B (that summer feeling)

Adorava ser criança para sempre. Assim posso usar tshirts com robôs desenhados quando for adulto. O tio dois usava, se calhar eu também posso. Mas e se for advogado? O tio dois é advogado, como o pai e a avó. O mano dois se calhar vai ser, não sei. Não sei o que quero ser quando for grande. Mas não me consigo imaginar para sempre dentro de uma casa. Prefiro estar fora, ao sol, de cabelo rapado. Gosto de filmes e de futebol, mas prefiro brincar, correr. Correr é bom. A mãe corre, e pinta. Gosto de me sujar e de me sentir livre. Lembro me de passar um aniversário da avó nas ilhas, e de estar no cimo de um monte muito verde, com água e nuvens por baixo. Era tudo muito bonito. Acho que já decidi o que quero. Vou ser criança para sempre, ou então vou passar o tempo a visitar montes e terras, e a estar no Beiral. Gosto muito do verão.

Cafés com nome próprio

No sonho eu estava a correr, tal como hoje de manhã, outra vez a correr, desde não sei quando foi a última vez que corri, estava a correr e a ouvir uma canção que estava na lista que fiz para correr, a lista que fiz talvez há um mês atrás, com canções que tinha ouvido no mês anterior a esse, mas esta canção envelheceu bem, porque as canções para correr envelhecem sempre bem, são feitas para durar quilómetros, para durar anos e gerações, e no sonho estou a correr e a ouvir uma canção dessas e a pensar em fazer um filme com a máquina digital mini-dv que encontrei, no meio das mudanças de casa, um filme sobre um personagem que vive num último andar de um prédio, que tem o telhado pejado de gaivotas no verão, gaivotas às quais ele chama “gaivotins” por nenhuma razão aparente que não parvoíce, e ele no verão quer sempre ser escritor, mas não consegue encontrar uma história para escrever, e então torna-se crítico, crítico de tudo, de cinema, de teatro, de música, de leis e de política e de pessoas, e um dia está a arrumar uns caixotes em casa e descobre uma fotografia da mãe, que já morreu, uma fotografia antiga a preto e branco, em que a mãe aparece muito nova e antiga, ao lado de um senhor estrangeiro, também ele novo e antigo, um senhor que sorri, sorri muito, e ele não sabe quem é o senhor, embora suspeite que seja apenas isso, uma pessoa numa fotografia num determinado momento histórico, e começa a pensar escrever uma história sobre isso, sobre o senhor estrangeiro, sobre a mãe ou uma mulher parecida com a mãe, uma portuguesa num país estrangeiro num tempo antigo, e depois no sonho corro e imagino que o crítico sai de casa para ir levar o computador a arranjar, e entra no carro e põe um disco a tocar, e enquanto ouve o disco começa a fazer uma crítica, uma crítica mental ao disco, e enquanto a cuca toca o crítico crítica, as canções passam, e o carro cruzaas ruas do Bairro das Colónias, onde se encontram cafés com nome próprio, cafés tão espetaculares como o Faz Falta e O Especial, e o carro está a virar na rua Cidade de Liverpool e a subir para a rua Cidade de Manchester via rua Cidade de Cardiff, acabando por ir parar à rua da Penha de França, onde o crítico já não punha os pés, quanto mais as rodas, há uns bons anos, quando ainda nem corria mas já gostava de conduzir e ouvir discos, ouvia discos e criticava-os, escrevendo longos artigos na internet sobre editoras lisboetas alternativas, elogiando a energia e juventude de bandas que desapareceram após editarem um disco, é o que é, e eu estou a sonhar que estou a correr e a ouvir uma canção estrangeira muito forte chamada Velodrome e a imaginar o nosso crítico, em formato mini-dv, a descer a Calçada do Poço dos Mouros para a Morais Soares, ao som de uma canção portuguesa muito bonita chamada Travessia, sobre um casal que trabalha durante a pandemia, o carro e a crítica embalados pelas vozes do Tomás, da Tamen e do Louie, enquanto o crítico se embala até à Alameda a pensar na diferença entre discos SSD e discos HDD, e como a RAM se relaciona com a porta e já não há portas de cd, e ainda as placas, e quando me lembro da placa deve ter havido um curto-circuito qualquer na ligação do sonho e acabo por acordar, e depois levanto-me e vou correr, ouvir uma música chamada Velodrome, ter um dia longo, lavar o carro e ouvir um disco no carro, comprar café e ouvir as histórias e lamúrias do condutor de um serviço de assistência técnica, e a verdade é que não sei se a câmara mini-dv está sequer a funcionar, nem sei se os gaivotins que vivem em cima do telhado vão demorar muito tempo a sair, também não sei muito bem se o condutor não era um pouco exagerado nos números que dizia, mas uma coisa que sei é que não me tem apetecido escrever, ou ler, ou ouvir, que recebo estes discos descomprometidos e divertidos que um grupo de amigos muito talentosos consegue produzir em quarentena como uma boa companhia de viagem, que oiço a produção segura e a mistura eclética de dança, balada, hip hop, canción e divirto-me, aguento as idiossincrasias de grupo, típicas destes discos de comunidade, e aprecio a liberdade e amizade que por ali anda, e até consigo ter vontade de conseguir um vinil para pôr a tocar na sala, num sábado de manhã quando a Carol e eu estamos na nossa, mas nada mais, porque já entrei em modo acabar e quando se está em modo acabar não se escreve, escreve-se (gostam deste pun de tese?), e o resto sonha-se, guarda-se, vive-se, para depois. Depois, logo se vê, em canção, palavra ou, até, mini-dv. Tenham um bom verão; vamos falando. Inté.

