Ir de viagem

Defini há muito tempo a partida como um ponto fixo no meu calendário existencial. Há um antes e haverá um depois. É difícil que assim não seja quando temos uma viagem ou um período longo fora de casa com regresso marcado. Há sempre um antes e um depois. Nunca sei bem o que será o segundo. Antes das viagens não sinto um entusiasmo ou ansiedade muito declarado, embora saiba que por dentro já tenho o foco no lugar. Quero lá chegar, abrir a porta da nova casa e instalar-me no novo quarto, com as malas no chão e o corpo na cama. Quando fechar os olhos concluo o trajecto de horas e quilómetros que fiz antes e quando acordar já começa tudo ao ritmo imprevisível da novidade do espaço e do tempo. E aí sei que os dias serão o que tiverem de ser. Há ideias, e há projectos — e há planos, alguns mais abertos e outros mais delineados. Veremos como sucedem. Não pensei muito neles nesta última semana, confesso. Aproveitei para dizer os até-jás, para comer o que não vou poder comer durante quatro meses, para estar com quem quero. Para passear onde não vou passear e para festejar o que não vou, pelo menos em pessoa, viver nestes tempos. Quatro meses é pouco dentro do grande esquema das coisas, mas se virmos bem estamos a falar de um terço do ano. Quando voltar será o fim da Primavera e já deverá haver sol e praia, e é a única coisa certa que sei. O resto nem suspeito. Vou de peito aberto e acho que é tudo o que basta. Apetece-me muito sair e estar longe, confesso. É uma óptima maneira para me (des)concentrar. As viagens são as melhores formas de nos tratarmos e mexermos por dentro, com a desculpa de ver coisas novas que nos tocam de alguma forma sublime mas profunda, provocando-nos interiormente  na nossa individualidade. Acho que o mundo é o melhor catalisador existencial que há. De que forma serei provocado, tentado, provado, tocado e sentido? Não sei. Nem faço a mínima ideia. Como no poema quase apostólico de Ruy Belo (adaptado à figura deste que vos escreve) “Está sereno” o viajante, que procura “pôr o rosto do senhor por trás das suas palavras / Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.” E é isso, e apenas quero ir. O depois, logo se vê. Até já, pessoal. Vemo-nos no Verão.

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Banda sonora invernal

Metro do Rato, sexta-feira: um jurista académico em despedida do inverno lisboeta ouve o guitarrista diletante das nove da manhã, na entrada da estação. Viola americana, sons americanos, aqueles instrumentais simples que são mil paisagens. Tocando de pé, trocam um aceno e obrigados mútuos. O jurista agradece pela música, que lhe embala o pensamento e prevê a viagem seguinte. O músico agradece pelos trocos que o jurista lhe dá. Transações simples e gratificantes, para começar o dia da melhor maneira, numa sexta-feira. Ansiedade de estrada? Nenhuma. Apenas a espera serena de uma partida iminente. Até lá, é aproveitar. Assim.

Saber dizer adeus

O autor sai de casa às quatro da tarde e está um tempo porreiro. Está também uma luz porreira, de final de dia. Parece, na óptica subjectiva do autor, uma luz de Verão. Mas é Inverno, e estes são os últimos dias de Inverno lisboeta que o autor vai viver este ano. Saboreando essa luminosidade, o autor segue o seu caminho urbano, igualmente porreiro. Ao passar na Rua da Bela Vista à Lapa repara na imagem em frente, da rua composta por uma estrada ladeada de prédios, avançando até ao fundo, quando depois do cruzamento se torna na Rua de S. Bernardo. Talvez seja da luz, mas o autor que passa pelo menos duas vezes por dia por esta rua todos acha-a mais engraçada hoje. É uma rua sem graça nenhuma, no resto dos dias, mas hoje a banalidade dá-lhe algum charme. Se calhar é do tempo, ou da luz. O autor já não pensa nisso quando entra no jardim, porque no jardim já está a ouvir as misturas do disco. O autor está a gostar, e muito, das misturas do disco. Tem pena que os seus édefones tenham um dinamismo algo chato que torna as guitarras um pouco estridentes. Mas fora isso o autor segue caminho com as canções nos ouvidos, à caça de um erro ou pormenor ao lado nas faixas. Até agora, até à canção três, tudo parece bem e maneiro. O autor entretanto caminha a passo médio, aproveitando a luz da tarde. Chegado ao outro jardim acaba por se sentar num banco perto do lago. Olha à volta e vê a seguinte imagem. Um casal, e três pessoas singulares, todos espalhados e sentados (excepto uma, que está deitada) perto da margem do lago, virados para o vidro do grande auditório. Atrás, no início da descida para a margem está uma árvore. Em frente está o céu, dourado pelo sol claro que se começa a preparar para desaparecer. Nenhum ouro fica, já dizia Robert Frost, mas enquanto dura é bonito.  O autor imagina um teledisco para a canção que toca agora, composta apenas de uma guitarra e voz, onde o autor repete no refrão a frase — e a verdade — “eu / não sei dizer adeus”. O teledisco é composto do seguinte cenário: um céu dourado com um lado por baixo, e uma série de pessoas sentadas ou deitadas na relva junto à margem. Algumas lêem, outras namoram, outras dormem, outras conversam. Outras estão, apenas, ali. A “câmera” vai se aproximando de cada pessoa, de cada gesto ou cara, por vezes de frente e por vezes por trás. E às vezes a imagem fica focada na placidez da água do lago. A canção continua a tocar até ao último acorde. O autor está a olhar para a água e por um segundo fica assim: parado a olhar para a água, sem mais nada na cabeça. Está, simplesmente. É uma sensação tão pacífica. Como no silêncio que se fez junto às pedras quando alguns patos começaram a descer para a água, alguns momentos depois. É bom ter essa liberdade, de fazer silêncio e deixarmo-nos estar nele. É mesmo bom. O autor aproveita e deita-se, enquanto nos édefones a sua própria voz lhe diz para olhar o céu. Em vez de obedecer a si mesmo repara nos patos que estão a ser alimentados por um casal de idosos. Os patos são bonitos, têm cores e bicos bonitos, e penas cuidadas. Até os patos neste jardim são bonitos, pensa o autor. Alguém deve tratar deles, alguém deve cuidar da sua estética e imagem. Deve ser importante ter patos bonitos neste jardim, para não descurar com o resto. O autor pensa depois o quanto gosta de jardins. É uma constatação recente, esse gosto. Pode ser da idade, pensa o autor. Se calhar está a amolecer. Ou se calhar não. Se calhar está só a saber, mas melhor. Mais tarde, já sem sol e com mais vento, o autor vai sair do jardim e voltar para o metropolitano e seguir. Vai ouvir as misturas mais uma vez, considerar mais uma vez que a faixa número cinco é a melhor música que alguma vez criou, vai comprar uma prenda de anos e depois vai voltar para casa. O autor hoje decidiu sair porque estava um dia de sol. O trabalho podia esperar e era bom despedir-se da cidade nestes dias de sol. É bom (pelo menos, tentar) saber dizer adeus, mesmo quando sabemos que voltamos. Porque nunca voltamos da mesma maneira que saímos, mesmo que no essencial estejamos intactos. É isso que pensa o autor, quando volta a abrir a porta, neste último dia de Janeiro.

Lisboa

“Lisboa não é boa sem ti por cá. Ando muito à toa, sem ti por cá. E sinto, quando desço ao Rato, que és a única sacana na cidade que me pode aturar.

E Lisboa não é boa sem ti por cá. A baixa não tem coroa sem ti por cá. E eu sinto, quando estou no Chiado, que és a única sacana na cidade que me pode salvar.

E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína, mas por ti, miúda, eu sei que voltaria. E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína. Mas por ti, miúda, eu sei, que voltaria.

Lisboa não é boa sem ti por cá. Ando pelas lonas, sem ti por cá. E eu sinto, quando vou de carro que és a única sacana na cidade que me (a única sacana na cidade que me; que és a única sacana na cidade que me) pode perdoar.

E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína. Mas por ti, miúda, eu sei que voltaria. E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína.

Mas por ti, miúda, eu sei que voltaria.”

Tradução (médio-livre) de “New York” de St. Vincent, do álbum MASSEDUCTION, Loma Vista Recordings, 2017.

A minha casa é (remix de fim de semana)

A minha casa é… não. Não. Outra vez. A minha casa é… Hum. Bem. Se calhar é melhor começar assim. Estou. Isso, assim. Estou na sala de estar de casa a escrever. Não. Já sei. Estou no terminal dois do aeroporto de Lisboa à espera de embarcar para Dublin e reparo que a fila de embarque prioritário da Ryanair tem o dobro do tamanho que a fila não-prioritária e penso que isso subverte de forma algo irónica todo o conceito da ideia de embarque prioritário. Não. Não, desculpem. Não estou aí. Afinal estou sentado num pub em Belfast, Irlanda do Norte, a beber uma pint de cerveja (marca: Nicholson) a meio de uma tarde de quinta-feira, em frente a um hotel que foi bombardeado éne vezes durante a época dos Troubles, ou so it goes. Ironicamente ou não, o hotel chama-se Europa. Não. Não, não, estou num outro pub em Belfast, longe desse hotel e do meu hotel, perto da Catedral de Santa Ana, e estou de pé a beber uma pint (marca: Guiness) e tenho soutiens e cuecas de renda pendurados por cima da minha cabeça. Mas será isso? Ou será que afinal estou em Lisboa, sentado num banco no jardim da Estrela em frente à estátua do actor Taborda, pelas oito da noite, acabado de voltar do ginásio? Ou estou no jardim à mesma, e à mesma de noite, mas agora de pé e à porta, do lado da Basílica da Estrela, observando o senhor africano de casaco twee, camisa vermelha, calças escuras, barba branca e cachimbo fino, sentado num banco e iluminado cinematograficamente por um candeeiro? Ou porque é que não estou num banco de autocarro a viajar pela estrada de Dublin para Belfast e a fazer vídeos das árvores que passam na janela e a rir-me com episódios soltos de Master of None? Se calhar sim, estou numa estação de autocarros — que, ironicamente, se chama Europa — em Glengalle Street, Belfast, protegido do frio graças ao meu mega-casaco polar recentemente adquirido, a escrever um postal sobre Belfast cujo conteúdo vai ser descartado ainda no aeroporto e aproveitado no sábado de manhã, na sala de casa. Sim, porque estou no aeroporto de Dublin na zona de chegadas às três e vinte da manhã a pensar na distância e no silêncio e nas despedidas. Tenho estado a ler sobre o silêncio quando ando de metro, em Lisboa, de manhã ou de tarde, e a pensar nas despedidas e na distância quando estou a deitar-me, de noite, em Lisboa e em Belfast e no aeroporto de Dublin. Estou em Lisboa, isso sim, deitado no sofá da sala num domingo à tarde a ler sobre algoritmos e a espreitar o telemóvel para ver como anda o mercado das criptomoedas, embora de manhã estivesse a corrigir exames e a ler sobre o vigésimo slam de Federer. Mas sem saber ler nem escrever estou a falar sobre o Natal em Lisboa com Gilbert e George (estes) numa sessão de autógrafos no MAC e estou a voltar para casa do Cais do Sodré pela 24 de julho à uma da manhã de uma segunda-feira. Estou numa pista de aeroporto em Dublin às cinco da manhã a apanhar chuva, a caminho do avião, passando pelo meio de outros aviões e carros com malas e pessoas com fatos fluorescentes e estou a cantar em voz minimamente alta a Deus para que me dê a “voz do Frank Ocean” e a “ginga do James Brown” e a imaginar um musical no aeroporto com os fatos fluorescentes a bradarem as luzes e os passageiros a dançar por debaixo dos aviões esta malhona do Will Toledo e companhia. Que parvoíce. Estou mas é a curtir o sol que me bate na cara com um casal amigo, sentados num restaurante moçambicano na Mouraria, a comer camarão com quiabos e a beber cerveja local. E é bem bom, mas depois ou antes ou o que foi já estou a subir a Álvares Cabral com o Madeline na cabeça, o que significa que estou já a fazer versões do Madeline na minha cabeça, nas quais acentuo o som nasal no ‘ê’, do género “Madalena / não vale a pena / Madalena / qual é a cena”. Entretanto passo a rua com o semáforo vermelho. E estou no pub The Crown Jewel outra vez — em frente ao hotel das bombas, lembram-se? — mas desta vez a beber um copo de vinho branco ao balcão e a olhar-me ao espelho. Faço um brinde, e fico a pensar na morte da bezerra durante uma hora e tal. Depois de duas horas e tal de avião estou no metro de Lisboa outra vez, com um mega-casaco polar que é exagerado para o tempo presente e são dez da manhã de sábado. Estou com ar de quem dormiu três horas e meia, divididas irmamente entre um autocarro, um aeroporto (chegadas e partidas) e um avião. Não mudo de roupa há vinte e seis horas e pouco. Mas estou a comer uma bola de berlim na pastelaria Pão Doce com um amigo e a sair do metro no Rato com o Cute Thing dos Car Seat Headrest aos berros nos édefones e é como se nada fosse e paro de andar sempre que há um “tudududududu” e depois recomeço quando as guitarras entram. Que parvoeira, eu sei. Mas estou agora e ali e acolá e neste fim-de-semana a sentir o mesmo conforto que senti quando, na estação Europa, peguei na mochila e levei-a só com uma pega posta até ao autocarro. Um conforto “‘bora lá”, “siga”, “tranquilo”, se é que (não) me entendem. Uma sensação de invencibilidade e força, algo ridícula e sem uma justificação aparente ou pelo menos imediata, mas bem real — acreditem. Estou, basicamente, num sítio, e depois a caminhar. E sempre a aproveitar quer o sítio, quer o caminho. Parece fácil, ou pelo menos simples, mas é só bom. É bom como estar em casa. E é isso. Voltando ao princípio — ainda se lembram? — diria: a minha casa é um jardim lisboeta, ou um livro lido no metro, uma viagem de autocarro pela Irlanda ou uma viagem de avião continental, uma série de comédia ou um filme surrealista ou uma ou duas ou mil canções americanas, um livro de filosofia manhosa, um simples passeio numa rua da minha cidade ou uma viagem relâmpago ao Reino Unido, uma infinitude de caminhos e viagens ou, por fim, como escreve de forma certeira Ben Lerner (nota: senão leram ainda vão já a uma livraria pegar nesse assombro de livro que é 10:04) a minha casa é “an actual present alive with multiple futures”. E é isso. Só?

