Cara companheira de silêncio

Era um dia de semana. O homem constatou, quando estava por casa a almoçar, que qualquer coisa tinha mudado, e de forma importante. Nada de novo lhe tinha acontecido, nada de antigo se tinha perdido. Mas ainda assim havia uma mudança. Estar ali, sentado, não era a mesma coisa que tinha sido ontem, ou há uma semana, ou há meses. Não era só um sentimento, parecia também uma certeza.

O homem não sabia a origem deste evento. Pensou se seria da oração, se seria do trabalho, se seria do dia. Pensou se seria da comida, e voltou a pensar na sua teoria de que a loiça nesta sua casa nunca estava totalmente bem limpa, pois tinha a impressão que a máquina de lavar não funcionava muito bem, e desde há uma semana que era preciso comprar esponjas novas para lavar a loiça na pia. Depois pensou se seria do tempo. Estava um bom dia de sol lá fora. Pensou também se seria do tempo per se. O tempo passa, a vida acontece, e de repente, pronto. Não sabia. Também não conseguia perceber a verdadeira extensão e força da mudança. Não sabia se era um facto invencível que tinha vindo para ficar. Mas também não sentia que se devesse preocupar. Sentia-o e aceitava-o. Achou, assim, que o que tinha de fazer era estar como estava. E acabar de comer. E comprar esponjas novas, quando saísse.

Quando acabou de comer arrumou a loiça e entrou no quarto e deitou-se na cama. Estava ligeiramente cansado. Tinha acordado muito cedo com o sol na cara. Ainda lá estavam no quarto os mesmos raios de luz madrugadores, caindo por cima dos lençóis cinzentos, criando uma série de riscas claras. As riscas caíam agora sobre o seu tronco e não sobre a cara. Respirou fundo e fechou os olhos. Não ouvia qualquer ruído ou barulho. Não adormeceu. Ficou apenas estendido, de pernas e braços abertos, por uma quantidade de tempo que não soube precisar. Depois abriu os olhos e levantou-se da cama e saiu do quarto.

Pegou na coleção de histórias de Lydia Davis que comprou na semana passada e sentou-se num dos sofás da sala a ler o micro-conto “Break it down”. Continuou sem ouvir ruídos ou barulhos de qualquer espécie durante os muitos minutos em que esteve a ler. Quando acabou o micro-conto, que achou arrebatador, fechou o livro e pousou-o em cima da mesa de vidro. Manteve-se sentado, as mãos caídas no meio das pernas. À sua frente estava a televisão e o frigorífico preto da sua primeira colega de casa. Ouviu quatro carros a passar pela estrada e lembrou-se que devia regar a orquídea, ou hoje ou amanhã.

De seguida levantou-se e vestiu o casaco e amarrou o cachecol à volta do pescoço. Bebeu um gole de água da sua garrafa metálica, cuja marca se chama “Contigo”. Pegou na mochila e saiu de casa para ir trabalhar. Pôs os óculos escuros na cara e as mãos nos bolsos. O sol continuava a brilhar. Estava um dia bonito, na rua.

Dias depois era domingo e o homem ainda estava assim, mudado. Mas teve um momento, ao final da tarde, que julgou ser uma recaída. Foi uma ligeira sensação do passado, enquanto escrevia uma apresentação académica que ficou de fazer nessa semana. Mas o impacto não foi o mesmo de outras vezes, e o homem percebeu que a mudança ainda estava lá. Atribuiu este regresso a uma possível falta de descanso. Tinha estado a deitar-se muito tarde nos últimos dias devido ao trabalho e a acordar muito cedo devido ao sol que lhe acertava em cheio na tromba. Decidiu que devia parar de trabalhar. Arrumou as coisas e foi para casa.

Deitou-se na cama e adormeceu. Quando acordou já era de noite. Tinha alguma baba na almofada e no canto esquerdo da boca, por cima da barba. Os riscos de luz continuavam a cair na cama, agora sobre o seu peito, embora já não fossem do sol, mas da noite.

Nesse momento, por nenhum motivo em especial, lembrou-se da história que o seu segundo colega de casa lhe contou durante o almoço. O colega, um francês, disse que depois de dois meses na América já não sabe falar francês, isto é, já não sabe dizer certas coisas em francês porque não se lembra das palavras, e como não é fluente em inglês não sabe dizer certas coisas em inglês, e por isso disse que agora está numa espécie de purgatório linguístico porque não consegue falar de forma completa em nenhuma das duas línguas, e disse que de certa maneira acha que isso é uma sensação estranha, como se por se esquecer de certas palavras se sentisse preso numa realidade específica que não conseguisse nomear, num limbo existencial tramado, embora entusiasmante ao mesmo tempo.

O homem não sabe porque é que se lembrou da história naquele momento. Olhou para o tecto e para a grande ventoinha escura que lá estava e pensou se tinha alguma coisa a ver com isso. Mas não, nada. Levantou-se, limpou a baba na cara na toalha de banho e foi jantar.

Depois do jantar fez um chá e sentou-se no outro sofá da sala e voltou a pegar no livro de Lydia Davis. Leu três micro-contos enquanto bebia o chá. O primeiro micro-conto, “The Mouse”, não lhe agradou. O segundo, “The Letter”, era muito bonito. Conta a história de uma mulher continuamente obcecada pelo final de um grande amor. Passam-se meses, um ano, e outros meses e ela não consegue ultrapassar a dor de não estar com o homem que ama. Até que um dia recebe inesperadamente uma carta desse homem que não consegue esquecer. A carta é um poema escrito em francês — a mulher é tradutora. A protagonista lê o poema e não consegue perceber qual o seu sentido, se é uma despedida definitiva, um pedido de regresso, um engano, ou apenas uma recordação querida sem qualquer consequência. Para tornar a confusão mais real e forte, a escritora Davis não nos dá o poema por inteiro, mas apenas a descrição da protagonista a ler o poema e a tentar traduzi-lo, explorando as dúvidas e os significados sobre certas palavras. O poema acaba com a expressão compagnon de silence. O homem gostou dessa expressão imediatamente e repetiu-a para si mesmo: “compagnon de silence” e depois traduziu-a para a sua língua. “Companheira de silêncio.”

Depois leu o terceiro micro-conto, intitulado “Extracts from a life”. Era menos convencional, e não lhe chamou muito a atenção. Expecto, contudo, pela seguinte frase, proferida pelo personagem principal, que neste caso era um violinista japonês, no fim da história. “Filled with the joy of love, I gave up sadness”. O homem gostou muito da expressão, e neste caso pegou na caneta e escreveu-a no seu caderno, que curiosamente também é japonês. Escreveu cada palavra de forma muito lenta, dentro da linha quadriculada da folha.