Léxico auxiliar

Estou sentado ao balcão da cozinha a comer duas embalagens de sushi barato que estavam em promoção no Uber Eats. Não tenho pauzinhos em casa; vou pegando em cada peça com os dedos, molhando-as na embalagem de soja, entretanto carregada de wasabi. No Japão é normal as pessoas comerem sushi com as mãos, de passarem o sushi pela soja com as mãos. Um tipo em Kanazawa, uma terra com belíssimos jardins, museus e bairros antigos, explicou-me isto ao balcão de um sushi bar, enquanto pegava em grandes peças, verdadeiras “postas” de peixe, com apenas um pouco de arroz, e as enfiava pela goela abaixo.

Costumo contar este apontamento algumas vezes, quando estou num restaurante japonês com família ou amigos. Sempre que o conto, acontece a mesma coisa: continuamos todos (eu incluído) a comer as peças com os pauzinhos, como se nada fosse, como se eu não tivesse dito nada, enquanto eu sei que dentro da minha cabeça este meu apontamento japonês e mundano está a considerar a necessidade da sua própria existência, ou melhor, da sua própria expressão, pensando se não podia ser só isso, uma memória interessante, uma ideia que fica para mim mesmo, como tantas outras, enquanto nós, no mundo exterior, aplicamos as nossas próprias regras, mesmo para coisas que não são originariamente nossas.

Por falar em regras, estou a falar sobre regras por mensagem, sobre o estudo das regras, a dogmática das regras, a filosofia das regras, tudo isso e mais um bocado, com muita soja e bastante wasabi. Lá fora está lua cheia. Quando me levanto para despejar o lixo no caixote vejo, da janela, a Igreja onde me vou casar, muito iluminada. Depois abro uma cerveja e vou para a sala. Não me apetece fazer nada. Não me apetece fazer rigorosamente nada.

A casa está vazia. Tenho só um candeeiro aceso. O copo de cerveja está no chão, junto ao meu pé esquerdo; estou sentado no sofá. Antigamente achava que estes eram os momentos ideais para o transcendente. Depois aprendi que são os momentos ideais para se estar como estou: parado, virado de frente para a televisão vazia. Lembro-me que hoje jogou o Benfica. Apetece-me beber esta cerveja? Não me apetece fazer, rigorosamente, nada. É isso? O que é isso?

Bebo um gole de cerveja, e volto a colocar o copo no chão, junto ao meu pé direito. Ouvi uma canção na minha cabeça em que o cantor me perguntava se eu achava que era o sal da terra. Não acho nada, rigorosamente, pelo menos agora. Acho muita coisa, mas de outras formas. Hoje achei que o mais provável, depois de encomendar sushi barato numa noite de lua cheia, seria encontrar o transcendente. O mais provável seria sentir o transcendente aqui, nesta sala, neste sofá, nesta casa vazia. Mas não. Sinto o sabor da cerveja nos lábios e nos dentes, junto com um bocado de arroz, atrás do molar esquerdo. É tudo tão real. 

Olho pela janela. Não dá para ver se a lua está reflectida no rio. Às vezes isso acontece durante a lua cheia, e é uma imagem muito forte. Não fica bem numa fotografia, pelo menos não numa fotografia tirada com um telemóvel. É terrível ter de ser profissional para fixar certas coisas. Há um barco estacionado no meio do rio, cheio de luzes ligadas. Parece uma esplanada da baixa, no verão, pronta para os Santos populares. Pergunto-me se haverá música para aqueles lados.

Estava no cimo de uma rua, fora da baixa, quando vi pela primeira vez o impacto da lua cheia sobre o rio. Nessa altura já tinha mais de trinta anos, mas ainda não me ia casar. A rua era muito íngreme, difícil de descer; no fundo da rua estava o rio e no rio estava a lua. A rua, no fundo, ia dar à lua. Mas eu não desci a rua. Não fiz nada, fiquei apenas a ver a imagem, da lua no rio, no cimo da rua, sabendo que depois ia para casa e ia-me deitar na cama e adormecer. Não me apetece adormecer, agora. 

