar (na minha cabeça é o Roterdão, mas no romance não sei, pode ser uma versão do Roterdão). Encontravam-se pouco resolvidas, no início da história, e não é claro se estão mais ou menos resolvidas agora, no fim. O que é certo é que estão ali – algumas como espectros, outras como corpos, umas no passado e outras no futuro – e que estão todas livres, soltas e totais na pista de dança, sob as luzes vermelhas, no meio de tantas outras figuras, a cantar e a sorrir, porque todas têm um coração, todas têm um coração, todas querem dançar e dar a mão, e eu espero que não falte muito para que possamos todos voltar a fazer isso, porque faz falta, faz mesmo muita falta.

I Contain Multitudes (Bob Dylan) – O Bob Dylan entrou em dois mil e vinte para nos dar um dos maiores mic drops da história, e boy como soube bem ouvi-lo, oh se soube.

Tou na Moda (Conjunto Cuca Monga) – Foi o disco que mais ouvi e a que mais voltei neste ano. Nesta festa de e entre amigos é impossível não curtir o groove e as graças, os exotismos e as idiossincrasias, o talento e a diversão que por ali abundam. Talvez por isso seja difícil escolher uma canção entre muitas, mas talvez por isso é que escolho, sem razão, esta, com beijoca e passou-bem.

Retorno a Casa (Te Voy a Matar) – O Silas é o maior e deu-nos a banda sonora da rentrée, numa aventura cósmica de proporções bíblicas (pun not intended) com surpresas a cada canto. Adoro bons discos instrumentais, que mais do que serem bons para ocupar o espaço nos puxem para dentro, para as suas curvas e contracurvas e todas as provocações que daí advém.

Time (You and I) (Khruangbin) – O segredo de uma vida feliz está no refogado, na quantidade certa de tempo, azeite, cebola e alho que conseguimos misturar. Depois desta canção, nenhum refogado será o mesmo, garanto-vos.

There Must Be More Than Blood (Car Seat Headrest) – Interessam-me zero os sonhos de grandeza, prefiro antes uma boa malha que corte direto para o que interessa. Will Toledo talvez esteja mais preocupado na marca do que no conteúdo, a julgar pelo seu último disco, com a exceção deste grande som, em que mostra que sabe bem o que é jogar com os grandes e fazer um refrão que fique.

Desilusão (Primeira Dama) – Manelito, não sei se algum dia serás star, ou sequer super. Mas fizeste uma canção muito sentida e que bateu de maneira muito forte no ano deste rapaz que aqui te escreve, um rapaz que também adora os Strokes, e que também fica a arder no inverno. Não sei se era este o plano, mas olha, estás lá, estás mesmo lá.

Coinstar Song (Juiceboxxx) – A canção do ano, presente em todas as corridas, em todos os momentos de festa, em todas as vezes que era preciso abanar o capacete e sentir-me como um adolescente de dezassete anos a curtir a vida no quarto, como se estivesse standing in the middle of a punk rock show.

Tudo bem (Os Morangos Estão Lá) (Jorge Palma) – O Silas é o maior (outra vez) porque numa lista de canções que partilhou nas redes a dado momento tinha lá esta pérola. O registo é clássico Jorge Palma, a letra é de resignação e ironia, de despedida e de aceitação, e aquele riff de guitarra antes do verso – Mas tudo bem, – é só incrível.

Photograph (Nickelback) – Foi um ano difícil, percebem?

Brainwashed (Stephen Malkmus) – Houve uma altura, no confinamento, em que acordávamos e íamos para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Fazíamos café de cafeteira, papas de aveia, e comíamos alguns frutos vermelhos. Depois íamos para o sofá. O sol batia do outro lado da janela; à nossa frente, na televisão, estava a nossa imagem refletida. Naqueles quinze minutos em que estávamos sentados, antes de nos lançarmos aos afazeres de montar uma casa, uma rotina, uma vida a dois, sabia bem a calma, a luz, o acordar. Sabia mesmo, mesmo muito bem poder parar e olhar para a cara da Carol, para as doces bochechas da Carol, e sentir a alegria de viver esse dia (e os outros todos) com ela.

Ronaldo (Chico da Tina) – Não faço a mínima ideia se este tipo dura para lá do próximo disco, mas também não me interessa. Tem sons muito engraçados, e arriscaria dizer, sentidos. Este é completamente uma victory lap, um ponto alto indiscutível, que ainda não saiu da minha cabeça.

Serviço de Despertar (Benjamim) – Estou num uber a voltar para casa, e está a chover lá fora. O carro segue entre outros, não meto conversa com o condutor. Estou cansado, porque este ano trabalhei muito mais do que noutros anos. Aproveito a viagem para me desligar, para tentar sonhar com outra coisa que não o que tenho para fazer. Passo pela Praça de Espanha, e depois pelo Corte Inglês. As pessoas andam de máscara na rua, os restaurantes vão ter de fechar pelas dez e meia. Lembro-me da Brotéria, do bom que é almoçar ao sol na Brotéria. Agora é de noite, e o carro está a chegar. Subo as escadas do prédio e apetece-me, mal abro a porta, pegar na Carol e dançar ao som deste refrão lento, calmo e seguro com ela, antes de nos deixarmos estar a retomar a rotina deste primeiro ano a dois.

Ode to the Mets (The Strokes) – Todos nós já aqui estivemos. Trinta e dois anos, a acabar uma tese no ano do casamento e no meio de uma pandemia global. A preferir ver séries em vez de filmes, a ler mais livros de direito do que ficção, a deitarmo-nos no sofá para tirar notas à vida e a acabarmos a olhar para a planta que comprámos para casa, uma planta a quem demos um nome e que tratamos pelo mesmo, com carinho. Parece estranho, mas é bom. A dado momento a canção começa a tocar, e rio-me porque o riff inicial é parecido ao do Is This It. Todos nós já aqui estivemos, neste exato momento, em que o tempo nos colocou, a sentirmos que a nossa vida, por mais caricata que seja, tem algum sentido. Agora, se não se importam, vou só ali fazer o jantar, porque já se faz tarde. Mas se quiserem ouvir alguma coisa, fiz uma lista, e está aqui em baixo. É só escutar. Tchidles.

Corri vinte minutos

Corri vinte minutos e achei as coisas bem, cheias de sol. Apontei o dedo para casa, para aquelas duas bochechas muito bonitas e sorridentes, e pensei no realismo jurídico e mágico da vida, e cantei o verso, contigo sou agradecido, contigo sou sempre agradecido, e continuei.

Sobre o mar

Abrimos a janela e a noite estava boa, nada fria. Algumas nuvens, um barco com as luzes todas ligadas, um autocarro a passar o Rossio, ninguém à vista em lado nenhum (rua, janelas, nada). Ouvi o avião, e espantei-me, porque há tanto tempo que não reparava em aviões, e ainda para mais estamos em recolhimento, quem é que voa quando o país está em recolhimento? Mas não pensei muito nisso, e virei-me para ver o avião, seguindo-o com os olhos, e o avião subiu e virou, entrando em cheio nas nuvens, desaparecendo no meio delas, muito lentamente, como num filme. Depois voltou a ficar tudo calmo, as pessoas continuaram recolhidas, a Carol tirava fotografias e o céu estava aberto e limpo, sobre o mar.