Pequena coleção de frases murais de Lisboa, transcritas literalmente e em jeito de cadáver esquisito

“Olá”

“Amo ninguém”

“… E o Estado social, pá?”

“Fraco.”

“Servicismo turístico é pra burros

“Vida dura…!”

“Squat”

“Cada eu que digo é outro.”

“Stop nasty laws”

“Foice o tempo / PRÉDIO”

“Se eu fosse você o outro era quem?”

“Sopa”

“Baco = Snitch”

“RIP Motel”

“Medina / Madonna”

“Se só pensas em dinheiro, procura outra casa de banho! Esta está ocupada!”

“Que se foda a musa.”

“haverá sempre am<3r na sala”

“há mais vida que isto!”

“Turismo o caralho!”

“Be where? Be rave!”

“e o Estado independente kaloteiro?”

“Foda-se, cala-te caralho!”

“Eles cortaram o queijo com a máquina do fiambre”

“Dá fruta”

“Chop suey”

“She left him / know she shags a kiwi guy and luvs it!”

“Ana Carina”

“Love is possible”

“portugal o mesmo monárco-fáxo avarento / é só luxúria-boémia-wars (…)”

“O Vítor Kiala é guy!”

“USA nazi nuclear”

“ÁCIDOÁCIDOÁCIDOÁCIDO”

“A saudade faz o que foi melhor do que era”

“What was that about a black marker??”

“1 é pouco / 2 é bom / 3 é demais”

“Vidas.”

“Amo… você”

Regressar do cinema

O carro continua a andar e a canção volta a subir de volume. O ecrã fica escuro e entram os créditos finais. A canção ainda toca. É muito bonita, muito pretty. “Pretty songs and pretty places / Places that I’ve never seen / Pretty songs and pretty faces / Tell me what their laughter means”. Está calor de repente, ou se calhar sou só eu. Se calhar é do filme e do que ele provoca. É um filme sobre a redenção, e sobre saber dizer adeus ao que foi. Ou é outro? Agora a sala está algo fria, mas não tem que ver comigo. No ecrã está a cara do actor face à lareira, com outra canção a tocar. É uma canção de despedida, também bonita, mas menos. O filme também é, em parte, sobre isso: saber dizer adeus. Quer num quer noutro final saio da sala ainda às escuras para a luz do lobby, das escadas, da entrada do centro comercial. É tarde e devia apanhar o metro, mas não me apetece. Apetece-me andar, e apetece-me a gravidade silenciosa que só um passeio traz. Já fiz este caminho tantas vezes. Há anos que o faço. Fi-lo depois de vários momentos, mais alegres e mais difíceis. E agora estou a fazê-lo, por duas vezes. Passo por uma Zara, duas vezes. Passo por uma loja de lingerie, duas vezes. Passo por um café-barra-restaurante onde costumava ver jogos de futebol quando tinha quinze anos e por um prédio em obras cujos cálculos das estruturas foram feitos em parte por um amigo meu. Duas vezes. Ainda apanho frases escritas nas paredes na primeira — na segunda nem olho. Penso nos filmes, nos seus finais, mastigando o impacto. Deixo a canção sussurrar-me na cabeça o refrão. “Pretty songs and pretty faces / Tell me what their laughter means”. E deixo-me ficar assim a andar, pelo meio da noite.

Angola street blues

Estás a andar de manhã a pé pela Pascoal de Melo, fotografando de forma descarada frases desenhadas ou coladas nas paredes, portas ou caixotes da rua, porque desde há uma semana que a tua atenção tem capturado pequenos escritos e pensas se isto é uma cidade de poetas ou se é a cidade em si que é um poema imenso, e enquanto desces a Almirante Reis olhas para muitas coisas porque é de manhã e é sábado e estás com poucas horas de sono mas sempre atento, e olhas para multibancos que estão colados a lojas de indianos e pensas numa história em que há um tipo que anda de manhã na rua e olha para uma caixa de multibanco colada a uma loja de indianos e que tem um amigo que cria uma teoria da conspiração absurda e racista sobre como estas máquinas sugam-te o dinheiro e os dados que os dados hoje em dia são como o dinheiro, e pensas que um dia devias apontar estas ideias para escrever, no meio de tudo o que já escreves, um livro de contos ou micro-contos absurdos sobre todas estas personagens que queres inventar, como aquela personagem que era uma telefonista nos serviços centrais do Estado e que escolhia a música que soava quando um telefonema estava em espera nas conservatórias, ou no fisco, ou na segurança social, enfim, uma daquelas ideias que tinhas quando ficavas no escritório horas a fio a ligar para o fisco, para a segurança social, para as conservatórias e ouvias tanta música ao telefone, coisas lentas e rápidas e pensavas quem é que escolhia estes sons, será que alguém escolhe estes sons, será que dá para alguém escolher estes sons, e depois viras para a Rua de Angola e vês um cartaz colado com fita-cola numa caixa de electricidade e que anuncia uma festa rock no Cais do Sodré e pensas sobre quando é que foi a ultima vez que foste a uma discoteca a uma festa assumidamente rock e pensas se foi em Edimburgo, no Liquid Room, que era um espaço horrível mas com sextas-feiras incríveis, em que numa noite fechaste a pista e o dê-jota pôs a tocar o The boy with the Arab strap dos Belle and Sebastian e tu estavas conquistado e bêbado e havia uma miúda a dançar com o namorado e puxava a saia de um lado para o outro na pista, e agora passas por algumas miúdas altamente arranjadas, com roupas novas e sapatos bonitos e maquilhagem segura, e são nove e tal da manhã e elas estão já assim enquanto tu estás de calças de fato treino e camisola vermelha e óculos escuros pintas e com um cabelo que denuncia que acabaste de sair da cama e estás no cruzamento da rua de Angola com a rua do Zaire e pensas que gotta love these streets of Anjos e os seus nomes, e gotta love these streets of Anjos e Intendente onde parece que descobres sempre coisas novas como uma festa escondida num bar soturno ou salas de café estabelecidas em casas abandonadas e pensas como é que vais jogar squash hoje, squash que é um desporto posh — “squash é posh” era uma boa frase para escrever na parede — e destrutivo e que já não jogas há eras, mas vais, disseste que ias e chegaste à rua de Angola para apanhar boleia e vais, e jogas, e apanhas uma coça e ganhas três jogos em tipo mil (ou vinte, já não me lembro da conta) e na boleia de volta ouves Prince — na ida ouviste Springsteen porque quem sabe sabe — e está um grande dia de sol mas tu queres casa e vais para casa, vais para o metro e lês no metro, e reparas que o balão dourado do canal Panda que está há uma semana no tecto do metro do Rato ainda não saiu, e que até não combina mal com o mural da Vieira da Silva, mas são gostos e são os teus e sobes para o jardim da Estrela e apanhas mais umas frases na Álvares Cabral e pensas no postal que vais fazer com as mesmas, e que escreveste enquanto esperavas entre derrotas de squash, e pensas na poesia de algumas frases e não é que ao chegares a casa apanhas uma poeta com óculos à Dylan e dizes-lhe um “oi” e bom fim-de-semana e depois cais em casa e tens a tarde para ti e vês dois episódios de uma série indie-lamechas que malta que tu achas que sabe sabe adora e tu pensas “como é que é possível que esta malta que sabe sabe adore esta lamecheira” e vais dar a oportunidade até ao fim só porque dás a oportunidade aos teus amigos e, por fim, ficas sentado no sofá a ler e a deixar que tudo venha à cabeça sem grande controlo, porque olha, hoje podes tê-lo todo, o descanso, a pausa, as dúvidas, tudo tudo, podes tê-lo tudo. A vida segue.

Os últimos dias nisto

E saio do teatro e vou para casa. E penso nas referências a Pasolini que a peça tem. E penso no bom trabalho dos actores a lidar com aquela violência e misericórdia que é ser uma personagem de Máximo Gorki. E oiço as canções, italianas e alemãs que soaram, e estou de casaco aberto, porque a noite está fria mas eu estou quente. E desço a rua Áurea e oiço um dedilhado de uma guitarra reverberada. E a melodia está no limite do foleiro mas até calha bem naquele momento. E subo as escadas do elevador de Santa Justa e vejo o tipo de rastas com a guitarra a tocar. E fico nas costas dele, de frente para os três casais que se sentaram nas escadas a ouvi-lo. E depois passo-lhe pela frente e deixo-lhe uma moeda e sigo o caminho de volta. E depois irrito-me por a paz ser quebrada por um táxi com a janela aberta a disparar kizomba a volumes impróprios. E digo ao táxi “chiu!” enquanto ele desaparece. E continuo a andar e olho para a direita e vejo à porta do metro um casaco vermelho com duas mãos dentro e depois olho para a esquerda e vejo a rua e depois continuo. E apetece-me ouvir uma canção, não a reverberada nem a kizomba, mas uma que me dê abrigo. E então tiro os édefones e ponho a canção a tocar. E tenho de desligar os édefones e de voltar a ligar mais duas vezes porque o meu telefone está maluco e entra em modo voice-over quando se inserem os édefones. E depois já está tudo bem e estou no Terreiro do Paço e não está quase ninguém por lá e eu olho e penso “uau, está uma noite bonita” e sento-me num banco de pedra. E o banco de pedra está frio e a canção está alta demais e eu carrego no botão e ponho três canções para a frente. E viro para a direita e passo ao lado da Marinha e olho para o rio e depois olho para o chão e depois olho em frente. E enquanto ando oiço a canção. E a canção diz “sê feliz”. E eu até sou feliz e estou contente. Contente com a forma como os dias correm. E a canção diz para eu não sentir a falta. Mas eu sorrio e baixo a cabeça e ainda sinto a falta. Ouço a canção, deixo de sorrir, levanto a cabeça e suspiro. E ainda sinto a falta. E é o que é. É o que é. Onde eu pertenço — é o que é. E estou de mãos nos bolsos e mal a canção acaba desligo os édefones e continuo a andar. Onde eu pertenço, é o que é.

Dez canções para começar a semana

1. May your kindness remain, Courtney Marie Andrews. Um vozeirão country numa música que vai crescendo aos poucos em potência e beleza.

2. What a time to be alive, Superchunk. Os Superchunk vão voltar em breve com mais do mesmo, o que é sempre bom. Canção directa ao assunto e com um refrão mobilizador.

3. Every time the feeling, Nap Eyes. Rock maduro, a lembrar os Velvet Underground, com um balanço muito porreiro e simpático.

4. Jesse, Frankie Cosmos. Bom regresso de Greta Kline após dois anos. É mais do mesmo, e como no caso dos Superchunk, é isso que se quer. Pop de quarto limpa, simples e bonita. Siga.

5. USA, Jeff Rosenstock. Um disco de punk-rock sempre em frente, que bebe muito na força dos Pixies, e uma canção que é uma viagem autêntica de saltos e destruição.

6. Follow me down, Renata Zieguer. A voz lembra-me a Natalie Pratt, terna mas assertiva ao mesmo tempo. O ritmo é divertido e o tom deslumbrado; prevê-se aí um grande álbum.