Sinto-me pesado. Para ser rigoroso, engordei; para ser rigoroso, não tem sido fácil viver esta pandemia. Até Rick e Morty parece um desenho animado de crianças ao pé da realidade. Não aqui dentro, na casa vazia com um candeeiro ligado e duas embalagens estupidamente baratas e vazias de sushi barato no caixote do lixo. Falo lá de fora, nas ruas onde esta casa e as outras casas dos outros se encontram, nas terras junto às terras dos outros das outras terras, que todas juntas fazem a nossa grande terra que está ao pé de outras grandes terras dos outros, e separada pelo mar de outras grandes terras ainda, e de uma ou outra ilha pelo meio. E o que se passa quer nesta rua ou noutra ou numa outra terra ou grande terra ou ilha chega muito rápido aqui, à casa do copo de cerveja junto ao pé direito, onde passo algum tempo a ver ecrãs cheios de páginas e aglomerados de páginas, cheios de imagens, vídeos, sons e opiniões. E é difícil que o cá dentro não fique afetado pelo lá de fora, porque o cá dentro é a nossa maneira de nos relacionarmos com o que vem lá de fora.

Estou pesado (as calças não precisam de cinto, algo que nunca tinha acontecido) e se calhar o jantar e as duas embalagens tiveram algo que ver com algo. Mas não é transcendente. Vejo fogo e vejo força, vejo gritos e vejo dor, mas não vejo poder – ou tenho medo de o estar a ver, no ecrã do telemóvel. Estou a ver o ecrã da televisão, completamente negro, com uma luz vermelha por baixo. Penso se isto é uma representação do futuro, o transcendente que se faz apresentar enquanto metáfora televisiva. Não. Discuti, por mensagens, o idealismo e o realismo, o cinismo crítico, o declínio de um império. Depois vim para o sofá escrever. Apetecia cinema mas não apetecia filme. Apetecia que a televisão se ligasse e o filme que é cinema começasse a passar, e eu visse, e a Carol chegasse do jantar a que foi e ficássemos os dois a ver, ou a sorrir, e depois a dormir.

Durante a tarde também me deitei no sofá a escrever perguntas. Perdi todas as vidas do Duolingo numa aula de alemão sobre o presente. Há uma coisa que me faz confusão: é ein Glas Milch mas é eine Weinflasche? A Carol encomendou um chocolate de leite com avelãs. Lembrei-me de uma canção dos Delfins que ouvi na rádio do carro da minha mãe numa viagem norte-sul quando tinha menos de quinze anos. No refrão o cantor perguntava-me porque é que eu não era como a Sharon Stone. Eu sei que não era a mim que ele queria perguntar isso, mas pensei o que é que leva uma pessoa a perguntar a outra porque é que essa outra não é como, ou igual, à Sharon Stone. Somos o que somos, pessoas muito complicadas, com muitas histórias, já nos bastamos. Porquê?

Hoje, por exemplo, estive com um amigo e colega de trabalho a beber cerveja. Descobrimos, no final do encontro, que tínhamos feito Erasmus no mesmo semestre, e no mesmo país, e que tínhamos estado, durante esse período, em Bolonha, talvez ao mesmo tempo. E eu lembrei-me de um episódio numa pizzaria em Bolonha, em que um amigo português se pôs a falar com um outro português, e pensei se esse segundo português não era este meu amigo e colega de trabalho. Não era, mas não é engraçada, a coincidência? A cerveja agora está junto ao pé esquerdo, outra vez.

Há um tipo que toca a mesma canção na viola, todos os finais de dia e noites de domingo, no início da Rua Garrett. Parece uma música italiana, de filme de praia. Diz que me vai tocar um fado, um dia destes. Mas depois, sempre que nos cruzamos, ele toca esta canção, um dedilhado alegre, mas ligeiramente melancólico. Na quarentena – a Carol disse e bem, que agora falamos sempre desse período como sendo “a quarentena” – o homem estava sozinho, com os edifícios à volta, dando ao esqueleto da cidade a alma que esta não tinha. Era uma alma triste, mas bonita. Não sei se soava a fim, se a início, mas admito ser muito difícil perceber quando uma coisa acaba e quando uma nova coisa começa. Pelo menos para mim. 

Também me é difícil reagir sobre o que se passa. Há pessoas neste mundo que são maltratadas pelos outros de uma maneira abominável, apenas por serem diferentes quando, como nós, são o que são. Acordam, vivem, dormem, e lutam. Acontece noutras grandes terras, como acontece na rua aqui ao lado, ou nos ecrãs nas nossas mãos, e dói, dói horrivelmente. A dor é dor, não tem grande explicação. O mundo dói, e dói rigorosamente, e está a doer muito. Acho que devíamos fazer para que o mundo doa menos; tenho a certeza que poder, podemos. Podíamos (devíamos?) refundar o nosso léxico, fazer uma revolução em que algo verdadeiramente novo e diferente começasse. Sabemos?

A cerveja ainda não acabou mas já voltou para ao pé do direito. O direito trata das regras, das regras do poder, para limitar e para fazer valer o poder, não trata dos pauzinhos e das mãos, mas da realidade e do futuro. O direito devia ser a representação de um léxico bom, humano, aberto. O direito é meta, meta-tudo. Meta tudo o que não interessa no caixote do lixo, imaginem uma canção assim. Sim, sim, sim; sim, vou voltar a pegar num livro, prometo, um livro que não trate de poderes nem de regras, que não seja meta-nada, mas somente muito-tudo, muito bom.