Quando acabou de escrever fechou o livro e ficou sentado. Olhou para a mesa da cozinha, com a orquídea em cima, e para a pia com a loiça lavada. Ouviu alguns carros, o ruído do frigorífico, a voz da terceira colega de casa a falar polaco ao telefone, os barulhos de uma música vinda do quarto do quinto colega de casa, e o som irritante do francês a roer as unhas no sofá ao lado. Mas estava tudo relativamente baixo e contido. O homem sentia-se, na prática, na “companhia do silêncio”. E era bom.

O tempo passava devagar. O homem cruzou a perna e deixou-se afundar no sofá. Pensou em dizer ao francês para parar de roer as unhas, mas depois não lhe apeteceu. Entretanto acabou o chá. Depois levantou-se e vestiu o casaco e amarrou o cachecol e bebeu um gole da Contigo® e pegou na mochila e saiu de casa. Pôs as mãos nos bolsos e baixou os olhos e começou a andar. Estava muito frio, mas tinha de ir trabalhar. Estava uma noite bonita, na rua.

Nessa noite o homem trabalhou bem, mesmo muito, muito bem. Começou a perceber que gostava muito de vir trabalhar à noite para esta sala, e que o tempo era muito produtivo. Começou a pensar se estaria a ficar noctívago. Entretanto ouvia música e escrevia o guião da apresentação de quinta-feira.

Uma estudante que estava sentada atrás de si levantou-se. O homem sentiu o cheiro do perfume e parou de escrever. Era um cheiro familiar e bonito. O homem esboçou um sorriso, não pela recordação da pessoa a quem o cheiro pertencia mas pelo reconhecimento per se do cheiro. Encostou-se para trás na sua cadeira e olhou para a sala de pedra, com os seus castiçais.

Nesse momento o homem ouviu Lucy Dacus cantar, de forma muito elegante, o refrão da canção “Night Shift”. “You got a nine to five, so I’ll take the night shift / And I’ll never see you again if I can help it / In five years I hope the songs feel like covers / Dedicated to new lovers”.

Depois desligou a música e voltou a abrir a apresentação e continuou a escrever, em silêncio. E ficou assim, até acabar o turno da noite. Arrumou as coisas e foi para casa. Estava cheio de fome.

Confissões de um sem-vergonha

Cuidado, se um dia quiseres ficar comigo. Não sou uma pessoa fácil. Tenho muitas manias estranhas e jeitos tresloucados. E o pior é que ainda não os conheço a todos. Vou descobrindo novos à medida que o tempo passa. E já se passaram trinta anos e uns quantos dias, e eles não deixam de aparecer. Posso dar-te um exemplo; por acaso descobri um recentemente. Acabei de me aperceber que sou um jardineiro terrível. É verdade, juro. Comecei a reparar que sempre que me meto numa casa acabo por semear ideias, sentimentos, paixões, medos, curiosidades e coisas do género. Passado um pouco começam a aparecer livros pela casa. Livros num canto, livros noutro. Livros na cozinha, livros na sala. Já existiam uns quantos antes, tipo três, sobre temas várias. Mas de repente, quando dou por ela, tenho já pequenas bibliotecas espalhadas pelas várias divisões comuns e pela minha própria. Não sei como o faço, mas acontece. Livros de Direito, livros de ficção científica, livros de ficção pós-moderna, livros de ficção clássica, livros de poesia, livros de exercício e nutrição. Sim, ri-te: também me rendi a esses. E sabes que mais? Leio-os a todos. É verdade. Vou pegando num e noutro, e lendo e passando de ficção para Direito, de Direito para poesia, de poesia para tecnologia, de tecnologia para ficção, de contos para romances e outros contos e outros romances. E nunca pára. Que queres que faça? Não resisto entrar numa livraria e ficar horas e horas por lá, olhando para as capas, para as páginas, para as descrições. Deixo-me seduzir por todos eles, ofereço-lhes a minha atenção e tempo, em troca dos mundos e reflexões que me podem dar. Por vezes é amor à primeira vista, e outras vezes é inesperado, e outras vezes há planos, e concretizam-se. Mas confesso que, no geral, é tudo muito impulsivo, como uma necessidade. Como hoje. Entrei na Literati. Sabes o que é a Literati? Acho que nunca te falei da Literati, portanto não deves saber. É uma livraria muito boa aqui de Ann Arbor. Decidi, depois do almoço, passar por lá para buscar dois livros. Ando já a ler três, fora os da tese. Já nem sei quantas vezes fui lá. Acabei por sair com três. Porque senti a conquista e o apelo. E sei que não foram os últimos. Para piorar — e para veres e saberes que tipo de louco sou — escrevo cadernos. Sim, cadernos. Não sabes o que são? São uns livros, com folhas em branco — isto é, sem nada escrito. E como tenho uma cabeça que não consegue parar quieta aproveito para escrever lá. Escrevo muita coisa, muita muita coisa. Gosto especialmente de cadernos japoneses, sabes? As capas são sóbrias e o papel robusto. Há uma elegância zen que é impecável. Agora também me apaixonei por uma caneta. Nunca me tinha acontecido; estás a ver, continuo a descobrir. É uma caneta bonita e elegante, bicuda, de tinta preta. Agora escrevo tudo com a caneta, no meu caderno japonês comprado (onde? Sim, na Literati). Apontamentos, notas, postais, contas. Tudo. Portanto atenção, cuidado. Se um dia quiseres ficar comigo, prepara-te. Porque vou trazer os livros que tenho, que são a soma de várias bibliotecas construídas ao longo dos anos, em quartos pequenos espalhados por Lisboa, Trento, Edimburgo, Bruxelas, e Ann Arbor (duas vezes). Há muitos que não li, mas que vou ler. Há muitos que me ofereceram, e que eu adoro. E há muitos que hão de vir. Adoro-os a todos. Todos. Porque permitem-me acreditar no mundo. Não sei explicar isto bem; a Ursula K. Le Guin explica-o muito melhor. E tinha de te dizer. Cuidado, atenção, que aqui está um leitor ávido, que leva sonhos, sentimentos, paixões e curiosidades, intenções e pancas, e livros, muitos livros para onde quer que vá. E faço-o sem vergonha. Sem um pingo de vergonha. Só para que saibas.