7. 2 minutes, cupcakke. O beat e o flow da menina são contagiantes. Às vezes, como em Duck Duck Goose dá-lhe para uma javardeira tremenda, mas há aqui talento. O disco tem força e swag: há rapper para dar força neste início de ano.

8. Soul no. 5, Caroline Rose. A primeira canção assumidamente pop e que ouvi este ano. Vai soar bem em viagens de carro e corridas soltas

9. Taste, Rhye. Bom som dos Rhye, suave e sedutor, para entreter.

10. You are here, Yo La Tengo. O trio ternura regressa com um álbum em Março. Por agora há quatro canções de “There’s a riot going on” disponíveis para escuta. À primeira, é o calor de sempre com um travo mais beatlesco do que o normal. Ou seja, bom, bom, bom.

Resenha televisiva

No final do ano passado e no início deste ano vi duas séries que me prenderam bastante. Têm como pontos em comum a produção (são ambas da Netflix), o tamanho dos episódios (não mais de 30 minutos) e a simplicidade formal que esconde, de forma subtil, uma óptima ideia. Parecem algo que não são, porque no fim são muito mais do que aquilo que parecem. A primeira é The Good Place. “Parece” uma comédia aparentemente leve, ligeiramente simplória, sobre um grupo de pessoas que morre e vai parar ao além e espera aí ter encontrado o descanso eterno (só que não). Mas à medida que os episódios passam e a narrativa avança somos levados para discussões sobre os grandes temas da vida e da existência, sobre o que somos e o que fazemos, o porquê do bem ou do mal, com um nível de piada refinado e spot-on. As personagens são muito boas e cativantes; Kristen Bell e Ted Danson lideram um elenco em estado de graça. O humor é arrojado e os temas sérios são muito bem tratados. A segunda é American Vandal. É um mockumentary estupidamente bem feito, que “parece”, durante largos momentos, apenas uma piada formalmente muito bem conseguida a troçar com os maniqueísmos dos programas de investigação que andam na moda (Serial, The Jynx, Making a Murderer) e dos problemas que estes levantam na busca da verdade. Mas aos poucos vamo-nos apercebendo, até chegarmos ao um final desarmante, que a série é, isso sim, um retrato de uma cultura. É uma série sobre a cultura de liceu, dos adolescentes millenials que se procuram afirmar e / ou proteger durante o período mais entusiasmante, livre, mas também mais conturbado das suas vidas em termos de definição de personalidade. O humor chega a ser tão mas tão parvo (é impressionante o trabalho de Jimmy Tatro, o actor que interpreta o anti-herói Dylan Maxwell), mas feito de forma tão mas tão inteligente que só aumenta os risos. A primeira ainda continua, a segunda vai a caminho da segunda temporada. E isto é que eu chamo bom entretenimento: divertido, feito com cabeça, tremendamente bem escrito e “falsamente” simples, no melhor sentido possível.

The Good Place - Season 1f78d83bc34b544af

Rua da Lapa blues

Subo a Borges Carneiro pelo lado esquerdo. A passada é rápida, como de costume. Está frio e vão circulando músicas pela cabeça. Passa o Linger dos Cranberries, derivado da notícia do falecimento da vocalista. Passa o início do Everyday dos Yo La Tengo, derivado concerteza da notícia da sua vinda ao Nos Alive! em Julho. Passa esta e de repente apetece-me ouvir o And Then Nothing Turned Itself Inside Out outra vez, como quando punha o disco a tocar sobre tudo o que estava a fazer. Não sei se é da noite, do frio, dos candeeiros amarelados da rua. Estou a entrar na rua da Lapa e não se vê vivalma. É relativamente tarde, mas nada de mais. É segunda-feira, mas nada de mais. Quando começo a descer a rua desacelero e começo a andar mais devagar. É um esforço progressivo e natural. Sinto-me confortável e aquecido com a lentidão adoptada. Olho para as casas à esquerda, para a textura da pintura de uma casa à esquerda. É um verde-água engraçado. Não passam carros, não há pessoas. Depois paro em frente à minha rua e antes de começar a descer olho para o fundo de tudo. Aquela vista do rio e etc, do céu e etc, da outra margem e das luzes e das luzes dos barcos e reflexos na água e etc é o que é. Falei duas vezes hoje, em conversas distintas, sobre clichês que são verdades evidentes e imperturbáveis. Esta vista — ou melhor, o valor desta vista — é claramente um desses clichês. Desarma-me cada vez que a vejo. Mas hoje está diferente. O céu está claro, salvo alguns traços de nuvens ao longe. Parece um céu de Verão, ou pelo menos dá-me essa sensação. Aquela sensação de final de dia de Verão, quando estamos abraçados por uma felicidade cheia e despreocupada. Como se aquele céu e Verão e sensação fossem eternos, um espaço de calor e amor e verdade e vida e alegria e entusiasmo que nunca, nunca vai acabar. Não sei se a sensação me vem pelo céu ou pela lentidão ou pelo silêncio. Jon Fosse fala da majestade do silêncio, semelhante à de um oceano. É tarde mas não me sinto cansado. Devia, porque tenho de acordar cedo, mas não. Nada mesmo. Começo a descer a rua e paro outra vez. Fico parado e gravo uma nota no telemóvel sobre o que estou a sentir. Sinto uma calma e uma paz. Se pudesse ficava aqui toda a noite, assim. Nem sequer me apetece falar — a voz sai-me (e confirmo de manhã, enquanto escrevo) esparsa e sussurrada. É uma coisa bonita, sussurro para a nota do telemóvel. É possível que daqui a uns meses, anos, sei lá, quando voltar a passar aqui de noite depois de me mudar volte a pensar nisto e nesta imagem e do quanto ela me preenche. Vou ter algumas saudades, sussurro para a nota do telemóvel, é uma rua bonita. De repente ouve-se o som de uma bicicleta a travar. Continuo a descer para casa, e lembro-me do que me disseram hoje, sobre como é um luxo poder ter espaço para receber estes momentos. Ainda não estou cansado. Fecho a porta e a rua fica, majestosa, lá fora. O disco volta a tocar.

Romance académico

Contaram-me uma história. A história é a seguinte. Um rapaz está numa faculdade de direito a fazer um exame escrito. Vamos chamar-lhe “o aluno”. O aluno é estrangeiro, mas percebe, fala e consegue escrever em português. O aluno está nervoso porque é um aluno aplicado que costuma ficar nervoso quando faz exames. O exame versa sobre teoria do crime. No enunciado está descrito um caso prático. É dito que o crime em questão, no caso prático, foi cometido “por amor”. O aluno olha para o caso prático. Lê muito bem o caso e os problemas que ele implica. Depois rabisca algo na folha de rascunho. Abre o código penal, leva a mão ao queixo, pensa. Depois pousa a caneta e a folha e o código e fica só a olhar para o enunciado. Pensa, pensa e sua. Está nervoso porque é aplicado e porque há algo no caso que o põe nervoso. De repente levanta o braço. Um dos assistentes que vigia a prova vê o braço levantado e desloca-se até ao aluno. Pergunta-lhe, em voz baixa, “Sim?” E o aluno, falando de forma suave e com um sotaque subtil diz: “Tenho uma dúvida”. “Diga”, responde o assistente. O aluno olha para o enunciado e depois olha para o assistente. Olha para o rabisco, para a caneta, para o chão, e depois para o assistente. Está nervoso e a ganhar coragem. O aluno está mesmo muito nervoso, porque é muito aplicado e tímido e sem grande jeito para assumir fraquezas ou dúvidas. O assistente olha para ele. O assistente não é desta área científica. Só sabe o básico de crimes e pouco mais. No entanto, já tem alguma experiência a vigiar exames. Consegue perceber que o aluno está algo nervoso. Já viu isto várias vezes, antes. Consegue perceber que vem aí uma grande dúvida. Já viu isto várias vezes, antes. Já sabe o que vai responder porque já respondeu várias vezes. “Não sou da área. Não sei. Leia outra vez. Pense. Respire fundo. O regente já vem aí. Responda à próxima e deixe essa para o fim. Tem x tempo ainda. Não posso responder a isso”. Etc e etc. Entretanto o aluno respira fundo. Olha para o enunciado, para o chão e para o assistente e repete a sequência mais duas vezes. Até que, finalmente, diz: “Estou muito confuso com um elemento do caso prático. É o seguinte”. O assistente chega-se mais perto para ouvir. O aluno respira fundo. E depois diz.

“Eu sei o que é a paixão. Mas o que é o amor?”

O assistente olha para o aluno. O aluno olha para o assistente. O aluno está mesmo muito nervoso e confuso e se lhe gritassem “BU!” nesse momento ele iria cair ao chão com uma paragem cardíaca. O assistente olha para ele da forma com que os assistentes olham quando os alunos lhes colocam dúvidas — com um olhar muito fixo e seguro para esconder o que quer que se esteja a passar na sua cabeça nesse momento. Depois o assistente olha para a mesa e depois para a janela. Está um dia de sol lá fora. Depois vira-se para o aluno. “Vou chamar o regente”. E foi. Fim.

Relato teatral

Fui ver a peça Nous Deux Maintenaint de Jonathan Capdevielle à Culturgest. Comprei o bilhete há cerca de duas semanas. Tinha ficado com a ideia, quando o comprei online, que a sala estaria composta. Era quinta-feira e quando cheguei vi pouca gente. Sentei-me e estava, de facto, pouca gente a assistir. Se tivesse de quantificar, diria cerca de vinte e cinco pessoas. A peça estava no grande auditório. Durava três horas. Era baseada no livro “O Crime” de Georges Bernanos, um policial dos anos trinta. Confesso que achei o texto algo confuso e pesado. Era difícil seguir a narrativa e o drama ao mesmo tempo, se é que me entendem. Como se a ideia contaminasse de tal forma a história que destruísse o seu ritmo, até se tornar numa meditação sobre a identidade, a verdade e o amor. Era giro, mas algo ambicioso demais. A encenação era provocadora, bastante moderna, e achei o cenário engraçado. A primeira frase da peça é: “Nasci a vinte de Fevereiro de mil oitocentos e oitenta e oito”. Exatamente um século antes do meu nascimento. Achei que isto poderia querer dizer qualquer coisa e tentei ficar mais atento. Mas o início da peça era particularmente difícil, porque era feito quase todo às escuras, só com duas vozes e as legendas projectadas no fundo. A peça depois vai crescendo e a dado momento já percebemos que estamos perante um espetáculo interessante, mas não mais do que isso. E foi aí, quando já estava confortável em termos de cansaço e resignado perante o que estava a ver que olhei para trás. Estava na coxia da quarta fila a contar do palco, na secção do centro. Só havia uma pessoa na fila da frente. Olhei para as pessoas que estavam atrás de mim. Nunca tinha olhado para as caras das pessoas quando vêm teatro. No cinema sim, no teatro não. Observei. Algumas dormiam. Outras estavam muito atentas. Outras mexiam-se muito na cadeira. Tenho noção de que eu também me mexi muito na cadeira. Tinha alguma fome e a sala estava bastante fria, diga-se de passagem. Foi a primeira vez em bastante, mas mesmo bastante tempo em que vi teatro numa sala quase vazia. É estranho ver tanto espaço fora do palco. É uma sensação quase desconfortável. A dado momento a personagem principal pergunta a outra personagem se esta sonha. E antes de obter resposta diz que os sonhos — à séria — não são um conjunto de imagens desconexas e descoordenadas que se tem durante a noite, mas sim uma visão coerente com um elevado grau de verosimilhança com o mundo. Algo que nos faz acreditar na sua própria realidade. Vou ouvindo e penso: como será ser a única pessoa a ver teatro numa sala? E numa sala destas? Imaginei-me no lugar da pessoa da primeira fila. Sentada, só, perante os actores e os seus adereços e as suas palavras. Sem ninguém atrás para a apoiar. Uma peça em que os actores estão em maioria face ao público. Em que o público, que já está à mercê dos actores em geral, agora está na sua mão. Em que o equilíbrio normal do teatro — a conquista da audiência pelo espetáculo — parece mais fácil. Imaginava-me. Estaria desconfortável? Nervoso? Ou entusiasmado? Assertivo no meu olhar e apreciação? Com gosto, a saborear o momento? Ou levantar-me-ia, quebraria os protocolos e entraria no palco enquanto os actores se mantinham na interpretação de forma profissional, observando a história de perto, puxando ao limite o respeito que o espectador deve perante os artistas? E os actores? O que fariam? Olhariam para o horizonte da sala vazia, ou para mim? Seriam profissionais, ou iriam borrifar e enveredar pela displicência? Ou excitar-se-iam por terem uma vítima à mão? Quebrariam o contacto e as linhas ensaiadas e começariam a descer do palco, a ir para a sala, a aproximarem-se do meu lugar e a colocar-me cada vez mais no centro da sua encenação e obra, em contraste directo e violento, esticando ao limite o respeito que o artista tem perante o seu interlocutor? Fiquei nesse sonho, enquanto o fumo do cachimbo de uma personagem me chegava. Gosto do cheiro. Gostei de alguns momentos da peça. Gostei do cenário, composto por uma cabine que parecia um confessionário e por uma gigantesca raiz de árvore, branca, que enchia o palco. A dado momento, no fim, montava-se uma rave. Música de dança, puntz puntz da pesada. Se estivesse sozinho, ter-me-ia levantado e começado a dançar? Ou será que eles teriam vindo dançar para o meu lado? Os personagens (ou se calhar era só um, não dava para ouvir bem) berravam “Os falhados não vos irão falhar!” enquanto dançavam de forma livre e espontânea. Na minha cabeça, ao ver a legenda projectada, mudei as palavras para “Os fracos não irão fraquejar!”. Não sei porquê. Estive algo ansioso na semana passada, particularmente enquanto andava de metro. Não sei porquê. Foram três longas horas de peça e estava com alguma fome. Uma coisa de que me apercebo recentemente é de como a fome me fragiliza. Depois da rave houve um monólogo e a peça acabou e as luzes acenderam-se. Levantámo-nos todos os espectadores e saímos para a noite fria do Campo Pequeno. E a vida seguiu.

