O final da tarde demora a passar no sul dos Países Baixos. Por um segundo quase que acho que o lusco-fusco vai durar para sempre. Há uma serenidade engraçada por estes lados: muito verde, mas com muitas árvores. Há campos extensos e planos, mas são poucos. As estações de comboio são grandes e centrais. Pela janela do comboio vejo corredores ao lado de vacas e muitas casas com mesas e cadeiras nas traseiras. Apetece-me tirar notas, mas fico parado, a olhar apenas da janela do hotel para o canal, com as casas do outro lado e o céu rosa a escurecer, lentamente.

O prado – não o vale – costumava ser verde. Agora aloirou. Foi do sol, talvez. Não percebo bem como funcionam os fenómenos da natureza. Só sei que sim, que existem. Quando desço a rua de manhã e a subo de tarde fico muitas vezes parado a olhar para o prado. Vejo-o a mexer com o vento. Não é especialmente bonito, nem grande. Mas é qualquer coisa que vive. Gosto da certeza desta vida, a das árvores e das plantas. No outro dia estava de café na mão a caminho de uma instalação televisiva, quando encontrei um tipo na rua (não sei se era uma aparição, um anjo) que me disse que “as coisas estão lá, e vão continuar lá, e quando as coisas desaparecerem vão ser substituídas por outras coisas e a vida, bem, a vida é assim, e temos de relaxar”. Uma das minhas bandas preferidas tem uma canção cujo primeiro verso é “vem fazer um disco no mês de Maio”. Aconteceram muitas coisas neste mês de Maio. É a sina das coisas: acontecem, algumas ficam, e outras passam. É um movimento perpétuo, que apesar da sua dificuldade é muito bonito. O prado vai voltar a ser verde; talvez não esteja aqui, num gabinete de janela grande, quando for de novo o tempo, mas posso sempre lembrar-me quando me apetecer. Posso lembrar-me igualmente do céu branco-cinza e das nuvens branco-luz que por lá andavam, numa sexta-feira de meio de Maio, último dia de aulas de um semestre académico, e dia de crisma. Talvez o importante seja isso: confirmarmo-nos constantemente, perante todas as coisas, na verdade que nos foi dada, dia a dia, passo a passo. E, pelo meio, parar para ver as árvores e os prados, a sua serenidade imortal e o seu lento embalo, como quem diz: vem, vem fazer a vida, neste mês de Maio.

“Il problema è il silenzio. Ma, quale silenzio? Ci sono quattro tipi di silenzio: silenzio letterale, allegorico, morale, divino. E mettere insieme questi quattro tipi di silenzio è molto difficile, quasi impossibile. E’ un gol. Ma dopo c’è l’armonia, capisci? (…) E questo è molto importante, molto importante… Siamo cattolici, religione sportiva… ma non buoni contro cattivi… buoni contro buoni. Questi buoni fanno goal. Ogni goal è un silenzio.”

Nanni Moretti, Palombella Rossa, 1989 (aqui)

O que se passa é que no sábado santo, depois de uma overdose de açúcar, deitei-me no sofá da sala, e li a história de Rhea, que é uma personagem de um romance premiado, vivia nos anos setenta, e era aquilo que se podia chamar uma punk, tinha sardas, não gostava das sardas, também acho que não gostava do punk, mas pintava o cabelo de verde, e usava uma coleira com picos, e entretanto sinto o açúcar a correr no sangue, especialmente na  cabeça, junto à testa, e Rhea tem uma banda, e tudo na banda é juvenil, e portanto tudo é exagerado, tudo é inseguro, tudo é novo, e tudo é violento, e no meio desse “tudotudotudo” há um certo sentido, e há muita sensibilidade, e na sala há silêncio, há janelas fechadas e há luz por trás dos vidros, há algum vento que entra pela janela aberta da sala ao lado, e que depois entra pelos furos das crocs antigas que saquei de um armário de roupa velha, umas crocs amarelas, gosto imenso da cor amarela, mas não gosto de crocs, mas é sábado e estou no paraíso, e a ressurreição só precisa de amor e de silêncio para acontecer, por isso danem-se as crocs, e dane-se o punk, e deixe-se ficar só o tempo, só a tarde, só o vento, só o silêncio, só, deixemo-nos ficar, só.

                                      é que no outro dia fui correr; tinha chegado relativamente cedo a casa, era de dia, parei o carro e entrei e mudei de roupa, fui até à sala, e fiz uma lista de canções, é que apeteceu-me ouvir as canções que escutava em 2017 quando ia correr, quando ia correr na rua e o dia estava assim, no seu fim, o céu de cor azul já com traços meio-rosados, o ar quente ma non troppo, e havia uma sensação lenta na existência, na forma como a existência se desenrolava, na forma como eu descia a rua e punha a mão na barriga para tentar sentir os poucos abdominais que tinha / tenho, para ver se tinha / tenho os sapatos bem apertados, e depois começar, e ouvir as canções que eram sempre as mesmas, que foram sempre as mesmas, durante todo o verão, sempre as mesmas durante praticamente todo o verão, e talvez algum tempo depois disso, tipo até outubro ou quase novembro, eu correndo por meia ou uma hora completa, acabando ainda de dia, ainda quente, com o céu mais carregado, com suor no cachaço, nos braços e nas pernas, nos abdominais, nas costas, e eu a respirar e a subir a rua, a tentar estar direito da anca para cima, e sentir-me confortável, pacífico; é que no outro dia fui correr e senti-me assim, confortável e pacífico, dentro de um intervalo veranil, e não era uma memória, nem uma imagem, apesar desta sensação ter existido várias vezes, em especial durante um tempo específico, que num capítulo de uma putativa autobiografia da minha pessoa poderia ser chamado como “o meu ano na Lapa” ou “o meu verão de 2017”, porque penso que na minha autobiografia todos os capítulos serão ou sobre casas ou sobre verões, porque guardo sempre ambos, as casas e os verões, com igual cuidado,  e é isso, é que é apenas e só e tanto isso, locais, tempos, eras, sensações e existências que foram, e que são, e que estão, e que