Oração diária

Faz do teu dia um trabalho, dedicado e devoto. Faz dos teus olhos uma ferramenta, uma porta, e uma janela. Sobretudo, saboreia os descansos que consegues ter para te enriqueceres, seres provocado, procurares de forma mais profunda, e descansares. E quanto ao resto enfrenta-o, com força e serenidade, humor e compaixão, aberto mas justo. Se preguiçares, compensa duplamente. Pensa, e se sentires que sim, e que deves, age. Se não, mantém-te no silêncio e no espaço onde estás. No final recolhe-te, e agradece o que aconteceu e te foi dado. Abre-te por completo, assume-te como foste, como estás. Pede perdão e perdoa, por mais difícil que seja. Ou pelo menos tenta, e promete que tentarás com mais força no dia seguinte. Chora, se estiveres em sofrimento; sorri, se estiveres alegre. Ou então deixa-te estar, somente, e olha em redor. Vê onde estás, o que te protege por estes instantes. Fixa as paredes, as janelas, a pouca ou nenhuma luz que te rodeia. Fecha os olhos, se preferires. Pede força e sabedoria. Agradece, mais uma vez, pela simples e difícil beleza das coisas. Depois fecha o dia como se lhe desses um bom abraço de despedida. E dorme, porque de manhã recomeças com o amor e a verdade como mínimos. Aproveita.

Elogio de uma cidade amada

Sabem o que é uma casa vazia? É um quarto, carregado de sonhos e medos e oportunidades, mas maior. E sabem o que é uma cidade vazia? Pois bem, digo-vos que é como se fosse uma casa, mas um bocadinho maior ainda. Os ritmos e os espaços são todos eles nossos, e todos eles cheios. Oh Ann Arbor, que quem cá estuda te abandona, em busca do sol e do calor distantes. Mas eu não, eu fico. Eu fico e vivo como um dos teus, sem símbolos universitários à mostra, levando o éme da tua universidade só no nome, e apanhando de forma decidida com o vento que mandas para as nossas caras. Paro nas lojas de East Liberty e visito as tuas instituições com reverência, como o Crazy Jim’s Blimpy Burguer, os cinemas, os museus, os bares, o Blind Pig, o Ashley’s, e as ruas, todas as tuas ruas. E sei que um bom café não é no Comfort mas sim no Roos’ — damn fine good coffee — e que se queres pizza vais ao Bob’s e não à Domino’s. E sim, have a good one, eu tenho sempre uma good one por cá, sem excitação, só verdade. Sim, sim Ann Arbor, podem chamar-te “A2”, os estudantes e os passageiros, e acharem-se próximos, mas à merda com eles: quantos é que já te percorreram de manhã até à noite a pé, por todos os caminhos e trajectos, de Eisenhower até North Campus? Quantos é que deixaram quilómetros de sentimentos e pensamentos pelos teus passeios de pedra, admirando a tua subtileza e estética, e a calma elegância das tuas casas e lugares? E quantos é que voltaram para receber mais do mesmo? És um monumento de salvação existencial, és o melhor date que a América me podia dar. Porque voltei anos depois e recebeste-me como a um filho querido, porque estou cá e tratas-me como um dos teus, como um destes locals abertos e tolerantes, malucos mas dos bons, cheios de mundo e de histórias, que tal como eu ou os seus pais ou mulheres ou maridos vieram cá parar sabe-se lá como, e descobriram este tesouro. És pequena e és querida, mas tens em ti o tamanho das vidas, das dores e das alegrias que cada um carrega. E isso é imenso, acredita. És o local ideal para uma Quaresma segura, para um Inverno aquecido, para um aniversário longínquo, para um regresso cinematográfico, para um estudo de sonho e para um reabastecimento de power. Oh, Ann Arbor, tens nome de mulher, um nome bonito e simples, e mereces toda a dignidade e entrega que te possam oferecer. Dás-me qualidade e quantidade, de forma simples e humilde. Carregas-me de amor pelos dias, pela rotina, pela rua e pela casa. És uma rainha que embala para o desprendimento. A melhor banda sonora para caminhar é aqui, a música soa de outra forma porque é sempre certeira com o espaço, com o ritmo e com o sentimento, com estas casas de madeira e alpendres muy americanos, com estes campus de conhecimento inimagináveis, com esta comunidade tão boa e receptiva. Oh, Ann e Arbor, um porto sem “agá” e sem mar, mas com segurança suficiente para me sentir arriscado, exposto, descarado e forte, tentado pelas verdades simples e corajosas que são um filme bom, um livro bom, uma bela canção, uma loja boa, uma boa comida, um sofá bom, um dia bom. Oh, América, sê o que quiseres, que no teu melhor só poderás ser isto, um sonho de mundo chamado Ann Arbor, Michigan. E graças por isso, e pelos três meses que faltam. Que sejam o que quiseres dar. Porque eu sei o refrão de cor: com a medida com que medires, esta cidade medir-te-à.

Spring brake blues

(As pessoas voltaram, e a cidade reiniciou-se. Dizem que vem frio, dizem que vem chuva — dizem que ainda vem pelo menos mais uma dose de neve. Estou aqui, afundado pelo cansaço, na minha cama enorme, perante o grande pé direito do meu quarto. É de noite e entra uma luz muito clara pelas aberturas dos estores; é de manhã e a luz continua clara mas mais encorpada, boa para uma fotografia analógica. Lembra-me uma série de fotografias de Richard Misrach, ou um quadro de Helen Frankenthaler. Mas aqui, exposto para minha consideração, em minha casa. Continuo deitado, apreciando a simples certeza deste cenário. Mais um dia que se inicia, mais uma dedicação que se propõe. E continua tudo tão calmo, tão vivo e tão provocador, deste lado do azul.)