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Narrativa del camino – o dia seguinte e final

Não acordei durante a noite. Acordei só com o despertador. E depois levantei-me e tomei banho e fiz a mala e guardei a mala na sala das malas e fui tomar o pequeno-almoço. Chocolate e churros, um croissant e um café com leite. Isto porque “o trabalhador merece o seu salário” (inserir emoji de piscar o olho). O croissant veio com garfo e faca. Ri-me. Comi tudo e depois fui até ao gabinete do peregrino pedir a compostela. Cheguei e estava fechado. Só abria às dez. Então decidi ir à catedral. Cada subida era boa, cada descida um horror. A minha perna, coiso e tal. Podia ir a uma farmácia, mas enfim, coiso e tal. Entrei na catedral e sentei-me por uns momentos largos a rezar em frente ao altar. Rezei sobre a viagem, sobre o ano, sobre as pessoas deste ano, sobre o próximo ano, sobre os desejos para esse ano, e etc e é o que é. Depois levantei-me e fui rezar ao túmulo de São Tiago e abraçar a imagem do Santo. Saí e fui comprar três conchas para recordação de Natal. Apanhei a mochila no hostel e guardei o chapéu lá dentro. Já não estou em modo caminhante. Fui ao gabinete do peregrino e pedi a compostela. Depois de ma concederem segui para a estação de autocarros. Pedi o bilhete para Fátima e fui comprar comida ao supermercado. Antes de entrar meti conversa com dois peregrinos, um alemão e um sul-coreano, que iam até ao Porto. O sul-coreano tinha feito parte do caminho francês, o alemão estava a andar desde Genebra. Cerca de cem dias, disse-me ele. Mudou a minha vida, disse-me ele. Sou uma pessoa nova, disse-me ele. Depois falei com um tipo de Taiwan que estava a viajar por várias cidades europeias. Não tinha feito o caminho. Fumava, ouvia música asiática no iPad e adorava Lisboa. Fiz a viagem parte em conversa, parte a dormir. O condutor era português e trocou com outro condutor, também português, na estação de serviço de Santo Tirso. No Porto fizemos uma pausa de vinte minutos. Comi a sandes e bebi o sumo que tinha. Depois o autocarro seguiu. O segundo condutor viu um saco num dos bancos da frente que não sabia de quem era e perguntou se era de algum dos (comigo) cinco passageiros que estava no autocarro. Dissemos todos que não. Ele abriu o saco e disse “são coisas de mulher”. Voltou para trás e deixou o saco na rodoviária. Seguimos e em Albegaria-a-Velha voltou o primeiro condutor. Perguntou onde estava o saco dele, que pela descrição era o saco que o segundo condutor deixou na rodoviária. O segundo condutor disse-lhe o que fez. Quando arrancámos o primeiro condutor ficou cerca de uma hora e meia (que foi basicamente o tempo de chegarmos a Fátima) a chamar toda a espécie de nomes ao segundo condutor por ter deixado o saco dele na rodoviária. Chegámos a Fátima a horas e estava frio. Comprei o bilhete para Lisboa e fui até ao Santuário. Era de noite. Acendi três velas porque queria rezar sobre três coisas. E rezei um terço na capelinha das aparições enquanto dois miúdos brasileiros brincavam à apanhada à minha volta. Depois levantei-me e arrastei a perna de volta para a estação. O Santuário tinha pouca gente. Quando os espaços estão vazios sente-se a sua presença com mais força. Este espaço tem qualquer coisa de especial, acredite-se ou não no milagre. Não vim cá no centenário. Foi bom vir agora. A caminho da estação passei por dois, três, cinco, seis pessoas a correr. As mulheres tinham todas ténis cor-de-rosa. Os homens tinham todos camisolas escuras. E é isso. A estação rodoviária de Fátima fecha às oito da noite mas o último autocarro sai às oito e meia. Portugal bestial. Fiquei com um americano de São Francisco e com um casal de sul-africanos e um tipo português calado à espera do autocarro e ao frio. O americano falou durante um bocado e depois calou-se. Os sul-africanos só queriam falar. Não se calavam. Mas eram simpáticos. O senhor falou comigo durante toda a viagem sobre a África do Sul. Os problemas históricos da África do Sul. A situação actual da África do Sul. O futuro da África do Sul. Fiquei a saber tudo. Em resumo, diria que existe esperança, mas algum ceticismo. Disse-lhe que percebia. Estava cansado e a perna doía-me mais, mas disse-lhe que percebia. Fiz os possíveis por ouvir o senhor sul-africano com atenção e dizer-lhe que sim, que percebia. Depois em Lisboa despedi-me e fui apanhar um táxi. O taxista só falou no fim e desejou-me bom Natal. Gosto de pessoas simpáticas. Cheguei a casa e entrei ao pé coxinho. Jantei e pus a perna em gelo. Depois fui-me deitar. Cheguei ontem à Catedral de Santiago mas sinto que a viagem só acabou hoje. As viagens só acabam quando te deitas na tua cama e acordas no dia seguinte. Essa é a regra.

Adormeci com esta canção na cabeça. Cantei-a muito ao longo do dia, quer na sua versão original quer na versão portuguesa que ando a escrever mentalmente desde há uns meses para cá. A cantora Julian Baker disse uma vez, sobre a canção Badlands, que era uma música desavergonhadamente triunfante. Acho que é a melhor maneira de caracterizar Bruce Springsteen em geral. Um tipo sem medo de ser grandioso, romântico, épico e descarado. Esta canção, Thunder Road é tudo isso. E talvez seja por isso que me diga alguma coisa. Motiva, toca, não sei. And my car’s out back / if you’re ready to take that long walk / from your front porch to my front seat / the door’s open but the ride ain’t free. Não é isso que é uma viagem? Não é isso que é uma aventura? Uma liberdade, um descaramento, uma descoberta, uma  enorme “estrada de trovão” para o desconhecido?

O caminho de Santiago foi a viagem que tive em 2017. Soube-me muito bem, sob vários aspectos (excepto no físico). Mas nada que ficar de perna para o ar e a tomar anti-inflamatórios por dois ou três dias não cure. A vida segue, e a estrada também. Foi o que foi. A próxima viagem será o que será. Regresso ao caminho? Um dia, talvez. Mas agora, o trovão vai ser outro. Já falta pouco. Fim.

Narrativa del camino – dia três

Há atitudes e há atitudes. E há momentos em que pensamos que podemos fazer as coisas de outra maneira. E depois há momentos em que fazemos as coisas da maneira que for. E quando começamos a fazer as coisas, podemos parar. Podemos sempre parar. Podemos desistir, dizer não — “just say não” — ou ‘chau, au revoir, adieu, bye bye, non te quiero más. E há consequências e tal, mas pronto, poder parar podemos. Mas podemos também continuar. Querer seguir. Acabar o que se começou e, olha, ver no que dá, salvar a cara, não morrer na praia. Por vezes, porque se quer mesmo. Por vezes, por mero orgulho. Por vezes, por mera estupidez. Por vezes, porque é o que tem de ser. Por vezes, por todas as razões juntas e alguma crença de que se vai conseguir.

Digo isto pelo seguinte. São sete e cinquenta da manhã. Está escuro como breu e estou no meio de um caminho de bosque com a lanterna do meu telemóvel na mão. Está um frio de merda e vou a coxear da merda da minha perna esquerda. Tenho a merda da barba húmida e a merda das minhas luvas não protegem a merda das minhas mãos do frio. E há uma merda de uma seta que aponta para a esquerda mas que na realidade devia apontar em frente e então em vez de ir em frente vou por um caminho à esquerda e acabo a subir a merda de um monte enquanto vou magoando a merda da perna e depois desço a merda do monte no meio da merda das árvores e vou parar à merda de um riacho e não vejo nem uma merda de uma seta nem uma merda de um marco e então volto para trás e passo por uma merda de uma casa que parece estar abandonada e ouço a merda de barulhos que parecem ser de pássaros ou outros animais que não consigo ver porque acho que já disse que está uma merda de escuro e estou só com a merda da lanterna do telemóvel e sigo de volta para o caminho e vejo a merda da seta a apontar para a merda da esquerda e vou em frente como devia ter ido e — sabem o que aconteceu? — passados vinte metros está outra seta que continua a mandar em frente. E é a vida. E segue-se a seta.

Antes: despedi-me de José e deixei-lhe duas frutas que tinha comigo e algum dinheiro para o pequeno-almoço. Depois fui tomar o pequeno-almoço — torrada e café con leche, tendo guardado o queque de brinde (não falha) para a viagem — e pus-me a andar. Na televisão do café davam notícias sobre as eleições catalãs. Continuava a coxear tanto ou mais que ontem. Às sete e trinta e sete vejo o primeiro marco, que aponta quarenta e dois quilómetros até Santiago. Respirei fundo. E segui.

Passei a maior parte da manhã a pensar se devia seguir ou não. Se devia parar nalgum sítio e só continuar amanhã. Ver o que é que se passa com a perna. Mas depois pensei que se já fiz quarenta quilómetros em cada um dos dois últimos dias, porque não continuar? E então continuava. E rezava as dezenas (duas, de manhã) e pensava em coisas. E não encontrava outros peregrinos, e dizia bom dia às pessoas que passavam. E ia pelas aldeias, e pelas estradas, e pelos montes. E os cães ladravam. E alguns carros passavam. E as subidas faziam-se bem, e as descidas eram o pesadelo, e pensava se a esta velocidade conseguiria chegar a Santiago a horas decentes. E pensava se N iria conseguir chegar a Santiago e apanhar o comboio. E pensava no que iria fazer quando chegasse a Santiago. Pensava numa caña, em chocolate e churros, em entrar na catedral, em ir pedir a compostela. E depois pensava na estrada. E olhava para o caminho. Para as conchas e setas. Para as árvores. Para o céu, hoje meio nublado. E pensava no ano que passou, mês a mês, evento a evento. Pensava nos desejos para o próximo ano. Escrevi-os no caderno, os doze, como as passas que se comem à meia-noite. E pensava em coisas boas e más e assim-assim. E sentia-me, apesar de coxear, e de custar, e do cansaço, e da vontade de chegar, bem. Sozinho — salvo a divina providência — mas bem.

O sol não aparecia e o frio era muito. E era chato. Andei de luvas toda a manhã. Passei por uma zona chamada Pontecesures que era muito feia e que tinha muitas subidas e muitas (suspiro) descidas. E depois cheguei a Padrón, que também é muito feia. Sentei-me para almoçar num restaurante e pedi uma hamburguesa (a terceira em três dias) e um café e saí em vinte minutos. A perna doía e eu parava e esticava e depois andava. E então decidi ir devagar. Lembrei-me do Caminho dos Coxos e ri-me. Faltavam vinte quilómetros.

Quando desaceleramos as coisas demoram a passar, de facto. Mas aproveitamos mais. Ia-me sentando nalguns bancos, rezando uma avé-maria aqui e ali. Olhava para os campos grandes e para as casas de pedra. Via as couves e os animais a pastar. Encostava-me para deixar passar os carros. Comi o queque que tinha guardado do pequeno-almoço. E, aos poucos, ia sorrindo. Cantava uma ou outra canção que o meu shuffle mental me mandava. Desde pimba até pós-punk britânico — va savoir as associações cerebrais. Sempre que via um marco olhava para a distância que faltava. Pensava: só andei duzentos e sessenta e sete metros; boa, andei quinhentos e trinta e dois!; o quê, só cento e vinte e dois?! — entre outras coisas. E às vezes parava e encostava-me ao marco e olhava para as paisagens à volta. Salvo o som da estrada nacional ao fundo, era tudo silencioso e calmo. Ria-me, bebia água, e continuava a andar.