Mas antes, deixem-me ir à janela, porque não sei se as luzes que vejo são de um segundo barco, ou se são apenas o reflexo do meu único candeeiro no vidro. Já vi; são de um segundo barco, do mesmo tamanho do primeiro. E, à direita, lá está a lua, refletida no rio. À minha frente está uma grua, uma grua que aponta para a lua. Lua, sua, tua: transcendente. Uau. Sabes?

 

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A grande inocência

Começou, por estes dias, o verão. O verão é o tempo, por excelência, daquele sentimento de vida tão doce e provocador, e ao mesmo tempo tão maldito e destrutivo a que podemos chamar a “impermanência”. É difícil permanecer – estar, ser, ficar – parado no verão, porque ao calor qualquer leveza que não a de espírito torna-se insustentável. Passamos a ser chamados, a cada momento, a lidar com a sensação do tempo presente de forma mais forte e abrasadora (pun intended) do que o normal. Muitas vezes a solução para esta ansiedade mais quente que o habitual é cair, baixar os braços, e ficar num braço de areia ou numa boa e confortável cadeira, entregues ao peso (isto, claro, se uma bacia de água, marítima ou não, não nos poder acolher). Não menos vezes, a solução é aquela diametralmente oposta, de entrar num movimento contra-ciclíco, enfrentando o peso do tempo com o nosso “peso” interior e dinâmico. O Verão é um tempo difícil, especialmente para quem gosta de correr.

As aulas acabaram, enquanto que a tese avançou. Dediquei-me a discutir a grande inocência dogmática e conceptual que é pensar o direito sem pensar no poder, e pensar no direito e no poder sem pensar no político. Arendt é espetacular neste aspecto, abrindo-nos os olhos e os sentidos para a promessa e vida dos conceitos. Tem sido uma boa companhia, agora que não tenho outros livros para ler, e que acabou a última dança dos Bulls (e que vi a vergonha constrangedora que é White Lines) e sobretudo agora que o corrupio público no mundo real é (in)tenso e confuso, confinado a trincheiras demasiado ferradas num tempo duro como é este de pandemia. Apesar das multidões consumistas que o Chiado recebeu este fim de semana, temo que o novo normal traga, mais do que máscaras e desinfetantes, uma sensação de distância terrivelmente exagerada, entre pessoas a ideias, e aquilo a que chamamos a nossa convivência comum. Tenho pensado muito, nesse aspecto, numa frase que li, de Tolentino Mendonça, de que a “normalidade não é um conhecido lugar a que se volta, mas uma construção onde somos chamados a empenhar-nos”. E empenhados temos de continuar, nesta altura presente, em que as confusões são muitas e as incertezas também.

De regresso a casa, depois de um almoço, passei pela Almirante Reis, a avenida mais cinematográfica de Lisboa. No início do mês li um comentário a um vídeo de youtube em que alguém dizia que um filme era tudo o que ela sempre quis fazer, pensar, dizer ou sentir. Há ruas que me fazem o mesmo, ou que me fazem sentir, pensar, fazer ou dizer o mesmo que fiz, nos meus melhores dias, ou mais vivos. E não só a mim, mas a muitos que se declaram nas paredes, escrevendo manifestos ou declarações, desabafos e marcas. A avenida como uma canção ininterrupta, como um espaço veranil, cheio de calor e movimento. Lembro-me de outro texto que li, no início de um mês, de um maluco que ia a um bar, todas noites, para ouvir a mesma canção dos Thin Lizzie, querendo que os rapazes voltassem à cidade, para que toda a inocência que uma canção consegue carregar dentro de si fosse aberta e o enchesse de um sentido, de uma presença.

Mas depois estou num carro, e os Terno estão a tocar e sabe bem, não atrás / além mas aqui, aqui mesmo, e acabo por ir parar a um restaurante em campo de Ourique, com empregados de máscara e luvas, que servem os menus com pinças, e quando olho para a frente a Carol, que uns trinta minutos antes estava com uma toalha na cara a fazer uma figura divertida, está agora com o sorriso instalado, e o sorriso da Carol é devastador (é essa a palavra) porque as bochechas sobem e arredondam-se de forma muito deliciosa, e a linha do lábio fica muito recta e elegante. Tal e qual como na noite anterior, quando fomos agradecer ao café argentino que nos alimentou durante parte da quarentena, embora com uma diferença importante: é que agora, no italiano, a Carol está “sardinhenta”, o que quer dizer que apanhou sol e se vêem as sardas, e não há filme que pague isto, que consiga ser assim, como a imbatível naturalidade do amor que podemos ter por alguém diferente de nós.

Vem aí Junho, também conhecido por época de exames. Celebra-se o primeiro mês de vida dos bébés Emília e Simão, filhos de amigos, cujo primeiro contacto com o mundo ocorre nestas nossas novas condições epidemiológicas. O Verão vai acentuar-se e entrar em vigor, oficialmente, com bandeiras nas praias e férias pelas casas, aumentando a sede de movimento desconfinado. O virús ainda existe, ainda está por aí, e com ele um medo, mas o Mubi abriu a biblioteca e portanto posso pensar em, juntamente com a tese, o direito, o poder e a política, ver alguns filmes. Entretanto, comecei a ler Natalia Ginzburg, junto ao rio, num sábado à tarde. “Vocês – dizia o meu pai – aborrecem-se, porque não têm vida interior”. Acho que tenho tudo para amar.