A neve cá dentro

A neve cai lá fora, silenciosa e rápida. Chovia de manhã quando acordei — de repente, sem que desse por isso, começou a nevar. Ficou tudo branco numa questão de instantes. As casas, as ruas, os passeios, os carros. Tudo branco. Estou deitado no sofá da sala de casa. Não estou a fazer nada, não penso em nada. Não me sinto de forma especial, nem feliz nem triste, reflectivo ou aborrecido. Nem sequer é confortável o nome. Estou. Estou só à espera. Do quê, perguntam? Não sei bem nomear. Do tempo. Da hora. Da vontade, do desejo. De uma ideia, de um contacto, de uma pessoa. De um sentimento, de uma alegria. De uma dor. De uma verdade. Do amor. Sim. “Ainda espero o amor”, como um investigador, caído no sofá, espera o definhar de mais um dia. Primeiro acorda-se, e pensa-se e sente-se tudo. Tudo. Não me perguntem como é: é mais do que aquilo que quero falar. Porque de noite, quando me deito, não se pensa. Sente-se só o suficiente para saber alguma coisa sobre nós, os outros, e o que pode vir. É do tempo. E o tempo, agora, apenas dá, com certezas, para um dia de cada vez. E às vezes sim, admito, é difícil. Outras vezes é muito, mas mesmo muito difícil. Não é complicado; não vamos complicar as coisas. E outras vezes, para ser sincero, nem chega a ser assim tão chato. Mas quando olho para trás, para os dias que passaram, sinto que foram todos, de uma forma ou doutra, sempre bons. E cheios. Outras vezes é só bom estar em casa, entregue ao que houver. Não discuto o que fiz, o que me fizeram, ou os eventos e os sonhos e os anos que existiram para trás e até agora, porque a verdade é o que aconteceu, o que acontece e o que vai acontecer. Tem outra importância receber e aceitar as coisas desta forma, sabem? Mas hoje posso-vos confessar que sinto que vivi, e muito, durante esta semana que está a findar. Vivi tanto, sem fazer nada de extraordinário, nesta terra de árvores nevadas, universidades de topo e casas de madeira. E se por vezes escrevo muito e sobre as mesmas coisas, ou se me calo repentinamente durante dias, ou se me abro de forma bastante despojada, sendo descarado e entregando-me, a mim — ideias, vidas e sentimentos — a este aglomerado mais ou menos cuidado de palavras que escrevo, arriscando ir para lá daquilo que seja razoável dizer sobre a vida e os dias e o que sinto ou deixo de sentir… bem, que querem que faça? Sabem, o amor é o que eu quero. O que é, é o que eu quero. Uma entrega, forte porque verdadeiramente desejada. Frágil, porque humana. Mas dedicada, porque querida, e exigente porque só pode ser assim. Sim. “O amor é um cordeiro / que grita abraçado à minha canção”, acaba assim o poema. E eu continuo deitado no sofá, minutos depois disto tudo. Continuo assim, certo, e à espera. À espera de quê? Acho que do momento seguinte em que não vou estar assim como estou agora. À espera do segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano. Quando o momento chegar, chegou. Posso só garantir-vos que vou estar pronto para o receber. É o que sinto como sendo certo, aqui deitado. Isso e que esta foi uma óptima semana. Isso, e que a neve continua a cair lá fora — branca, fria e fresca. Isso, e que “Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar / caminha para o mar pelo verão”. E agora com licença, que vou de fim-de-semana. Até já.

Um passeio por Oakland Av.

Resolvi ir a outro supermercado em vez do do costume. E assim saí de casa e virei para começar a descer Oakland Av.. As casas em Oakland Av. são do género da minha. Casas de madeira, com telhados bicudos (a maioria), janelas duplas e alpendres e varandas muito elegantes. Há muitas árvores e muitos pequenos jardins em redor das casas. Esses jardins e os passeios em redor estão pejados de folhas. As árvores estão nuas de inverno. Ainda se vê alguma neve, muito suja, nalgum ponto ou outro. Mas já derreteu quase tudo. O inverno está já no seu último mês, já em despedida. E eu avanço, olhando para os pequenos tesouros mundanos com que me cruzo. Vejo uma casa pintada em tons brancos, roxos e cores-de-rosa, como se fosse uma gigantesca casa de bonecas. Vejo, graças às portadas abertas, alguns interiores de casas, como cozinhas ou quartos, com bandeiras da universidade ou dos EUA na parede. Vejo uma impressão de papel do Justin Bieber circa a era do Baby com uma camisola da universidade. Vejo um tipo que circula pela estrada numa daquelas bicicletas ou triciclos (perdoem-me a falta de conhecimento técnico) em que se anda deitado. Dou uma saudação ao carteiro. E vejo — como não posso deixar de ver? — os nomes das ruas e avenidas e becos, sempre a falarem-me como se fossem personagens ou mundos imaginários, como Arch St., Tappan Av., Church St., East University Av., e etc. Vou ouvindo música da minha lista “AA best”. Trata-se de um pequeno compêndio de canções que vou juntando porque têm batido bem com estes dias cinzentos, estas casas de madeira, e esta América universitária e distante onde me encontro. Father John Misty está a deixar LA e está tudo certo em Oakland Av.. Da mesma forma que, quando esta acaba e viro necessariamente para South Forest Rd. só faz sentido ouvir Amy Annelle a cantar sobre pretty songs and pretty places. Não sei se “o Inverno no Leblon é quase glacial”, mas a verdade é que o Inverno de Adriana Calcanhotto combina bem com Roosevelt Avenue, assim como é “óbvio” que Jamie xx combina bem com Minerva Rd.. Quando chego a Burns Park, onde famílias jogam basebol ao fim-de-semana, toca Sportstar de (Sandy) Alex G e podia ser forçado, mas não, nada. E eu não paro, mas também nunca acelero. Vou vendo as casas e as arquitecturas e as portas e vou apreciando o vento que me bate contra a cara e todo este espaço, entre a fronteira da zona dos estudantes e a zona das famílias de Ann Arbor (facto para se saber a diferença: menos mesas para beer pong, mais cestos de basquete no quintal). O céu não abre, mas tudo bem. Ainda faltam uns bons minutos para chegar ao supermercado, mas ainda melhor. Continuo a andar, e as músicas a tocar, e vou vendo, somente. E escrevo na minha cabeça estes postais. Sabe bem.

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Assim, e aqui

Reparo — não sei se pela idade, se pela vida — que sou cada vez mais capaz de me emocionar hoje em dia. Sou cada vez mais capaz, e sem vergonha de o admitir, de me desmanchar por completo quando estou perante uma verdade que me toca, puxando-me irremediavelmente para dentro de si e não me dando outra opção que não render-me à sua força e evidência. Quando falo de verdades falo de coisas sérias. Como, por exemplo, a canção Astronaut dos Beach House. Ou o belíssimo poema cinematográfico de Dziga Vertov. Ou um solo de Harpo Marx. Ou a cor vermelha da Ross Business School, em Hill St., Ann Arbor, quando são seis da tarde e cinco minutos de domingo, vista da janela da minha sala quando o sol está quase a ir-se embora. Ou o título Hanging a poem on a cherry tree de uma pintura de Ishikawa Toyonobu. Ou uma nova e bonita canção dos Yo La Tengo. Ou então — e principalmente — quando leio, sentado na minha cozinha em Hill St., Ann Arbor, o elogio que Ruy Belo escreveu para a sua mulher, Maria Teresa. Isto minutos depois de me ter emocionado ao ler o artigo em que Alexandra Lucas Coelho fala sobre a morte da mesma Maria Teresa. Sim, é verdade, sou cada vez mais capaz de me quebrar perante demonstrações de amor como estas, verdadeiramente complicadas e bonitas, que me tocam sem que eu possa perceber sequer porquê ao certo: porque é que soluço como uma criança, ou porque é que choro como se fosse uma montanha de fragilidade. Estou só sentado, numa cozinha em Hill St. (Ann Arbor) que já está a ficar escura devido à crescente falta de sol. E é ainda nesse sítio onde estou quando as lágrimas deixam de correr, e deixo a minha mão esquerda em cima da mesa e a direita em cima da perna respectiva. E olho — com um ar normal, mundano, rotineiro — em frente, para a orquídea que está em cima da mesa, para a pia com pratos por lavar, para a máquina que faz o café mais detestavelmente delicioso que provei. E depois olho para a janela e para os estores. Vejo uma almofada no alpendre e a estrada. Nada de carros. Estou aqui, estou assim. Um homem, e sentimental. E basta.