Aos quinze quilómetros, não sei porquê, fiquei animado. É o efeito dos números redondos e certos, talvez. Fiquei animado ao ponto de parar numa estação de serviço e comprar uma maçã e um kit-kat. Comi-os de imediato e segui caminho. Estava convicto de que ia chegar pelas oito da noite a Santiago. Eram quatro e muito da tarde e o céu estava nublado. Já não havia tanta luz. Entrei pela aldeia de Faramello e fui levado para uma zona de jardins e montes com muitas árvores e espaços abertos. Faltavam treze quilómetros para Santiago, o céu nublado em cima, cinco e tal da tarde. E então parei, e suspirei.

Sabem o que é o Outono? O Outono é a primeira metade do mês de Dezembro na Galiza. É um bosque, um monte ou um jardim galego, cheio de árvores altas com grandes ramos num dos dois luscos-fuscos do dia. É o número de folhas vermelhas e laranjas e amarelas nos ramos e no chão. As copas e os mantos, sobre a nossa cabeça e sob os nossos pés. É a serenidade da imagem, do momento, do cheiro a fresco que há nessa altura, do dia que começa e do dia que acaba. O Outono é uma pausa, um interregno na caminhada dos dias. É uma viagem no meio do movimento que é a vida. Uma fuga. Um prazer. Uma aventura. Um descanso. Uma dor. Uma preguiça. Um amor. Uma piada. O Outono é das coisas mais bonitas que existem neste mundo. E é isso que sinto enquanto passo por isto que vos conto. O Outono é isto. É esta sensação serena e segura. É esta paz. Não sei explicar melhor. Mas é bom.

Depois continuei. Quando vejo a placa que marca onze quilómetros olho para o céu e logo de seguida olho para o relógio e percebo que tenho de tomar uma decisão. Ou continuo, e faço os últimos onze quilómetros de noite, ou fico aqui e tento encontrar um sítio para dormir. Depois penso que se paro não vou querer andar mais. Portanto, mais vale fazer tudo agora. E sigo.

A noite cai e cai forte. O céu fica escuro e as setas e marcos vão me levando por estradas de terra e caminhos de bosque. Faço cerca de dois quilómetros e meio num bosque escuro, sem candeeiros ou casas, até chegar ao lado da estrada nacional. Por um momento penso no que estou a fazer. Estou sozinho, no meio da Galiza, de noite, a atravessar um bosque escuro, através de um monte. Tenho uma lanterna de um telefone, e estou coxo. Tenho frio, e daqui a pouco vou ter fome. Penso nisso enquanto ando, mas continuo a andar. Lento, arrastado, mas em frente. Quando chego a uma estrada com luz e apercebo-me que já não há mais bosque começo a chorar. Acho que foi do cansaço e do esforço. Deixo as lágrimas vir por um pouco e depois lavo a cara. E sigo. Sempre a seguir.

Os marcos vão ficando menores. De onze passei para dez. Depois nove. Depois oito — claro, com algumas centenas de metros pelo meio e não poucos impropérios. Por fim estou em Miladoiro, última paragem pré-Santiago. Luzes, condomínios, superfícies comerciais. Tudo o que você quer de um subúrbio estava ali. E dos oito passa-se a sete, e dos sete a seis quilómetros ponto qualquer coisa. E lá vou eu, bebendo água, todo contente, já feliz por faltar tão pouco, por passar por pessoas normais e suburbanas que vão fazendo a sua vida normal e suburbana e já me imagino a chegar à catedral em uma hora e tal e estar tudo bem. Tudo bem.

Mas de repente vejo um marco que diz que faltam sete quilómetros ponto qualquer coisa. E isso não está bem porque mais atrás faltavam seis quilómetros ponto qualquer coisa. Admito que não devo estar com todas as minhas aptidões físico-mentais no máximo. Mas não estou (assim tão) maluco. Olho para o lado e vejo um sinal que explica que houve uma alteração do caminho nesta parte final. E olho em frente e há mais bosque. E mais escuro.  Há uma parte de mim que fala sozinho e diz qualquer coisa como “F******” (em bold, sublinhado e caps lock) e respira fundo. Suspiro, mas pronto. É o que é. E o que é é seguir. E sigo.

Desço este bosque que percebo que vai ser curto porque vêem-se luzes ao longe. Mas antes de chegar às luzes oiço um barulho e olho para o lado e está um cavalo castanho a olhar para mim. É grande, e é bonito, e tem um ar sério. Fico parado a olhar para ele. E depois vou, e ele fica. Chego às luzes e vou andando. Às vezes olhava para a estrada e parecia que via setas amarelas em todo o lado. Só queria setas e marcos e direcções. Só queria, no fundo, chegar. Quatro destes seis quilómetros finais foram passados por aldeias pequenas, estradas de alcatrão que ora subiam, ora desciam, ora passavam a linha do comboio, ora acompanhavam algum viaduto, ora apenas existiam. Não cantava e não pensava em nada a não ser nos metros que faltavam de marco para marco. A perna coxeava e doía mas aguentava-se. A água bebia-se. A paisagem era dispensável. E era isto.

Cheguei a Santiago e meti-me por uma rua em direcção à zona antiga. Era a subir e via os cafés fechados. O meu chocolate com churros e a minha caña teriam de esperar pelo dia seguinte. Passei por jovens universitários e por imensa gente típica de uma grande cidade. As espanholas vestem-se tal e qual como as portuguesas, com saias ou vestidos e meias escuras e botas e os espanhóis têm aquele hábito estilístico estranho de subir a bainha das calças acima do tornozelo no inverno. Foi uma das poucas notas mentais que fiz. Depois entrei na zona antiga. Vi imensos bares abertos, com cadeiras na rua e galegos sentados a beber cañas. Estava um frio incrível mas eles estavam cá fora. É fixe ver isso. Passei por um restaurante que vendia massa para levar. Comprei uns raviolis com carne e molho de bolonhesa e uma lata de Mahon. Depois saí e fui para a catedral.

A catedral de Santiago estava fechada. Teria de entrar lá amanhã. Fui até à porta e toquei-lhe. Pensei: fim. Cheguei. E fiquei contente. E ri-me. E liguei o telemóvel e tirei o modo vôo e procurei um albergue na internet. Fui parar a um hostel cem metros acima (cem metros, lol) chamado El Último Sello (mega-lol). Tinham uma cama livre. Não precisei de tirar o saco-cama porque tinham lençóis lavados. Que luxo. Arrastei a perna até à cozinha e comecei a comer. Liguei à minha Mãe a dizer que estava vivo e em Santiago. Mandei umas mensagens e meti conversa com um peregrino escocês que veio de França. Depois fui para a cama. Lavei os dentes e pus os lençóis. Deitei-me.

Rezei mas não escrevi nem li. Não olhei para a cama de cima do beliche na camarata. Não me lembro, sinceramente, do que pensei. Acho que pensei que tinha de acordar cedo para ir à catedral e depois ir buscar a compostela e depois ir apanhar o autocarro para baixo ao meio-dia. Só me lembro de me sentir cansado, estafado, empenado, mas bem. Tinha feito cento e vinte e quatro quilómetros, sozinho, desde Valença do Minho até Santiago de Compostela em três dias. Foi uma estupidez gigante — o modo, não o caminho — mas estava bem. Valeu a pena. Pelo menos senti que sim. Que valeu mesmo a pena. E então adormeci.

Narrativa del camino – dia dois

Estou a levantar-me da cama no albergue de Redondela. Voltei a acordar durante a noite, mas só por duas vezes. A primeira foi pela uma e quarenta e dois. A segunda foi pelas quatro e tal. Ouvi o Senhor A a sair da camarata. O outro peregrino estava a arrumar as coisas quando me levantei. Vesti-me, enrolei o saco-cama e pus a mochila às costas. Fui à cozinha e comi o pão que me sobrou do jantar e uma das bananas que tinha. Depois olhei para o relógio. Eram sete e meia da manhã. Saí e virei à direita. Estava outra vez no caminho.

Fazia bastante frio e estava escuro. Em Espanha amanhece uma hora mais tarde. Ia andando rápido para ver se aquecia. Passei por ruas estreitas e por pessoas com ar de estarem a voltar de um bar ou discoteca. Noites loucas de Redondela. Segui por algumas descidas até ir parar a um caminho de terra. Entretanto passou por mim o outro peregrino português que estava no albergue e que falava com o Senhor A. Não me olhou, mas desejou-me “bom caminho”. Respondi-lhe o mesmo, e vi-o ultrapassar-me a um ritmo invejável. É a idade, pensei eu. Idade é experiência, pensei eu. E o que é a experiência? Continuei a andar e a vê-lo perder-se de vista. Os dois no caminho, cada um no seu caminho.

Passei por campos e um bosque escuro. Ouvi cães a ladrar e galos a cantar. Liguei a lanterna do telefone e fui vendo as setas e marcos no meio da escuridão das árvores. Passei a estrada nacional e numa subida virei para um monte. Eram oito da manhã e achei que o frio me tinha despertado de uma maneira incrível. Continuei a subir até estar numa encosta e conseguir ver, ao longe, aquilo que me pareceu ser um monte com um rio por baixo. Entretanto o céu ia-se abrindo e estava agora tudo a ficar claro. A luz rosada da manhã começava a bater sobre as árvores verdes escuras e avermelhadas. Parei e admirei a imagem. Nunca tinha imaginado que a Galiza interior fosse tão bonita. O calor da subida já me tinha afastado o frio que me gelava a cara. Sinto a barba algo húmida e penso se apanhei um pouco da geada matinal. Depois desço e entro na terra de Arcade.

Tomo o pequeno-almoço num pequeno café no centro que fica na linha do caminho. Peço um croissant e um café com leite. Servem-me o croissant com garfo e faca. Relembro-me imediatamente do episódio do Seinfeld em que George Constanza começa a comer barras de chocolate com talheres. Servem-me alguns bolos para o café. Já vos disse que adoro cafés galegos? Vejo na capa do jornal Marca que o Real Madrid ganhou ao Grémio com um golo de Ronaldo. Gracias, Cristiano. Tiro dois apontamentos no caderno e ponho-me a andar.

Passo por uma ponte ao sair de Arcade. A água está escura e há uma ligeira bruma por cima do rio. O sol começa a bater sobre a estrada. Meto-me pelo caminho e vou por dentro de ruas e ruelas de uma aldeia. As comparações minhotas continuam a abundar. Oiço senhoras a discutir e o tom é igual ao de discussões no Minho. Passo por imensas árvores de azevinho, carregadas e bonitas. Depois volto a entrar num monte e nas árvores vermelhas e nos campos com geada. A geada por derreter à sombra parece púrpura. Parece que todas as plantas são lavanda. No monte há imensas folhas vermelhas caídas e húmidas. Passam cães e cavalos pelo caminho. Oiço os pássaros nas árvores. A manhã vive enquanto eu caminho.

Penso nesta altura em como muitas vezes estou mais preocupado com o que pode acontecer do que com o que acontece. Mais a pensar no “e se” do que no “é”. Expectativa versus realidade. Penso que isso não faz bem. Penso que não é uma boa forma de se estar. Penso e páro e gravo o pensamento numa mensagem de telefone. Depois continuo a andar.

Volto para uma estrada depois do monte. Doem-me os ombros e a cintura. Tiro o cinto com a garrafa de água e prendo-o nas pegas da mochila. Sinto um alívio e sigo o caminho. Vou comer a Pontevedra e depois seguir para Caldas de Rey, fazendo mais ou menos a mesma distância do dia anterior. E, assim, chegar a Santiago já amanhã, um dia antes do previsto. Parece-me um bom plano. Entretanto vejo imensa gente a passar de carro e bicicleta pela estrada. É Domingo mas continuo sem ver um peregrino que seja.

Chego a Pontevedra e passo por uma rapariga que parece ser peregrina. Acenamos com a cabeça um ao outro e ultrapasso-a. Cada um no seu caminho, os dois no caminho. Vou entrando na cidade e procuro um sítio para comer. Tenho de ir à missa. As lojas estão fechadas mas há gente na rua. O centro de Pontevedra é bonito. O caminho leva-me à igreja da Virgem Peregrina. Entro e dizem-me que a missa começa dentro de quinze minutos. Compro uma sandes numa loja ao lado, como-a e depois assisto ao serviço. O padre é muito assertivo e aponta muito o dedo enquanto fala do evangelho e da importância do advento. Na assistência, cheia, sou uma de três pessoas com menos de quarenta e muitos anos. Rezo pela minha família, amigos e pelo que resta do caminho. Depois, quando a celebração acaba, saio da Igreja, pronto para continuar.