Março, Abril, Maio

Caro diário,

Já faz algum tempo que não te escrevo. Espero que te encontres bem. Tentei por várias vezes falar-te, mas as coisas que se passavam eram tantas e tão confusas que preferi esperar. Não se deve escrever em turbulência; pode-se viver, mas não mais do que isso. Não sei se te lembras desta frase, que escrevi há uns bons anos, quando sonhava, algo ingenuamente, ser escritor.

Era de um personagem que estava a viajar sozinho durante dezassete horas, num comboio entre Dehli e Jaisalmer, e que tenta lutar com o tempo, o movimento, e o seu próprio conflito interior. Há pouco tempo, ao limpar o computador, deparei-me com ela, e achei que era verdade: só conseguimos falar com um mínimo de justiça das coisas quando elas acalmam, não quando estão ainda a acontecer.

Na realidade, as coisas ainda não acalmaram. Estamos a viver uma pandemia – desculpa por só te avisar agora, mas sabes como é, “mais vale tarde do que” – e há tanta coisa que se passa (tanto desespero, tanto humor, tanta dor, tanta alegria, tanta controvérsia, tanta preocupação, tanta ansiedade, tanto desejo) que apetece mesmo dizer: a vida não pode ser mais vida do que isto. Já estamos nisto há quase dois meses, Março e Abril, e agora vamos para o terceiro, Maio.

Tenho estado bem, a Carol mudou-se cá para casa e temos vivido graças a várias aprendizagens culinárias, desde o básico mas saboroso arroz (o truque está todo em não fazer prisioneiros no refogado) até aos bolos de iogurte mais divinais que podem existir (nesta casa não se faz pão, e bem). O consumo simpático de cerveja (Musa, by the way) e de documentários true-crime Netflix (vejam o The Staircase, é incrível; esqueçam o da Amanda Knox e não percam, por favor, o do Fyre Festival – true-lol ao máximo) também ajuda.

A Carol tem feito muito exercício, eu tenho feito pouco, mas aproveito para ir correr e ouvir alguns bons singles que têm saído, da Phoebe Bridges e das Haim por exemplo. O resto do tempo é com trabalho. Dou aulas à distância e escrevo a tese. Tem sido o melhor período para a tese desde os Estados Unidos. Tentei fazer uma data de outras coisas – um podcast baseado numa ideia de diário, um podcast baseado numa ideia de novela, um podcast baseado num disco de versões – mas desisti.

Porque um dia acordei e percebi que, um, não sou escritor, e muito provavelmente nunca vou sou ser; e depois fui à varanda de casa, olhei para fora, e tomei nota pela milésima-sétima vez que o tempo não pára quando queremos, apenas pára quando achar que faz sentido. Estamos (o país, o mundo) há dois meses em casa, e vamos ficar mais uns tempos assim, entre “recolhimentos domiciliários” e “distanciamento social”, entre necessárias medidas sanitárias que nos fazem parecer figuras de um filme de ficção científica série-z, alternando entre pesados estados legais de limitação individual e opções políticas difíceis e de equilíbrio social controverso, com o projecto europeu no fio da navalha e sem cinemas, teatros, concertos e mar.

Pode-se descrever a turbulência: o vazio das ruas, as flores nas portas e os músicos que se mantêm, desde há quarenta e cinco dias, no Chiado, a tocar fados tocantes, enquanto tudo à volta parece um monumento abandonado, uma maquete em exposição, um futuro que vai ou não vem. Mas falar dela, do que vem, quando tudo está ainda a acontecer? É difícil. É muito difícil.

Por isso, querido diário, vou continuar a viver a rotina que estabeleci, que é o possível, vou continuar a tirar a loiça da máquina (a Carol odeia essa tarefa) e a tentar lidar com os problemas da máquina de lavar roupa (está a verter água); vou continuar a ler os meus livros de teoria política, a tentar perceber o direito da vida e a explorar os limites de um bom refogado, e a ver filmes e séries, a ouvir os discos que valem a pena, e a tentar viver de forma justa o que se passa. Vou te deixando pequenas notas sobre o quotidiano, prometo.

Por exemplo, está um belíssimo dia de verão hoje, muito quente e solarengo, e é dia da Mãe; faz-me pensar que vai correr tudo bem. Rimei, foi sem querer, desculpa-me; da próxima

Tenho cinco dedos. A janela tem dezasseis vidros, uma árvore verde, um monte escuro e um monte branco, de nuvem. O aquecedor range muito. Lembrei-me de Russell Brakefield, o autor de Field Recordings, que me dedicou um exemplar pela música, e pelas milhas. Milhas é uma medida, uma forma de contar e estruturar as coisas que existem. Faz mais sol às sete da tarde do que às sete da manhã, como se o dia estivesse ao contrário. Se calhar é o mundo que está, mas alguém já deve ter feito esta piada. Sinto que vivo mais o dia do que vivia antes, que me preocupo menos com o que vem e o futuro. Um dia é uma certeza, o seguinte uma ficção, e ontem sonhei que um tipo me mostrava como iria morrer. Depois sentávamo-nos a tomar um café. O sol bate na janela, duas cruzes e quatro vidros na madeira. Quantas páginas escrevi hoje, para depois rever, e continuar? Gostava de ler um poema que cheirasse a relva; a Carol disse hoje que tinha saudades do Verão. A Carol está a tirar uma fotografia, neste momento: Carol ao sol, com uma camisola de inverno, e eu gostava agora de escrever um verso, o último de um poema imaginário que começa com “tenho / cinco dedos”. O Estêvão perguntou ao pai: qual é o teu ser? E o teu, qual é?