Semana piloto

Estou deitado no sofá da sala. Há dois, mas este é sofá. Olho para o tecto, e depois olho em frente. Vejo a cozinha, enquadrada pela divisória estreita. É de noite e está escuro. Na cozinha só se vê a luz que entra pelas frechas dos estores, como nos filmes. O relógio do fogão dá as 10:57, em numerário digital de cor verde-clara. Estou a fazer tempo para ir dormir, ou simplesmente a chilar. Não leio nada, o computador já está desligado. Édefones? Nem vê-los, bem como o telefone. Estou entregue à noite, com ideias, pessoas e eventos, memórias, desejos e perguntas a passarem em loop na minha cabeça. Mas de forma algo zen, não sei explicar. Estou calmo, muito. E de repente, de um momento para o outro essa calma é absorvida e só se ouvem as teclas graves de um piano a criar uma imensidão de espaço e uma voz que canta. E sinto que estou no final de um episódio de uma série qualquer, daquelas que costumavam dar no início dos anos zero na HBO, tipo John From Cincinnati ou os Sopranos, em que o protagonista, existencialista por natureza, se encontra (tal como eu) desarmado perante o tempo e o espaço. E tudo à minha / sua volta fica iluminado por uma ténue luz no tecto e levemente azulado, como se tivesse sido aplicado um filtro cor de mar na realidade. E então ele levanta-se — na sua cabeça, ou na realidade, não sei, nunca dá para perceber bem na série (acho que esse é o truque) — e caminha lentamente pelo resto da casa. Pára e entra em cada divisão da casa, como se estivesse a assistir a uma peça de teatro imersivo no Júlio de Matos ou na Serra de Sintra (mas sem sustos), observando situações e pessoas da sua vida presente e passada e futura, mais duras ou mais felizes, enquanto as cores das paredes são muito mais vivas e as caras das pessoas nos eventos muito mais iluminadas. Toda a gente está elegante: as mulheres de vestido, saltos e maquilhagem, os homens de fato, camisa e gravata, todos altamente produzidos para aquele momento. Até o personagem está de fato e camisa branca, mas sem gravata, levando o casaco por uma mão e deixando a outra no bolso. E a música continua a tocar e não se ouve mais nada, seja barulho, ruído ou conversa. E o personagem como que navega por todos estes cenários e pessoas, algumas delas paradas como estátuas, outras a  sorrir ou rir, de forma leve, e outras a fazer gestos mundanos e simples, mas lentos e por vezes absurdos. Como estar sentado e mexer uma perna, ou ver um jogo de futebol em pé na televisão, ou observar a água de uma piscina, ou beber um copo de vinho por uma palhinha num balcão. E ninguém lhe liga meia, ninguém o vê, ninguém lhe toca. É como se ele fosse um fantasma ou um deus, omni-presente e perdido. E ele observa tudo, reconhece tudo, e aceita tudo, com um ar sério mas sereno. E os espectadores mais referenciados de todo este espetáculo rapidamente se apercebem das semelhanças com os sonhos de Dale Cooper em Twin Peaks, mas sem ser macabro ou confuso, só melancólico. E o existencialista depois de passar pelos quartos volta para o sofá — ou será que esteve sempre no sofá, como eu, enquanto a música tocava na minha cabeça? — e há um plano visto de cima do seu corpo deitado, vestido com calças de fato-treino escuras e uma t-shirt cinzenta. Tem barba grande e o cabelo escuro, a mão direita na barriga e a mão esquerda entre a cabeça e a almofada, e os olhos cara-a-cara com a câmera. E na série o episódio termina e fica escuro no exacto momento em que a canção acaba com aquela última nota de violoncelo. Ficamos com a cara do personagem a olhar para o tecto, naquilo que temos de interpretar como sendo a sua reacção ao que se passou. Na vida real, onde não há truques de montagem, continuo deitado, da forma descrita, e está escuro. E eu olho para o tecto e depois para a cozinha, e depois para os meus pés. Estou — estava, estive — entregue a uma semana americana de silêncio e solidão que, de forma pouco subtil, acabou de começar. Já estava a fazer falta.

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O terceiro domingo

É difícil resistir a um bom domingo. O corpo pesa contra a cama, e o calor do quarto diz-nos o que o nosso sentido de dever não quer ouvir, que é: estás bem onde estás. E estou, de facto. Os olhos demoram a abrir, as remelas são algumas. Os músculos estão moles e qualquer movimento é feito com o intuito inconsciente de encaixar naquilo a que os antigos chamam de “ronha”. Infelizmente para o meu desejo, a ronha é algo que naturalmente me dura pouco. Mas quando me ponho de pé está tudo com o ritmo de domingo, isto é, para lá de calmo. Ajuda não ter ninguém em casa, embora se estivesse alguém em casa das duas uma: ou estariam no quarto, ou não estariam em casa. E chego à cozinha e vem sol pelas janelas. Depois escurece — reparo que ainda há nuvens no céu. Oiço carros, o frigorífico, e pássaros que cantam. Sim, estão dois pássaros pequenos no front porch (podia escrever alpendre, é um facto, mas gosto tanto do nome em inglês, porque é uma realidade tão deliciosamente americana). Tomo o pequeno-almoço e saboreio com gosto este café da treta com um duas gotas de leite. Leio ainda a crónica semanal do João Gama e vejo qual o estado actual dos jogos de futebol que decorrem nas três da tarde do velho continente. E já sei que o dia se vai desenrolar ao ritmo desta serenidade ociosa. Gostava de fazer outras coisas mais sérias e devidas, como por exemplo ler, ou como se diz na minha profissão, “trabalhar”. Mas ontem cometi um erro crasso e hoje estou a sentir os efeitos. É que ontem trabalhei, e bem, e era sábado. E depois cheguei a casa e fiz algum exercício na sala (faltava-me um quarter para o cacifo do ginásio, e quem não tem cão caça com gato). E depois tomei banho e vesti-me como um estudante americano, com calções e t-shirt. E depois cozinhei algo rápido de preparar mas nutritivo para alimentar (desculpem pela rima). E depois sentei-me no sofá de casa. Erro um. Abri o computador e li umas coisas, escrevi outras, etc e tal. Planeei a semana como um rei. E depois — erro dois — fui fazer papas de aveia. Foi preciso vir para os EUA para começar a apreciar a comodidade de umas papas de aveia bem quentes, com bocados de compota ou fruta por cima. O terceiro erro foi fazer um chá — gengibre, topam? E tudo descambou no erro quarto e final. Qual foi, perguntam? Pois bem: ver um filme. Mas não um filme qualquer. Um grande filme. Mas um grande filme não porque me põe em questão, enquanto ser humano, perante os mistérios do mundo. Um grande filme porque é uma história rica e muito, mas muito bem contada, com complexidades humanas bem apresentadas, precisão narrativa “impec”, uma produção ímpar, uma realização ex-tra-or-di-ná-ria e, bem, e com Orson Welles a dar estilo. Falo do Terceiro Homem, de Carol Reed, um clássico noir de 1949 que me escapava há anos. Acabei rendido, e acabei na cama, confortável como tudo (as papas, o chá, o filme — vocês percebem, não percebem?). Não se pode fazer isto antes de um domingo, porque isso é pedir de forma irreversível que o domingo seja o que um domingo tem de ser: plácido, confortável, e vivido ao seu ritmo. E foi o que foi. Uma ida ao museu, concertos jazz no museu, escritas, muito sofá, mais chá, livros, mais filmes, futebol, oração, e é isso. Um domingo é o dia, no calendário existencial, de calma antes da tempestade, de descanso antes da competição, de reflexão perante a tribulação. O mundo nunca acaba aos domingos; é um dos poucos prazeres que temos garantido. Por isso, mais vale deixá-lo aproveitar-nos, e irmos na onda. Com o mesmo sorriso maroto wellesiano.