O problema começa quando me ponho a andar. Sinto uma dor na minha perna esquerda, mais concretamente na canela. Não percebo o que pode ser, mas obriga-me a coxear um pouco. Penso se devia ou não ficar em Pontevedra e tratar disto. Mas são duas da tarde e pelos meus cálculos (altamente falíveis) penso que consigo fazer o mesmo número de quilómetros que fiz de manhã e chegar a Caldas de Rey. E assim passo mais uma ponte e saio da cidade e vou de volta para campos e aldeias e ando. Mais lento, e mais arrastado, mas ando.

Passo por linhas de comboio carregadas de balastro. Passo por pequenas estradas. Passo por riachos. Pego em paus e uso-os como cajados por alguns metros. Rezo as dezenas que tenho de rezar e penso em episódios do que ano que passou. Como bolachas e acabo com as bolachas. Sinto-me cansado e creio que se deve à falta de café. Depois vejo um prado enorme e espaçoso e animo-me. Olho para um marco e vejo que faltam dez quilómetros para Caldas de Rey. Sinto a perna esquerda a doer mais. Pergunto-me: devia parar? Mas continuo. Vejo que a claridade já não é tanta. Passo por cafés e albergues fechados. Passo por éne casas com éne cães que me ladram de éne formas. Vou parando às vezes para esticar as pernas, e depois volto a andar. Chego à estrada nacional e faltam-me sete quilómetros para Caldas. Imagino que será de noite antes de lá chegar.

E nesse momento aparece N. Vinha mais atrás e apanhou-me naquele momento. N era o peregrino que chegou tarde ao albergue no dia anterior. Apanhou-me na estrada nacional e deu-me companhia, conversa e ritmo.

O sotaque era nortenho. Ia determinado, era a quarta vez que fazia o caminho. Precisava de estar em casa, no Porto, no dia seguinte, porque tem duas filhas pequenas e a mulher está sozinha com elas. Falámos sobre fé, sobre existência, sobre santos, sobre formas de lidar com a vontade, a liberdade, a autonomia, o desejo, o querer. Conversas leves. E depois apercebemo-nos que tínhamos amigos em comum e pontos de contacto. A probabilidade de apanhares um português no estrangeiro que é amigo de um amigo e tal é impressionante. Apanhámos laranjas à beira da estrada e continuámos a andar. Não me lembro do caminho nesta altura. Só da conversa. Os dois no mesmo caminho. E, sem darmos por isso, estávamos de repente em Caldas de Rey.

N já cá tinha ficado e guiou-nos para o albergue. Tinha ainda de ir à missa, que começava às sete da tarde. Entrámos no albergue e deixámos as coisas. Falámos um pouco com o recepcionista, ele próprio peregrino. N perguntou-lhe de onde vinha, ele disse que de Zagreb. N perguntou-lhe se não era ele “o” peregrino. Ele disse que sim. Depois N explicou-me. Aquele homem era José, o peregrino. Era um pescador que há uns anos atrás estava na Noruega. O barco onde estava naufragou; José foi o único sobrevivente. Fez uma promessa que se vivesse iria passar o resto da vida a peregrinar. E desde aí foi o que fez. Já foi a praticamente todo o lado e estava agora ali em repouso, à espera de dinheiro para poder continuar. Desejou-nos bom jantar e saímos.

Enquanto N ia à missa fui para um bar. Sentei-me ao balcão e pedi um café com leite. Desta vez só me trouxeram uma bolacha, mas agradeci à mesma. A empregada era uma miúda dos seus vinte anos, cabelo escuro e óculos de aviador à anos setenta. Tinha um brinco na narina esquerda e uns ténis Stan Smith e um sorriso simpático. Escrevi no caderno sobre a viagem do dia e senti a canela esquerda a doer. Quando saí para ir ter com N tinha de arrastar a perna. N também estava “todo empenado” (dito com um forte sotaque tripeiro). E assim, a andar como dois aleijados, fomos jantar a um sítio que N conhecia.

Pedimos uma harmburguesa especial e uma caña. Acabámos por beber três cada um, todas elas superbock. Falámos muito, sobre arte, criação, estilos, família, escrita. Depois voltámos para o albergue. Dois empenados portugueses, na fria noite das Caldas. Quando chegámos José estava na recepção. Recebeu-nos com um vídeo de um noticiário sobre a sua promessa. Disse-nos que a melhor peregrinação que fez foi ao Tibete, e que já tinha ido e vindo da América pelo Estreito de Bering. Depois disse que ia dormir. Fomos para a camarata. Éramos os únicos ocupantes do albergue.

Fiz alguns alongamentos antes de me deitar. A perna esquerda continuava a doer. N emprestou-me Voltaren gel. Sim, porque sou um tipo super-inteligente e preparado que vai fazer uma caminhada de cento e vinte e quatro quilómetros em quatro dias e leva uma mochila hipster, camisolas e umas calças estilosas, um poncho super-impec para o que der e vier, meias quentes e boas para andar, um chapéu tipo Indiana Jones só naquela, uma luzinha (sim, uma lu-zinha) para ler na cama, e até um mini-kit primeiros socorros com benuron (uau!) e pensos e  gaz e álcool para as feridas, sem falar (mas deixem-me falar) da “experiência” de ióga (inserir caption “lots of laughs”) em alongamentos in-críveis (favor levantar os olhos para cima ligeiramente no “in”) para tratar de qualquer problema que possa surgir durante o percurso. Agora, coisas que interessam, que realmente interessam para tratar de maleitas que podem suceder em caminhadas, com as pernas ou os pés, tipo anti-inflamatórios, gel para dores musculares, e meias-elásticas, está quieto.

Mas enfim, vivendo e aprendendo. N emprestou-me o gel e passei-o na perna e no pé. N mostrou-me um vídeo de flamenco com um poema de S. João da Cruz. Era interessante. Depois despedimos-nos e deitámo-nos. N tinha de sair pelas cinco da manhã para ver se conseguia chegar a Santiago a tempo de apanhar o comboio de volta para baixo. Quanto a mim, só queria lá chegar, fosse às horas que fosse.

Deitei-me e olhei para a cama de cima. Tinha um desenho feito a caneta azul numa das barras de madeira. O desenho era de de dois círculos grandes, cada um com um círculo mais pequeno e carregado no seu interior. Ao lado tinha uma frase. “Sonha e dorme bem, peregrino” e em baixo, entre parêntesis, “mamas”. Ri-me. Não me apetecia ler o livro. Depois pus-me a pensar nas coisas que pensei durante o dia. Pessoas, eventos, sonhos, frustrações, alegrias, certezas, inseguranças, etc, e etc, sweet old etc. E depois pensei na minha perna e se ela ia estar melhor ou não depois desta noite. Rezei pelos efeitos milagrosos do Voltaren e comecei a imaginar cenários possíveis caso não recuperasse. Teria de ir pelo menos até Padrón, porque os albergues até lá não estariam abertos. A pergunta era se iria depois até Santiago, ou esperaria mais um dia. Fui dormir. Amanhã veria o que fazer.

Narrativa del camino – dia um

Acordei por volta das seis e cinquenta. Foi a quarta vez que acordei desde que adormeci. A primeira vez foi à uma e trinta e sete. A segunda pelas três e quarenta e dois. A terceira não me lembro, mas acho que eram cinco e pouco da manhã no meu relógio azul de plástico. O senhor que dormia na cama no fundo da camarata ressonava, e muito. A rapariga que estava com ele ligou o telefone durante a noite e ouvi o som de mensagens de forma regular. Tive um pesadelo. Não sei se foram essas as causas de acordar. Ou se foi a excitação que sentia de forma inconsciente. Aquela excitação da insegurança do desconhecido, como quando se tem uma viagem no dia seguinte. O facto é que não estava cansado quando me levantei. Arrumei as coisas, vesti-me, comi uma banana, pus a mochila às costas e saí. Eram sete e trinta e um da manhã.

Está frio. O nevoeiro cobre tudo a pelo menos dez palmos de distância. Vejo em frente o primeiro marco do caminho e sigo-o. O telemóvel está em modo vôo. É uma promessa, ter o telemóvel em modo vôo até chegar a Santiago. Fui seguindo as setas até entrar na fortaleza de Valença. Rezei a primeira dezena. É uma promessa, rezar um terço por dia. Sinto-me entusiasmado. Tal como numa viagem. Sabem, aquela adrenalina de chegar a um sítio que não conhecem, onde nunca estiveram, e não saber como vai ser? É assim que me sinto. Passo pelas ruas da fortaleza de Valença, pelas lojas fechadas e pelos carros parados. Ruas vazias, seguindo setas e conchas amarelas. Chapéu de aventureiro na cabeça. Luvas escuras. Mochila estilosa — demasiado hiptser para isto, confesso. Cá vou eu. E, chegado a um café que estava a acabar de abrir, entrei para tomar o pequeno-almoço.

É um café pequeno e simples, dentro da fortaleza. Peço uma torrada em pão de forma e uma meia-de-leite. Escrevo no caderno e ouço os donos (há um casal atrás do balcão — assumo, por não usarem farda, que são os donos) e o empregado a falarem. Falam um português com sotaque minhoto perfeito. Não há traços de Espanha aqui. A fronteira funciona, penso eu. Mesmo que por uns metros, funciona. Esta meia-de-leite também funciona e sabe-me pela vida. Penso: agora posso enfrentar o frio. Um dos donos do café diz: “O frio vem todo de Espanha. Na Galiza deve estar o caralho”. Escrevo a frase. Depois pago e saio. Volto ao nevoeiro, ao entusiasmo, e ao caminho. Eu quero o caminho.

E então ando. Controlo-me para não fotografar tudo o que vejo. Porque tudo o que vejo merece uma fotografia. Quando se está entusiasmado o coração parece que explode. O olhar fica mais atento e a criatividade mais solta. Estava tudo húmido, algumas plantas com orvalho ainda por cima. Fui andando pela fortaleza até chegar à ponte. Não se vê nada para lá da metade portuguesa. Nem uma imagem. Dois países separados por uma bruma. Não é giro, ou romântico, ou místico, digno de uma qualquer cena de filme? Apreciei o momento por uns segundos. E depois voltei a andar e passei a ponte.

Chego ao outro lado e o nevoeiro continua forte. Agora não via Portugal, olhando para trás. Recordo-me do poema de António Machado: “Al andar se hace el camino, / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar”. Continuei a andar.

De estradas passei para passeios. Passo por um Irish Pub chamado “The White Clover” (até em Tuí há Irish pubs) e por um bar chamado “Café Lisboa”. De passeios passei para caminhos de terra, e depois de novo para estradas e mal dou por mim estou na Catedral de Tuí. Grupos de senhoras montam barracas do que parece vir a ser um mercado, na praça em frente à catedral. Entro para rezar. Quando saio toca o Hard Days’s Night dos Beatles no sistema de som municipal que se ouve por todo o centro histórico. Los Gallegos saben mucho. Como não manter o entusiasmo, enquanto volto ao andar?

A estrada vai-me levando. Vou pensando nisso, no facto de estar a ser guiado por indicações colocadas de propósito e cuidadas de propósito para que uma infinitude de pessoas de várias idades e tempos possam passar por ali. Sou mais um num caminho de séculos. O caminho é uma instituição que me ultrapassa. Adoro instituições. Sinto-me pequeno e forte com esse facto. Penso nisto enquanto passo por ginásios e salas de cross-fit com publicidades chungas. Fotografias de malta  feia e foleira a levantar pesos com dragões tirados de uma edição qualquer perdida do Mortal Kombat, estão a ver? Mau-gosto espanhol, kitsch máximo, estão a ver? Mesmo cómico. E depois virei para o bosque.

O bosque está vermelho. As árvores carregadas de folhas velhas. Como diria o meu sobrinho Estêvão, está tudo “cheio de Outono”. Tudo muito húmido. Há riachos e pontes de pedra. Vejo anúncios de albergues privados que prometem milhares de pequenos-almoços e requintes, em vilas e cidades que ficam quilómetros acima. O nevoeiro vai-se dissipando aos poucos, enquanto o dia avança. A cada passo, mais luz no céu. Mais subidas, mais monte, mais campo. E casas. Senti que ainda estava no Minho, tal é a semelhança dos cenários. Mas menos verde. Menos, sei lá, quente. Continuo a andar e ainda rezo outra dezena pelo meio.