O novo normal, parte dois

Ela olha-se ao espelho, ele está à porta, at the door, mas não toca nenhuma canção, ainda. Olhos no reflexo, cabelo molhado, uma ode aos tempos que já foram, e ao filme, qualquer que ele seja, que começa… agora? Novo episódio desta audio-novela, sem nome próprio, aqui:

O novo normal

Gosto imenso do balanço do novo disco dos Strokes, The New Abnormal, tem bons sons de sobra. Sim, alguns confortáveis, com os riffs cortados, e aquele croonismo futurista e nova-iorquino blasé da voz, mas eu gosto disso. E gosto muito de Selfless, Eternal Summer e Ode to the Mets, acho graça a The Adults are Talking, e acho que Brooklyn Bridge to Chorus é uma ótima música de festival. E Bad Decisions é a minha canção preferida do ano, até ver, altamente viciante. Fácil, nostálgica, não digo que não. Mas qual o mal? Gosto muito. Gosto muito deste novo normal. E agora vou voltar à escuta.

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Algo aqui

Todos já estivemos à porta, de garrafa na mão, prestes a carregar no botão, a duvidar do andar. Alguns até já fizeram canções sobre isso, sobre esses momentos difíceis. Ninguém faz canções como o Dylan, onde cabe uma vida. Mas todos estivemos à porta, a contar os segundos, a respirar fundo, antes de subir… algo aqui terá necessariamente de acontecer. O último episódio desta semana aqui; voltamos na próxima. Uma Santa Páscoa para todos.