The Third Man courtesy of Studiocanal 08

Estes belos cinemas

Podemos criticar a América por muita coisa, mas este é o país do cinema, e em que o cinema é, para além de uma mera arte ou tradição, uma instituição cultural, venerada e venerável. Como canta o Guillul: “este velho cinema / é um lugar sagrado”. Não falo do star system e da fama (“how’s Madonna?”), mas da arte e do cuidado de ver e ir ao cinema. E isso topa-se pela qualidade de muitos pequenos cinemas de bairro, como o State e o Michigan Theater. São ambos geridos em conjunto e financiados pela comunidade local. O Michigan Theater é mais antigo, e parece um saloon do século passado, com muita elegância. O State é mais moderno, mas igualmente acolhedor. As cadeiras no State têm os nomes das pessoas de Ann Arbor que pagaram a renovação recente do cinema (por exemplo, quando fui ver o Ladybird reparei numa placa que me informava do seguinte: “you are in Don Evans’ seat”). No State há vendedores de bilhetes que comentam o filme com os espectadores antes de estes entrarem — “Ladybird? It’s awesome, and you’re gonna love it. / Shape of Water? It’s cool, I mean, I enjoyed it, but preferred Phantom Thread”. No Theater há uma bilheteira exterior dentro de uma cabine de vidro, à antiga, e um bar de pipocas com um balcão dourado. Em ambos há placas grandes e luminosas, com os nomes dos filmes em letra maiúscula. São uma grande atração urbana e central da cidade. Faz-me sentir tão bem, um cinéfilo inveterado ir a um sítio que cuida tanto de uma arte que lhe diz imenso. Seja pelas cadeiras mais que confortáveis (esqueçam as memórias do cinema Londres: this is the real deal), seja pelos improvisos de standards jazz que um organista toca para entreter aqueles que chegam mais cedo à sala, ou seja, simplesmente, pela programação: um misto impecável de filmes americanos de qualidade, estrangeiros com muito nível, ciclos de cinema antigo (decorre às segundas-feiras uma retrospectiva de filmes japoneses de samurais — que na realidade é uma retrospectiva de Akira Kurosawa disfarçada de retrospectiva de filmes japoneses de samurais) e experimental / alternativo (sem falar das matinés infantis ao fim-de-semana). Ou seja, há para todos os gostos e feitios. E é difícil, quando se está num sítio assim, que nos proporciona a melhor experiência de cinema — que é das melhores experiências que há neste mundo, ver um filme projectado numa sala escura juntamente com outras pessoas (“oh, what did the movies do to us?“) — não sentir o feitiço de forma mais acutilante. A verdade é essa: enfeitiço-me na sala e saio, ainda enfeitiçado, para a rua. E tudo à volta me parece balançado pelo ritmo do filme que acabei de ver. Num caso é a música de Johny Greenwood, pausada mas precisa, pautando a queda da neve e os movimentos em redor. Noutra é a música de Jon Brion que me marca o passo a caminho de casa. E noutra é ainda a bonita oldie de Alexander Desplat, cantada por Renée Fleming. Até o sino de Burton Tower que começa a tocar às nove horas da noite está em equilíbrio com as composições urbanas e existenciais em que me encontro. Por baixo das luzes dos cinemas sinto a calma de tudo. Poucas pessoas, poucos carros, muita ou nenhuma neve, muita lentidão e muito silêncio. Não sei se é do tempo, se é do filme, se é do sítio ou se é de mim. Mas é. E estou a descer a rua para casa e penso como esta cidade não mudou nada em seis anos, excepto pela loja de roupa feminina por onde passo (com cartazes de venda de biquinis para o spring break que se aproxima) que veio substituir o Five Guys aqui do sítio. Hambúrgueres por fatos de banho: é o que é. E o que é é que esta cidade continua confortável como tudo. Quando estive por cá há quase seis anos atrás achei que a América era igual aos filmes. É a terra dos filmes, e eles fazem parte dela. Não há como fugir, nem se quer. Belos cinemas, estes. E boa cidade, esta.

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Romance académico, número dois