De repente chego à zona fabril de Porriño. Sinto-me como no Gosto do Sakê de Ozu, tal o cenário industrial que está à minha volta. Fábricas e mais fábricas e uma fábrica em especial de onde sai fumo. E uma estrada recta, que faço enquanto tiro a primeira camisola — estou com mais duas camadas. Está sol, agora. E algum calor. Sinto fome. Olho para o relógio e já são horas para se poder comer.

Passado um pouco chego a Porriño e entro  num café e peço “uma hamburguesa” e trazem-me um hambúrguer vegetariano. Foi sem querer. Não me apercebi que tinha vindo parar a um sítio vegetariano. Acontece. Como o que me dão e bebo água da garrafa. Olho para o mapa na minha credencial e penso no plano a seguir. Num mundo normal ficaria hoje aqui, em Porriño. Mas as pernas pedem mais e podem mais. “A culpa”, já dizia António Variações, “é da vontade”. Por isso agradeço e pago o hambúrguer e peço um café. Ponho a mochila às costas e o chapéu na mona. Vou de volta para às ruas da vila, andando entre lojas e passeantes de sábado à tarde, atrás de setas e conchas amarelas. Sinto-me bem. Mesmo bem.

Rezo a terceira dezena do dia depois de passar um riacho e um armazém gigante. Um jovem chinês está encostado a um muro a falar por vídeo através do telemóvel. Tem um fato de treino cinzento com pinta. Passo por eiras que me lembram mais o Minho. Há subidas e descidas. Começo a pensar porque é que estou a fazer o caminho. Será pelo desafio em si, por querer provar alguma coisa, por querer rezar ou reflectir algum assunto em concreto? A resposta não me é óbvia. Faço-o por várias razões, acho eu. E sem expectativas de resultado. Acho que é assim que as viagens devem ser feitas. Gosto disso, de ir pouco preparado. E assim posso ser surpreendido quando, por exemplo, numa zona chamada Caminho das Lagoas, passa um carro Renault com vinte anos, daqueles muito achatados, de um dourado metalizado, conduzido por um homem com outro homem ao lado, e cheio de balões brancos e azuis-cueca pendurados no tejadilho. Parece uma cena de um filme do Kusturica: uma estrada de aldeia minhota, vazia e silenciosa e um carro com balões pendurados a passar e a desaparecer. Sigo a estrada e atravesso um caminho chamado Caminho do Coxo.

Depois passo por um cemitério de espantalhos. Uma série de campos, cada um com pelo menos dois espantalhos caídos no chão. Tipos com colete, fatos-de-macaco, cabeças de balde, cabelos de esfregona. Terá sido chuva, terão sido os pássaros? Vou gravando notas no telemóvel sobre estes encontros para me lembrar mais tarde. Passo por um poste com um autocolante que diz “J’existe”. Fotografo e sigo.

Passo pela terra de Mos. Os cafés estão fechados e os albergues também. Subo montes, desço montes, passo por estradas, vou por passeios. Vejo pessoas que me olham e dizem “hola”. Um miúdo gordo com uma camisola do Real Madrid que está sozinho num campo de jogos a chutar uma bola contra uma baliza diz-me “Buen camino”. Respondo-lhe “Gracias, Cristiano”. Ele ri-se. E eu continuo.

Penso se vou até Arcade ou se me fico por Redondela. Uma vez chegado à segunda, e visto que o dia se está a pôr, penso em parar. É o primeiro dia, foram quarenta e dois quilómetros. Acho que mereço um pequeno descanso. Dirijo-me ao albergue municipal e registo-me. Sou o terceiro peregrino, e o terceiro português, diz-me a senhora. “E eram três”, como na música dos Comboio Fantasma. Instalo-me na cama de baixo de um beliche e vou tomar um banho. Faço algumas flexões antes e sinto os músculos das costas e dos ombros a tremer. A água morna cai-me pelo corpo abaixo e sinto-me renascido. As minhas costas estão péssimas devido ao acne mas é o que é. Saio e visto-me e sento-me na cama. Penso e declaro para mim mesmo: foi um bom dia de caminhada.

Saio do albergue e vou a Redondela comprar comida. Entro no supermercado local para ver o que se arranja. Saio com um pão, uma embalagem de fiambre e uma cerveja Mahon de lata, mais umas bolachas. Depois passo por um café e decido entrar. Sento-me e peço um chocolate quente. Oferecem-me um bolo para acompanhar. Adoro cafés espanhóis porque nunca te deixam só com uma bebida. Mergulho o bolo, uma espécie de folhado, no chocolate, enquanto vejo televisão. O Real Madrid joga contra o Grémio na televisão. Dá-lhes, Cristiano. Depois olho para o mapa da credencial para pensar no que fazer amanhã. Depois acabo o chocolate e saio. Já está escuro na rua e faz algum frio.

Sento-me na sala de estar do albergue e abro o caderno e tiro notas do dia. Depois abro as Confissões de Santo Agostinho e tento ler um pouco. Está um senhor na sala de estar a ler jornais e um miúdo a estudar o que parece ser geometria descritiva. Não são peregrinos. Sinto o cansaço e a fome. Fecho o livro e vou para a cozinha preparar umas sandes.

Chego à cozinha e meto conversa com um peregrino que por lá se encontra. Chama-se Senhor A. O Senhor A é português e ciclista. Está a fazer este caminho a pé pela segunda vez (fez mais uma vez de bicicleta, bem como o caminho francês). O Senhor A é um daqueles tipos que quer falar muito. Sabem, uma daquelas pessoas que mete conversa e que quando faz uma pausa olha para nós e independentemente do que dissermos (como, por exemplo: a sério?; isso é engraçado; aconteceu-me uma coisa parecida um dia; olhe, vou morrer amanhã) ou não dissermos elas continuam a falar do que estavam ou querem falar. E assim vou ouvindo o Senhor A e as suas histórias enquanto bebo a minha Mahon.

O Senhor A tem sessenta e um anos e uma vida de aventuras. Algumas pessoais, outras de bicicleta. Por exemplo, fez a estrada da morte na Bolívia, de bicicleta. Fez uma série de viagens pela Europa, de bicicleta. Tem dois filhos e uma ex-mulher. Fala de coisas familiares e pessoais com um grau de pormenor que é algo aberto demais. Ou como dizem os ingleses, “too much”. Entretanto aparece o Senhor O. O Senhor O é um peregrino alemão. Foi o único peregrino que vi durante poucos minutos no caminho antes de desaparecer por uma curva (diz-me agora que foi a um café). Falou pouco, mas interrompeu o suficiente a conversa com o Senhor A para eu conseguir sair da cozinha e voltar para a sala de estar e voltar a abrir o meu livro. Li duas páginas e fui para a camarata.

Estou no beliche a preparar-me para dormir. Tenho tudo pronto para sair amanhã. A mala, a roupa, as bolachas. Enquanto escrevo as últimas notas no caderno vou ouvindo o Senhor A e o outro peregrino português conversar sobre histórias pessoais e de bicicletas e de albergues. A dado momento o Senhor A diz que vai falar com os filhos e abre o computador. Depois chama-me e pergunta se eu quero ver as suas páginas de Facebook. Levanto-me e vou ter com ele. O Senhor A mostra-me então três páginas onde escreve sob pseudónimo, como se fosse um personagem. A partir do personagem vai criando histórias fictícias. Cada página, um personagem; cada personagem, uma história. Algumas, diz-me, são bastante sugestivas — e acrescenta que é dessas que as mulheres mais gostam. Olho para as páginas e vejo fotografias de pessoas feias em roupas foleiras.  Nas páginas mais sugestivas estão fotografias de pessoas feias com poucas roupas (mas as roupas que têm são foleiras) e em poses, de facto, sugestivas. Não creio que as histórias devam ser grande coisa, mas se calhar estou a ser mauzinho. O Senhor A diz que é um “grande maluco”. Entretanto os filhos dele falam-lhe pelo serviço de mensagens do Facebook. O Senhor A diz-me que o mais velho tem dezasseis anos e quer ser body-builder. Digo-lhe que é uma carreira. Ele diz que ele é um mandrião. Respondo-lhe que é a vida. Ele diz-me “pois”. E então levanto-me e volto para a minha cama. Entretanto entra outro peregrino na camarata, mas vai para uma cama que fica noutra divisão.

Deito-me e fico a olhar para a cama de cima. As luzes estão ligadas e o Senhor A e o outro peregrino português recomeçam a falar. Não me lembro se acabei de rezar a última dezena ou se adormeci antes. Lembro-me que me doíam ligeiramente as costas. Fiz alguns alongamentos de ióga ao tronco, costas e pernas antes de dormir. Lembro-me também que pensei nas muitas coisas que pensei ao longo do dia. Andei durante cerca de onze horas sozinho. Pensei em muitas pessoas, situações, passados, imaginações. Cantei algumas coisas. E de resto andei, e olhei, e rezei um pouco. Estive muito atento e animado. Gostei deste meu primeiro dia. Continuava a querer mais caminho. Dentro de umas horas era o que me esperava. E adormeci.

Narrativa del camino – o dia anterior e início

São dez e quarenta da noite. Estou deitado na cama de baixo de um beliche na camarata do albergue de peregrinos São Teotónio, em Valença do Minho. Vim a guiar com a minha Mãe para cima e ela ofereceu-me de jantar antes de me deixar no albergue. Fomos a um restaurante chamado A Merendela. Comemos costeletas e bebemos vinho tinto. Soube bem. Estava já vestido com as calças de caminhada que comprei na Decathlon. Pretas, justas, razoavelmente estilosas, ao ponto de ter ido almoçar com um amigo ainda em Lisboa e ele não se ter apercebido de que eram calças de caminhada. Estava com o relógio no pulso, também ele saído da Decathlon. Azul, plástico, digital, maneiro. Agora estou deitado dentro de um saco-cama e a minha Mãe está a viajar para Ponte de Lima. Acabo de escrever no meu bloco de notas e de ler um bocado do livro. Trouxe as Confissões de Santo Agostinho para ler. Achei que podia ser um bom livro para se ler durante uma caminhada para Santiago de Compostela. Quando pouso o livro olho para o lado. No fundo da camarata está um homem deitado numa cama de baixo. Careca, gordo, de óculos, com um telemóvel ligado. Na cama de baixo do beliche ao lado está uma rapariga, com um iPhone. Sei que é um iPhone devido ao som das mensagens que vão surgindo regularmente. Devem conhecer-se, o homem e a rapariga. Tipo pai e filha, tio e sobrinha, amante e amante. Viro a cara e olho para a cama de cima. Fico assim, no relativo silêncio que é estar numa camarata quase vazia. Está muito frio lá fora e algum cá dentro do albergue. O saco-cama é quente e o vinho ainda circula no meu corpo. Penso no dia de amanhã. Não tenho bem noção do que vou fazer amanhã, para além de andar e seguir direcções. Não tenho mapas. Vou andando. Penso numa música. Não tenho édefones, nem música na cabeça para este momento. Os telemóveis dos meus colegas peregrinos apagam-se. A camarata está escura. Penso no ano de 2017, episódio a episódio. Nem parece que está no fim, depois de tanta coisa que aconteceu. Fecho os olhos e procuro adormecer. Não toca nenhuma canção. Nenhuma. Nenhuma?

O nosso último Verão

Acabei de ler Summer Before the Dark, de Volker Weidermann. É um relato apaixonante sobre o Verão de 1936 da elite da cultura literária alemã. Estamos em Ostend, Bélgica, na época balnear, onde vários exilados políticos do centro europeu se encontram. Weidermann apresenta-nos, num estilo muito fluído, as conturbadas vidas e relações de autores da elite literária germânica, em particular dos austríacos Stefan Zweig e Joseph Roth. É das dinâmicas entre ambos os amigos e admiradores, num momento de calma antes da tempestade, que somos apresentados a um mundo inseguro. Um espaço entre uma identidade e pertença europeia que deixou de existir com a primeira guerra e um futuro onde não se vislumbra nenhuma esperança. Ainda assim, consegue mostrar-nos a ternura, alegria e redenção que, mesmo perante um declínio pessoal e civilizacional evidente, se encontram. Um belíssimo e envolvente livro sobre autores perdidos num mundo maior do que a vida. Boa maneira de começar o ano.