Silêncio, que se vai cantar o fado

“Twas a dark day in Dallas, November ’63
A day that will live on in infamy
President Kennedy was a-ridin’ high
Good day to be livin’ and a good day to die
Being led to the slaughter like a sacrificial lamb
He said, “Wait a minute, boys, you know who I am?”
“Of course we do, we know who you are”
Then they blew off his head while he was still in the car
Shot down like a dog in broad daylight
Was a matter of timing and the timing was right
You gotta pay debts, we’ve come to collect
We’re gonna kill you with hatred, without any respect
We’ll mock you and shock you and we’ll put it in your face
We’ve already got someone here to take your placeThe day they blew out the brains of the king
Thousands were watching, no one saw a thing
It happened so quickly, so quick, by surprise
Right there in front of everyone’s eyes
Greatest magic trick ever under the sun
Perfectly executed, skillfully done
Wolfman, oh wolfman, oh wolfman howl
Rub-a-dub-dub, it’s a murder most foulHush, little children, you’ll understand
The Beatles are comin’, they’re gonna hold your hand
Slide down the banister, go get your coat
Ferry ‘cross the Mersey and go for the throat
There’s three bums comin’ all dressed in rags
Pick up the pieces and lower the flags
I’m going to Woodstock, it’s the Aquarian Age
Then I’ll go to Altamont and sit near the stage
Put your head out the window, let the good times roll
There’s a party going on behind the Grassy KnollStack up the bricks, pour the cement
Don’t say Dallas don’t love you, Mr. President
Put your foot in the tank and step on the gas
Try to make it to the triple underpass
Blackface singer, whiteface clown
Better not show your faces after the sun goes down
Up in the red light district, they’ve got cop on the beat
Living in a nightmare on Elm StreetWhen you’re down in Deep Ellum, put your money in your shoe
Don’t ask what your country can do for you
Cash on the ballot, money to burn
Dealey Plaza, make a left-hand turn
I’m going down to the crossroads, gonna flag a ride
The place where faith, hope, and charity died
Shoot him while he runs, boy
Shoot him while you can
See if you can shoot the invisible man
Goodbye, Charlie
Goodbye, Uncle Sam
Frankly, my Scarlet, I don’t give a damnWhat is the truth, and where did it go?
Ask Oswald and Ruby, they oughta know
“Shut your mouth, ” said the wise old owl
Business is business, and it’s a murder most foulTommy, can you hear me?
I’m the Acid Queen
I’m riding in a long, black Lincoln limousine
Riding in the backseat next to my wife
Heading straight on in to the afterlife
I’m leaning to the left, got my head in her lap
Hold on, I’ve been led into some kind of a trap
Where we ask no quarter, and no quarter do we give
We’re right down the street from the street where you live
They mutilated his body, and they took out his brain
What more could they do?
They piled on the pain
But his soul’s not there where it was supposed to be at
For the last fifty years they’ve been searchin’ for thatFreedom, oh freedom
Freedom above me
I hate to tell you, mister, but only dead men are free
Send me some lovin’, tell me no lies
Throw the gun in the gutter and walk on by
Wake up, little Suzie, let’s go for a drive
Cross the Trinity River, let’s keep hope alive
Turn the radio on, don’t touch the dials
Parkland hospital, only six more milesYou got me dizzy, Miss Lizzy
You filled me with lead
That magic bullet of yours has gone to my head
I’m just a patsy like Patsy Cline
Never shot anyone from in front or behind
I’ve blood in my eye, got blood in my ear
I’m never gonna make it to the new frontier
Zapruder’s film I’ve seen that before
Seen it 33 times, maybe more
It’s vile and deceitful
It’s cruel and it’s mean
Ugliest thing that you ever have seen
They killed him once and they killed him twice
Killed him like a human sacrificeThe day that they killed him, someone said to me, “Son
The age of the Antichrist has just only begun”
Air Force One coming in through the gate
Johnson sworn in at 2:38
Let me know when you decide to thrown in the towel
It is what it is, and it’s murder most foulWhat’s new, pussycat?
What’d I say?
I said the soul of a nation been torn away
And it’s beginning to go into a slow decay
And that it’s 36 hours past Judgment DayWolfman Jack, he’s speaking in tongues
He’s going on and on at the top of his lungs
Play me a song, Mr. Wolfman Jack
Play it for me in my long Cadillac
Play me that “Only the Good Die Young”
Take me to the place Tom Dooley was hung
Play “St. James Infirmary” and “The Port of King James”
If you want to remember, you better write down the names
Play Etta James, too
Play “I’d Rather Go Blind”
Play it for the man with the telepathic mind
Play John Lee Hooker
Play “Scratch My Back”
Play it for that strip club owner named Jack
Guitar Slim going down slow
Play it for me and for Marilyn MonroePlay “Please Don’t Let Me Be Misunderstood”
Play it for the First Lady, she ain’t feeling any good
Play Don Henley
Play Glenn Frey
Take it to the limit and let it go by
Play it for Karl Wirsum, too
Looking far, far away at Down Gallow Avenue
Play tragedy, play “Twilight Time”
Take me back to Tulsa to the scene of the crime
Play another one and “Another One Bites the Dust”
Play “The Old Rugged Cross” and “In God We Trust”
Ride the pink horse down that long, lonesome road
Stand there and wait for his head to explode
Play “Mystery Train” for Mr. Mystery
The man who fell down dead like a rootless tree
Play it for the Reverend
Play it for the Pastor
Play it for the dog that got no master
Play Oscar Peterson
Play Stan Getz
Play “Blue Sky”
Play Dickey Betts
Play Hot Pepper, Thelonious Monk
Charlie Parker and all that junk
All that junk and “All That Jazz”
Play something for the Birdman of Alcatraz
Play Buster Keaton
Play Harold Lloyd
Play Bugsy Siegel
Play Pretty Boy Floyd
Play the numbers
Play the odds
Play “Cry Me A River” for the Lord of the gods
Play Number 9
Play Number 6
Play it for Lindsey and Stevie Nicks
Play Nat King Cole
Play “Nature Boy”
Play “Down In The Boondocks” for Terry Malloy
Play “It Happened One Night” and “One Night of Sin”
There’s 12 Million souls that are listening in
Play “Merchant to Venice”
Play “Merchants of Death”
Play “Stella by Starlight” for Lady MacbethDon’t worry, Mr. President
Help’s on the way
Your brothers are coming, there’ll be hell to pay
Brothers? What brothers? What’s this about hell?
Tell them, “We’re waiting, keep coming”
We’ll get them as wellLove Field is where his plane touched down
But it never did get back up off the ground
Was a hard act to follow, second to none
They killed him on the altar of the rising sun
Play “Misty” for me and “That Old Devil Moon”
Play “Anything Goes” and “Memphis in June”
Play “Lonely At the Top” and “Lonely Are the Brave”
Play it for Houdini spinning around his grave
Play Jelly Roll Morton
Play “Lucille”
Play “Deep In a Dream”
And play “Driving Wheel”
Play “Moonlight Sonata” in F-sharp
And “A Key to the Highway” for the king on the harp
Play “Marching Through Georgia” and “Dumbaroton’s Drums”
Play darkness and death will come when it comes
Play “Love Me Or Leave Me” by the great Bud Powell
Play “The Blood-stained Banner”
Play “Murder Most Foul””

Bob Dylan, Murder Most Foul, 2020

Lisboa não é boa

Twin Peaks, a série de culto, uma recomendação dela, que ele assiste num recolhimento forçado, para se preparar – para ela. Idas à janela fazem pensar: e se Lisboa ficasse vazia e tivéssemos de ficar todos em casa, como no caso de uma pandemia? Ainda assim ele ia sentir a falta dela, ou pelo menos é isso que ele quer achar… Novo episódio da audionovela aqui:

Twin peaks

Ainda não acabei a segunda temporada nem comecei sequer a terceira. Já devo ter visto a primeira umas sete vezes. Gosto sempre de regressar. Não é o lugar mais agradável, nem o mais bonito. Há violência, há incompreensão, há mistério, etc e etc. Mas há vida. Tanta vida. Os dias são melhores do que os sonhos, mas os sonhos, nas suas loucuras inexplicáveis, são uma boa forma de sentirmos a vida, na sua realidade mais possível. Há trinta anos atrás estreou a melhor série de sempre, sobre um mundo completamente aparte e imprevisível. Caindo, sempre, no imprevisível, provocando, com a sua irrealidade, a nossa própria. Agora vou ver se vejo o resto.