O investigador estrangeiro está sentado na sua secretária. É domingo e ele é uma das duas pessoas que se encontra na sala dos investigadores — a outra é um colega asiático, bastante calado e introvertido, que entra e sai do seu gabinete de doutorando de 20 minutos em 20 minutos. Os domingos à tarde, pensa o investigador, são bons para se estar na secretária, de pernas esticadas, a ler sobre temas interessantíssimos, como por exemplo, o carácter socio-político da união económica e monetária, ou as concepções macro-económicas por detrás do Tratado de Roma, e etc. Nisto entra uma terceira pessoa na sala. Trata-se da senhora da biblioteca. A senhora da biblioteca é uma senhora que, como o nome indica, trabalha na biblioteca da faculdade. Tem metade da altura do investigador, e um ar de avó “fixe”, com cabelo branco curto, ténis brancos de desporto, roupa de ginásio mas camisola de malha, óculos redondos e grandes e um ar de quem tem uma genica maior que muitos tipos com metade da sua idade. Parece, pensa o investigador, saída de um desenho animado subversivo, tipo Ricky e Morty ou Phineas e Ferb. A senhora da biblioteca vem entregar um livro requisitado pelo investigador. Talvez por ser domingo, ou por a senhora da biblioteca ser uma senhora da biblioteca — i.e. uma pessoa que tem um gosto (ou, para sermos honestos, uma necessidade) de falar para lá do normal — os dois metem conversa. Dentro da conversa vão parar ao assunto da fama. A senhora da biblioteca diz que gosta muito de ler sobre pessoas famosas, de saber as suas vidas. Fala disto como se fosse uma adolescente a confessar a sua primeira paixão, com um ar semi-envergonhado mas ao mesmo tempo muito entusiasmado. Diz que uma vez teve um aluno da faculdade a requisitar um livro, e ao ver o apelido reparou que era conhecido. Perguntou-lhe: “What is your connection to Kurt Vonnegut”? E o aluno respondeu que era neto. E sempre que o aluno vinha pedir um livro a senhora perguntava-lhe como estava o avô, se ele ainda escrevia, como era ser neto dele, e se podia pedir ao neto para pedir ao avô um autógrafo para ela. O investigador diverte-se a imaginar um neto de Kurt Vonnegut, na biblioteca da faculdade de direito da universidade do Michigan, a ter de lidar com uma bibliotecária da idade da sua Mãe e altamente chata, que lhe pergunta sempre sobre o avô. Será o neto de algum modo parecido com Billy Pilgrim, o grande anti-herói Vonnegutiano? O investigador ri-se ao pensar nisso, e a senhora da biblioteca ri-se de volta, ou por imitação ou por achar que o investigador se está a rir da sua história. No final, riem os dois, a senhora da biblioteca e o investigador. Depois dá-se aquele momento de silêncio embaraçoso, em que ambos têm de — e, no caso do investigador, querem — voltar ao trabalho. O investigador vira-se de novo para a secretária e abre o computador, enquanto a senhora da biblioteca vira-se para o corredor dos gabinetes dos doutorandos para ir entregar outro livro. E parece que sim, que a interação se fica por aqui, que foi isto, e so it goes. Mas a senhora da biblioteca vira-se de volta. O investigador percebe que ela vai voltar a falar e que o vai interromper. A senhora da biblioteca aproxima-se e o investigador pensa se deve ou não virar-se ou ficar simplesmente a olhar para o computador, dando a ideia de que precisa de trabalhar. A senhora da biblioteca pergunta: “You said you are from Portugal?”. Ao que o investigador se vira e responde: “Yes”. “From where in Portugal?” e o investigador responde: “I’m from Lisbon”. Ao que a senhora da biblioteca sorri. Sorri como quando falava da fama há pouco, e parecia uma miúda de quinze anos a contar um segredo, como que escondia cartas de amor na gaveta da secretária, ou revistas que os pais não lhe deixavam ler debaixo da cama. E antes que o investigador possa imaginar sequer o que é que aí vem — como, por exemplo, uma história de uma viagem a Lisboa, há anos atrás, quiçá durante o Estado Novo, um romance com um lisboeta da Madragoa num momento de intercâmbio universitário, imagens de praias, fado e boémia lusitana num Verão de esperanças quebradas e que agora existem como uma bonita nostalgia (claramente que o investigador quer estar a estudar a união económica e monetária, não acham?) — a senhora da biblioteca pergunta. “So”. O sorriso mais aberto, ainda mais adolescente. “How’s Madonna?”

Esta idade, ou um improviso de Martinho Lucas Pires*

a idade só pára quando tu

a idade só pára quando tu

cumprires com o teu dever

e depois (re)começares outra vez

o tempo apanha-me e é meu

cada um sabe do seu

mas sabes que estamos a vencer

e para isso só temos de ter

luuuuuuz

vem e junta-te aqui na dança

agarra-me como uma âncora

enche-me até rebentarmos

no inverno-o

no inverno-o

quando lhe dermos forte

como tu queres

os dias são sempre em frente

se não gostas sê valente

não vou ser um boémio

mas vou divertir-me

o tempo apanha-me e eu

penso em como ser mais seu

sabes que podes falar

e, se quiseres, chorar

oh, siiiiiiiim

somos bons, e é bom viver

queremos o bem, mesmo se doer

que sobrevivas a todo o prazer

no inverno-o

no inverno-o

quando lhe dermos forte

como tu queres

acho que tens o que é preciso

não é preciso muito, é só isto

aceita o que é sentido

e trata de tudo sem pruridos

tenho de apanhar-te em mão

tenho de apanhar-te, pronto e não

não vou parar de sorrir

mas vou continuar a sentir

oh iééééééééé

por isso apanha-me e exige muito

sê o meu suspiro profundo

vem viver por todo este mundo

no inverno-o

no inverno-o

no inverno-o

e mais além

*Inspirado na canção “Middle America” de Stephen Malkmus and the Jicks, 2018. O espírito do dia (e os invernos, primaveras, verões e outonos que para aí venham) é este, e é também o do instrumental em baixo. Ou seja: a abrir. Sempre a abrir. E é isso. Siga nisso? Siga, bróda. Siga bem nisso.

O Inverno

O Inverno é uma cidade pequena com dois nomes, ambos começados pela letra ‘A’, localizada no norte desse país conhecido como Estados Unidos da América. Uma cidade pequena, numa sexta-feira à noite, carregada de neve pelos passeios e pátios e estradas, pelos tectos das casas de madeira que parecem ter saído de uma maquete gráfica do Wes Anderson, pelas ruas com os candeeiros ligados e sob o céu escuro mas muito (mas mesmo muito) claro. As ruas que estão adornadas com os nomes dos muitos bares que existem, nomes escritos em letras grandes e diferentes, algumas em neons, algumas mais estilosas. Bares com grandes janelas e luzes baixas e paredes de tijolo riscadas com nomes de bandas de rock n’roll. Ou então bares com cadeiras e mesas “de design” e barmans armados ao pingareiro e um mestre de sala que parece um detective do Law and Order: tough, esguio e canastrão como tudo. Ou outros bares, mais universitários, escondidos debaixo de escadas, com luzes baixas e grandes balcões de madeira como se fossem saloons de cowboy. Bares esses cheios de pessoas, e de álcool, e de pessoas alcoolizadas pela vida, pelo frio e pelo desejo. Bares esses onde se bebe uma pats blue ribbon por tuta e meia e se conversa sobre o mundo de borla e ainda se apanha com Thundercat nas colunas da sala. Bares onde se está até fechar, quando se passa de novo para a rua e rapidamente para uma loja de pizzas (ou pizzaria, se preferirem) local. O dono, um siciliano imigrado em Nova Iorque (com cara de siciliano imigrado em Nova Iorque) agarra-nos a mão com força, depois de dois dedos de conversa em italiano sobre Ann Arbor, e diz, com os seus olhos muito esbugalhados, do you get it? Do you capisici, caro? e eu digo que sim, sem perceber o que é que é para perceber, e ele ri-se. Sim, o Inverno é isso, uma narrativa absurda às três da manhã numa pizzaria, enquanto na televisão passam os jogos olímpicos de inverno. E é de novo as ruas da cidade, semi-nevadas, cujos respectivos nomes estão escritos em letras brancas e afixadas em placas verdes penduradas nos semáforos. São nomes colocados e iluminados de forma muito iconográfica, como se cada rua fosse uma instituição, ou o título de um conto ou, quem sabe, um sentimento. O Inverno é uma narrativa afectiva de South State, Liberty, North University, Packard, Hill, Hoover, Oakland, Huron, Main — entre tantas outras emoções. Todas elas calmas, mas assertivas; serenas, mas profundas. Por vezes aborrecidas, mas pelo menos justas. O Inverno é um sentimento misto, e é a inexistência de qualquer promessa ou ideia de futuro. É um presente mais forte do que o costume, como uma canção instrumental que nos envolve sem darmos por ela, ou um filme que não pára de nos visitar em sonhos. O Inverno, no fundo, é um caminho para casa. Difícil, mas bonito.