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Sobre resoluções espontâneas

As resoluções fazem parte de um novo ciclo. Sempre. A seguir, no ciclo, vêm as desilusões. Sempre. São como irmãs. Ora dança uma, ora dança a outra. Ainda assim acreditamos nas resoluções, e damos sempre nova oportunidade às mesmas. Ou porque queremos ou porque ok, não conseguimos dar a volta (talvez porque aprendemos, com os anos, a dançar melhor com as desilusões, mas isso é outra história). E então resolvemos fazer as resoluções, em particular no ano novo. Porque há uma vida nova, supostamente, à espreita. É uma oportunidade e aproveitamos. Escrevemo-las, rezamo-las, tudo isso. E às vezes, quando menos esperamos, já o ano começou e elas aparecem-nos como uma ideia, assim do nada. E assim do nada resolvemos fazê-las, às que surgem inesperadamente e de forma espontânea. Foi o que me aconteceu recentemente, mais concretamente ontem. Estava no meio de uma série de doze elevações no ginásio e estava a ouvir um episódio da New Yorker Radio Hour em que David Remnick entrevista Leonard Cohen. Já tinha lido o artigo numa das edições do ano passado — vale muito a pena — mas ouvir Cohen a falar é outra coisa. Dá para sentir a gravitas particular do canadiano. Aquele estilo, aquela sacanagem, aquele humor, aquela fraqueza. Tudo à mostra, com uma elegância ímpar. A dado momento Cohen, falando do seu ritmo de trabalho avassalador nos últimos tempos, mesmo sabendo que está já mais para lá do que para cá neste mundo, justifica-se dizendo “At a certain point, if you still have your marbles and are not faced with serious financial challenges, you have a chance to put your house in order. It’s a cliché, but it’s underestimated as an analgesic on all levels. Putting your house in order, if you can do it, is one of the most comforting activities, and the benefits of it are incalculable“. Tive de me controlar no levantamento de um peso. É uma lição bonita e acertada. Já no Natal o J tinha cantado uma versão incrível do I’m Your Man (o J tem um hábito de fazer versões incríveis e despojadas de grandes canções à guitarra — bastante fiéis e nada aparvalhadas como as minhas — e que acabam por soar melhores do que os originais. Há uma música do Damien Jurado, por exemplo, que ele canta e é a-rra-sa-do-ra). E isso tinha-me posto a pensar. Conheço os clássicos do Cohen. Desmancho-me com muitos clássicos do Cohen. Mas conhecer o Cohen? A obra, mesmo? Sempre fui mais Bob Dylan. Se calhar era da juventude. Mas agora, neste ano, em que se aproxima a passos vistos o evento do fim do meu cartão jovem, por razões externas ligadas ao efeito normativo da passagem do tempo, fiz uma resolução. Estava suado, com os ombros a doer, mas fiz. Este ano vou entrar na obra de Leonard Cohen. A fundo. A ver se aprendo alguma coisa, se tiro alguma elegância e estilo. Ou, pelo menos, cultura. Só pela capa deste disco, parece-me a escolha acertada. Não?

Postal de ano novo

Sais de casa. Olhas para a esquerda e segues pela esquerda. Desces a rua, escolhes a lista de canções que fizeste há cerca de dez minutos. Tudo clássicos. Olhas para a frente. O céu está coberto por nuvens. Desces e uma vez chegado ao largo começas. Um, dois, três na tua aplicação de telemóvel e lá vais tu. A música que começa é curiosamente a música que tinhas na cabeça enquanto descias a rua. Aquela viola acústica, com aquele padrão bem ritmado e a letra bonita. Passas a rua e a linha de comboio e entras na marginal. Estás a correr, já agora, para que se saiba. Estás a correr e fazes a corrida do costume, hoje um pouco mais longa. Porque é o primeiro dia do mês e no primeiro dia do mês tens de dar algum ritmo às coisas. A tua primeira resolução foi aguentar uma ressaca. A tua segunda foi renovar a amizade com o sofá da sala. A tua terceira foi começar a cumprir o que tinhas escrito na agenda. Foste partir a cabeça com estudos sobre encriptação em cadeia. Não sei se há melhor cura de ressaca, mas de certeza que há outras menos pesadas. Como, por exemplo, ler. Ou só estar no sofá. Ver um jogo da Premier League e pensares que pelo menos há uma equipa de vermelho que ainda te consegue alegrar este ano. Mas agora estás a correr. Final da tarde. Tudo normal. Passas por muitos turistas e alguns corredores. Os édefones novos são dinâmicos, mas algo estridentes. É o que dá pagares menos de quinze euros por uns édefones. Mas servem. Corres e chegada à meia-hora e, portanto’s, o meio-caminho, dás a volta. Estás agora com a ponte de frente. Estás agora com a lua cheia e imponente em frente, clarificando os espaços de céu nocturno que não estão cobertos por uma ou outra nuvem marota que por ali anda. E estás a passar em frente ao Padrão dos Descobrimentos. Nunca tinhas reparado que as estátuas eram tão grandes. E depois olhas para a esquerda e vês esta imagem. O Mosteiro dos Jerónimos, com o céu já descrito por cima. Está iluminado na fachada por algumas luzes alaranjadas. Atrás está o estádio daquela equipa azul com que tu gostas tanto de gozar, com as luzes ligadas. É um cenário bonito, e percebes que vais ter de escrever no blog por causa disso. Depois continuas a correr. Entra uma canção que te acelera o ritmo, que de si já é bom para esta altura. Não te lembras qual é. Por acaso, agora que falas nisso, eu acho que me lembro. Não interessa. O que interessa é que tu lembras-te de estar mais à frente, junto ao Museu da Eletricidade, e de entrar a outra música e de estares de novo vidrado na imagem da ponte, da lua, do céu, tudo aquilo que está no teu caminho. Sentes-te como o Boss canta, a “dançar no escuro”. “Não podes começar um fogo sem uma faísca”, e talvez tenha sido isso, aquela imagem do Mosteiro, apanhada num momento de esforço em que já tinhas libertado bastantes endorfinas para te sentires inspirado que te acordou o espírito. Ou então foi outra coisa. O entusiasmo do ano, das aventuras que tens planeadas. Das “experiências incríveis”, parafraseando uma mensagem que me enviaram. Dos desafios que vêm aí. O ano como um longo caminho de trajectórias inesperadas. Pensas que vais escrever sobre isso tudo, aqui. Pensas que tens um blog novo, que inauguraste de forma não-oficial antes do tempo (porque não consegues, simplesmente, estar calado). Mas que coisas novas terá esse blog? No que é que difere dos outros, para além do nome? Qual é a ideia, a motivação, etc? Já disseste uma vez porque escreves. O Boss ajuda-te (outra vez, mais uma vez) a responder ao resto. Então. Toca agora outra canção, no preciso momento em que topas um barco à vela ao teu lado e apetece-te competir. Homem contra embarcação, o duelo possível neste início de noite de dia um de janeiro do ano de dois mil e dezoito. A canção chama-se (tradução) “Nascido para correr”. Era um dos nomes que querias ter dado ao teu blog antigo, há um ano atrás. Agora estás a correr e depois de muito que se passou percebes que a frase é essa. És, como diz a canção, um “vagabundo”, um daqueles tipos que anda sempre metido em mil coisas e a caminho de outros tantos sítios. Por dever, por querer, não interessa. Estás sempre a caminhar, estás sempre a correr. Estás sempre nessa adrenalina muito especial que é a existência e a sua riqueza. E como tu gostas de a capturar, à existência, como se fosse uma imagem. Daí seres um gajo do cinema, da vida em movimento: tu adoras a vida em movimento. O que é que podes prometer com este blog? Que é assumidamente pessoal. Não é sobre coisas que gostasses que acontecessem ou sobre expectativas ou sonhos ou o camandro. É sobre o que se passa, o que acontece. O que se vive, o que se sente, o que se pensa. Com humor, com alguma dor talvez, mas com sentido. Porque só se escreve se fizer sentido. São regras senhores, são regras. E aqui estás tu, com o álcool que tinhas no corpo a sair com cada passo que dás, a correr para a lua, a passar por baixo da ponte, a cantar a canção que estás a ouvir agora. Trata-se das partes dois e três da outra canção que abriu esta corrida, e dizes que sim, que amas, e quando a bateria entra e acelera tu saltas no meio da corrida como se estivesses num qualquer mosh pit, e sabes que vais chegar a casa e escrever isto tal e qual. A saltar como um miúdo entusiasmado, mas que o adulto que és (a um mês e pouco dos trinta) sabe que tem de ser assim, de vez em quando. E corres, e corres, e ouves tantas outras músicas, desde o Abel até àquela óbvia bicicleta. Despedes-te da corrida despedindo-te do Tony Orlando, uma malha que achas que poderia soar bem no meio de um set de discoteca – nota: de um set muito arriscado mas fixe de discoteca. E vais para casa, dez quilómetros depois. E o ano já começou, “como uma porta que se abriu”. Dois mil e dezassete acabou em blues. Dois mil e dezoito começa com uma corrida. E o que vier, tentarás descrever neste espaço. Ahora sácalo, bébé (Quanto a vocês, fiquem para ler. Sigam por e-mail seguindo as instruções no botão de cima, adicionem no feedly, vão pelo instagramo ou twits, hipóteses não faltam. Prometo entreter, de forma honesta e mais ou menos profunda.) Bem-vindos, e bom ano.

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Fim de ano blues

Abres a porta do prédio e olhas para a esquerda. Tomas consciência, no instante em que fazes o movimento, que isto é algo que costuma acontecer de forma regular. Isto é. Quando abres a porta do prédio costumas olhar sempre para a esquerda. Olhas para a rua a descer. Olhas para o número de carros que está estacionado na rua. Olhas para o rio lá ao fundo, para os barcos que lá estão, e para o céu. Às vezes consegues ver a serra ao longe. Outras vezes não. Outras vezes nem tentas. Vês os barcos, o rio, e é tudo. Mas fazes isto, esse é que é o facto. Como hoje. Hoje ouvem-se pássaros e não há pessoas na rua. Só há carros estacionados. Sais, e vais dar a volta que tens de dar. Passo lento, mãos atrás das costas. Passar pela Rua da Lapa e etc. Passar pelo jardim da Estrela e etc. Metro, sair, visitar, voltar, e etc. Ler no metro e etc. Missa, casa, e tal. E é domingo, é o último dia do ano. É uma boa junção, que o último dia do ano seja o último dia da semana. Significa que há coisas que podes fechar e outras que podes começar a abrir no curto e no longo prazo. Micro e macro-gestão, juntas num só momento. É o sonho de todos os geeks de organização existencial. Como tu. Mas não consideras nada durante o dia. Já fizeste isso antes. Hoje só vives, como se fosse domingo. Exercitas-te, visitas a tua afilhada que faz anos, cozinhas, arrumas a casa, escreves, procrastinas, e descansas. Depois vais passar o ano. Estás com amigos. Pensas em pessoas que não estão ali. Pensas em muitas coisas, como de costume. Também sentes muitas coisas, como de costume, mas ao contrário do que era costume agora assumes tudo o que sentes. Bom, mau, péssimo, incrível. E estás. Estás com uma camisa nova, azul-escura, que compraste nos saldos. Com uma camisola verde e com umas calças bege e uns sapatos de trabalho. Sério, ma non troppo. Jovem, ma non troppo. Tu, totale. Tens desejos. Escreveste-os. Estão no bolso, para te lembrares à meia-noite. És ambicioso, e assumes isso. És fraco, e assumes isso também. E amas. Amas tanto. Amas tanto estes gajos que estão à tua volta cheios de copos e vinho e cerveja e alegria. Amas tanto as pessoas que te mandam mensagens de bom ano. Amas tanto as pessoas a quem mandas mensagens de bom ano. Estás animado. Há algumas razões para isso. Estás com amigos. Tens uma agenda nova, toda estilosa. Conseguiste correr depois de recuperar de uma lesão de caminhada. Estás a beber. Mas estás também convicto de que 2018 vai ser um grande ano. É uma convicção assente no teu interior. Não podes fazer nada contra ela. Não é que te entusiasme ou excite ou te faça querer bradar aos altos berros e saltar para uma pista de dança e soltar a franga. É simplesmente o que sentes. Por isso apenas sorris. Apenas estás. E é isso. Mandas piadas. Contas histórias, e ouves histórias. Ris-te e emprestas livros. Andas na rua e tiras fotografias que achas que são giras para publicar numa rede social de imagens partilhadas. Estás com uma música tua na cabeça. Chama-se “Fim de ano / Ano novo blues”. Estás com o ritmo, sobretudo. Balançado, lento. O refrão fica-te na cabeça. “Tanto que foi e veio / como num carro pela A1 / um passeio na cidade / com o céu já meio-escuro / Tanto que foi e veio / como deve ser o futuro? / Não fico parado, acelero e prego a fundo”. A última frase é um slogan ou intenção para o ano que vem? Não sabes. Também não sei, confesso. A passagem de ano é uma coisa engraçada. É um evento que, na prática, dura um segundo. Num momento, 2017; no seguinte, 2018. E pronto. O resto somos nós que fazemos. A festa, a alegria, a merda, e a vida. O ano que vem será o que tiver de ser. Nós seguimos. E é isso. Bom ano para todos.

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