Um avião sobre o mar (no banco de trás de)

O céu está calmo, é de noite, e alguém regressa de uma viagem, “num avião sobre o mar” de forma mais ou menos escondida. É estranho: para quê esconder as coisas, seja qual for a razão ou o momento? Às vezes há quem se esconda não para se proteger dos outros, mas para se proteger de si mesmo. Mas nunca nos conseguimos afastar de nós: no banco de trás do avião, o que diz o nosso coração? Novo episódio desta novela virtual, feita em recolhimento, aqui:

Como o mel

Nunca percebemos bem o que se passa, ou pelo menos nunca percebemos tudo. Olhamos para os factos, desenhamos modelos, escrevemos refrões. Mergulhos no oceano; quanto vale uma canção perante um filme (ou o que é melhor: cinema ou música)? Pessoas, filmes, canções, mesmo que “perdidos na tradução” sabemos — a vida que vale sabe “como o mel”. Começa uma semana nova, “pela estrada”. Venham daí.

A fundo nos filmes

É sexta-feira, é dia de sair, mas alguém pode estar em casa, uma personagem, dançando e celebrando consigo mesma uma novidade, “deeper into movies”, com pop, pop, pop. O último episódio desta semana, com uma homenagem de dois minutos aos New Order no final. A nossa história volta segunda-feira – e, para dançar nesta sexta-feira, cá vai uma playlist. Stay safe.

Ser cinema

O que é ser cinema? É estar parado, ou em movimento, ou estar parado a ver movimento ou em movimento a ver o que está parado? De pé, ao sol, numa praia; molhado em cima de uma rocha, nas ilhas; desesperada, caída, na água do mar; calma, quieta, numa fotografia? É viver, é sentir, é – o que é, 24 vezes por segundo?

Pela Estrada – Série II

A partir de segunda-feira, cinco minutos por dia / cinco dias por semana (com uma playlist musical para o fim de semana), um podcast sobre uma road trip caseira, sobre palavras e imagens, ações e reflexões, dor e humor, amor, cinema e roque éne role — enfim, sobre a vida, num estado de emergência constitucional. Disponível em todas as plataformas (Apple, Spotify, Google) e em https://soundcloud.com/user-771139576. Primeiro episódio aqui. Venham viajar daí, pela estrada. Até já.

 

Há palavras que são tão geográficas como exóticas, que nos fazem duvidar da sua própria realidade. São tão fantásticas, surreais, sedutoras – verdadeiras palavras-poema. Penso nisso quando me lembro da palavra “Samoa”. Não sei porque é que me lembrei, de repente, no meio de uma quarentena forçada, da palavra “Samoa”, que para além de uma palavra é um local real, ou seja, que existe, no meio de tantos outros, neste planeta. Mas é impossível não sentir que Samoa não é mais do que um sítio ou local, de que a Samoa não é um filme, uma história que clama, como tantas outras, por ser vivida de forma única e especial. Estou a pensar na palavra, no que é e no que representa, enquanto lavo a panela de restos de papas de aveia que ficaram presos depois da confecção. Depois olho para o mapa dos EUA que está afixado numa das paredes cá de casa, que na realidade é um mapa das EUA e do Canadá, e pela mesma ordem existencial que a palavra Samoa se intrometeu na minha experiência pessoal reparo na palavra “Winnipeg”, um ponto no centro-norte do mapa. A palavra Winnipeg podia ser uma canção, tem sabor disso. Não sei nada sobre o Winnipeg, tal como não sei nada sobre a Samoa. Resolvo procurar na internet; a primeira informação que me aparece no Google é de que o Winnipeg “é a capital da província canadense de Manitoba. Seu centro é The Forks, um local histórico na interseção entre os rios Red e Assiniboine, com depósitos transformados em lojas e restaurantes, além da ampla área verde dedicada a festivais, shows e exposições. Perto dali, o Exchange District é conhecido por sua arquitetura bem preservada do início do século 20 e suas várias galerias de arte“. Tantas e bonitas palavras, tantas ficções-reais, tantos filmes e canções. Imaginei-me um dia no Manitoba com a Carol, a passearmos por Winnipeg, observando quadros no Exchange District e, quem sabe, nadando nos Red e Addiniboine, procurando alguns shows para ver antes ou depois do jantar. E de manhã, enquanto nos arranjássemos para sair, aproveitaria para escrever algumas notas no caderno, pequenos postais sobre o sonho que as coisas e os seus nomes, quando vividas e sentidas, são.