Sunday night lights

Deitado no sofá da sala, a digerir tanto o jantar como a semana. Deitado no sofá, com as três janelas atrás de persianas corridas a metade, e uma televisão desligada em frente. Deitado, com a cabeça na almofada e a ver os três candeeiros de tecto da cozinha, em frente. Deitado no sofá e acho que uns vizinhos do andar de baixo até tocam ou estão a ouvir alguma coisa pesada, mas a verdade é que não ouço. Deitado na sala, mãos atrás da cabeça e pernas esticadas, aprecio apenas o calmo fim da semana, que como num bom filme começa a repousar em mim, enrolada na suave cadência de umas teclas de piano. Só isso. Só.

A neve lá fora

A neve lá fora, trazida por tempestades nocturnas que enchem as ruas, as janelas e os tectos. A neve lá fora e a aumentar, caindo de forma pesada pela janela do meu quarto. A neve lá fora sobre os passeios largos, as placas verdes das ruas e avenidas cujos cruzamentos dariam bons títulos para contos, como State e Huron, Packard e Hoover, Oakland e Hill. A neve lá fora e as pessoas com casacos, gorros, luvas ou o que for com algum símbolo azul e / ou amarelo e aquele ‘M’ em toda a parte. A neve lá fora e a minha cara embrulhada no cachecol que a minha Mãe me fez, com as mãos para dentro do casaco como um hustler de filme em busca de sarilhos, aproveitando o frio na cara e os tesouros desta cidade catita. Não sei porquê lembro-me de uma fotografia icónica de James Dean enquanto ando, e à noite apercebo-me que é o aniversário do seu nascimento. A neve lá fora e um velho mas belo cinema com um organista a dar show antes da sessão começar. A neve lá fora e o meu corpo dentro de uma casa boa junto à rua, ou de uma sala de investigação incrível, dentro de uma faculdade de pedra com condições para lá de top, ou de um pequeno e quente quarto com uma cama alta. A neve lá fora e Ann Arbor com os seus cafés, restaurantes, cinemas e salas de concerto, as suas ruas e arcadas, as suas lojas e as suas pessoas, os seus bares e a sua cerveja, os seus ginásios e a sua universidade a receber-me abertamente, como se nunca daqui tivesse saído. A neve lá fora e o bom de tudo isto, da chegada a este pequeno paraíso académico numa América perdida e do conforto que imediatamente sinto. A neve lá fora e eu, cá dentro, a aquecer, sem entusiasmo nem passado, só com liberdade e presente. A neve lá fora e tudo o que precisei para “chegar” e assentar foi um gabinete, uma noite bem dormida, uma biblioteca cheia de livros, um passeio até ao supermercado cooperativo, uma ida ao cinema para ver a nova obra-prima de Agnès Varda (se têm um pingo de humanidade dentro de vocês por favor vão ver Visages Villages, um road movie incrível sobre arte, pessoas e vida), um quarto quente numa casa simpática e uma (lindíssima) canção de Stephen Malkmus. A neve lá fora e a mesma previsão para os dias que se seguem: trabalho, cinema, ginásio, e calor. Tenham um bom carnaval, que o meu será assim.

Ir de viagem

Defini há muito tempo a partida como um ponto fixo no meu calendário existencial. Há um antes e haverá um depois. É difícil que assim não seja quando temos uma viagem ou um período longo fora de casa com regresso marcado. Há sempre um antes e um depois. Nunca sei bem o que será o segundo. Antes das viagens não sinto um entusiasmo ou ansiedade muito declarado, embora saiba que por dentro já tenho o foco no lugar. Quero lá chegar, abrir a porta da nova casa e instalar-me no novo quarto, com as malas no chão e o corpo na cama. Quando fechar os olhos concluo o trajecto de horas e quilómetros que fiz antes e quando acordar já começa tudo ao ritmo imprevisível da novidade do espaço e do tempo. E aí sei que os dias serão o que tiverem de ser. Há ideias, e há projectos — e há planos, alguns mais abertos e outros mais delineados. Veremos como sucedem. Não pensei muito neles nesta última semana, confesso. Aproveitei para dizer os até-jás, para comer o que não vou poder comer durante quatro meses, para estar com quem quero. Para passear onde não vou passear e para festejar o que não vou, pelo menos em pessoa, viver nestes tempos. Quatro meses é pouco dentro do grande esquema das coisas, mas se virmos bem estamos a falar de um terço do ano. Quando voltar será o fim da Primavera e já deverá haver sol e praia, e é a única coisa certa que sei. O resto nem suspeito. Vou de peito aberto e acho que é tudo o que basta. Apetece-me muito sair e estar longe, confesso. É uma óptima maneira para me (des)concentrar. As viagens são as melhores formas de nos tratarmos e mexermos por dentro, com a desculpa de ver coisas novas que nos tocam de alguma forma sublime mas profunda, provocando-nos interiormente  na nossa individualidade. Acho que o mundo é o melhor catalisador existencial que há. De que forma serei provocado, tentado, provado, tocado e sentido? Não sei. Nem faço a mínima ideia. Como no poema quase apostólico de Ruy Belo (adaptado à figura deste que vos escreve) “Está sereno” o viajante, que procura “pôr o rosto do senhor por trás das suas palavras / Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.” E é isso, e apenas quero ir. O depois, logo se vê. Até já, pessoal. Vemo-nos no Verão.

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Banda sonora invernal

Metro do Rato, sexta-feira: um jurista académico em despedida do inverno lisboeta ouve o guitarrista diletante das nove da manhã, na entrada da estação. Viola americana, sons americanos, aqueles instrumentais simples que são mil paisagens. Tocando de pé, trocam um aceno e obrigados mútuos. O jurista agradece pela música, que lhe embala o pensamento e prevê a viagem seguinte. O músico agradece pelos trocos que o jurista lhe dá. Transações simples e gratificantes, para começar o dia da melhor maneira, numa sexta-feira. Ansiedade de estrada? Nenhuma. Apenas a espera serena de uma partida iminente. Até lá, é aproveitar. Assim.